20 p’ra trás, 20 p’rá frente…

Por a 5 de Abril de 2018
Ricardo Monteiro, global chairman Havas Worldwide (retired 2017)

Ricardo Monteiro, global chairman Havas Worldwide (retired 2017)

Há 20 anos atrás, três canais de televisão absorviam metade das audiências offline. Hoje também.

Há 20 anos atrás, o maior jornal português era o Expresso. Hoje também.

Há 20 anos atrás, o Continente era líder de retalho em Portugal. Hoje também.

Há 20 anos atrás, a Renault era marca de automóveis mais vendida de Portugal. Hoje também.

Há 20 anos atrás, as telecomunicações, o retalho, os automóveis e os bancos eram os maiores anunciantes em Portugal. Hoje também.

Há 20 anos atrás, o Partido Socialista governava Portugal. Hoje também.

Há 20 anos atrás, a Alemanha era a maior economia da Europa. Hoje também.

Há 20 anos atrás, os EUA eram a maior economia do mundo. Hoje também.

ricardo monteiro páginas

E como serão os próximos 20?
Vamos ver:

Dentro de 20 anos, apenas a RTP sobreviverá, subsidiada pelo Estado.

Dentro de 20 anos, o Expresso não terá edição em papel. E, provavelmente, também não existirá.

Dentro de 20 anos, o Continente será sobretudo um operador logístico de venda online. Se não o for, não terá sobrevivido.

Dentro de 20 anos, a Renault continuará a fornecer soluções de mobilidade. Provavelmente elétrica. Provavelmente autónoma. Provavelmente sem venda ao público.

Dentro de 20 anos, as telecomunicações serão uma commodity. E as empresas do setor terão migrado de “dumb cable” para provedores de conteúdo.

O retalho criará e produzirá a sua própria divulgação, os bancos também.

Dentro de 20 anos, o sistema político nada terá a ver com o actual. Mas a política continuará a mandar nas nossas vidas.

Dentro de 20 anos, a Alemanha continuará a ser a maior economia europeia. E a China, a maior do mundo.

O Google, a Amazon e o Facebook terão sucumbido sob o peso das suas contradições. De democratizadores da informação, do consumo e da socialização, passaram já a monopolistas dos dados. Estados e cidadãos quebrarão o seu poder, obrigarão à partilha das suas “data farms” e olharão com tal cobiça para os seus lucros que os transformarão em porquinhos-mealheiros de tudo quanto é governo e sistema de segurança social. E, pior ainda, serão olhados com a mesma desconfiança e desprezo que hoje dedicamos a bancos e a empresas tipo EdP. Se é que ainda vão existir….

A robotização e a inteligência artificial terão reduzido seriamente o tempo que dedicamos ao trabalho. E tudo estará um pouco melhor, como melhor está hoje do que há 20 anos atrás.

A pobreza absoluta (menos de 1$90/dia) caiu de 45% em 1990 para 9.6% em 2016.

A média de horas trabalhadas por semana nos anos 50 era de 50 horas. Hoje é menos de 40.

Em 2006, quase 40% dos portugueses abandonava a escola antes do terminar o secundário. Hoje apenas 12% deixam os livros antes do fim do liceu.

Portanto, apesar das nossas dúvidas, o mundo vai-se resolvendo e resolvendo os seus problemas…

A publicidade, essa, continuará a existir. Quem a criará, quem a produzirá, como será veiculada, como será paga, como será medida, tudo isso vai mudar. Mas o que não vai mudar é a sua essência, essa que nos faz pausar perante um quadro de mestre, uma composição inspirada, um livro brilhante. Essa essência feita de emoções, de envolvimento e encanto. Essa essência que nos move e comove: a nossa natureza humana.

*Por Ricardo Monteiro, Sonae IM Advisory Board Member – Invited Professor – Porto Business School – MBA Universidade Católica Portuguesa – TVI24 News Comment – Global Chairman Havas Worldwide (retired 2017)

O Meios&Publicidade faz 20 anos. A data começará a ser assinalada na próxima edição, na qual – entre outros artigos – partilharemos reflexões sobre o presente e o futuro escritas por uma série de profissionais, que foram notícia em 1998 e/ou em 2008. 

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