O poder do design gráfico: curar o mundo, combater a vulgaridade e ficar na história!

Por a 23 de Fevereiro de 2018
Carlos Rosa, director do IADE-Universidade Europeia

Carlos Rosa, director do IADE-Universidade Europeia

A vida de um designer gráfico é uma vida de luta, de luta contra o feio, dizia Massimo Vignelli. Assim como um médico luta contra a doença. Eu sou suspeito, pois também sou designer gráfico mas diria que, para nós, a doença é estritamente visual! E o que tentamos fazer é curar o mundo com o design. Essencialmente e acima de tudo com o bom design!

Pois é esse, o bom design, que resiste à história.

E o bom design é uma linguagem, não é um estilo. Os estilos vêm e vão. O bom design não, esse vem e fica. Perdura. Resiste à história.

De certa forma é isso que se persegue, um lugar na história.

O design faz-se de ciclos e contraciclos, de fluxos e refluxos, de invenção e reinvenção, mas há poucos que resistem, e há ainda menos os que ficam na história.

Uma das formas de resistir e perdurar é ser-se reconhecido, seja por um prémio, seja por uma recompensa ou uma simples gratificação.

Há variados exemplos de projectos que fizeram a história de 2017. Há os que trazem reconhecimento fora de portas, exemplo do Lápis da D&AD que a White Studio trouxe para Portugal, e os que nos conquistaram cá dentro, como a produção audiovisual da Solid Dogma para a Câmara Municipal de Lisboa, que tão bem promove a nossa capital. Há também os ficam na história por contarem a sua, exemplo do livro que celebra os 50 anos da 3M, produzido pela LST Artes Gráficas com design da By.

Estes e muitos outros que conseguiram ultrapassar a linha da vulgaridade.

Vignelli disse exactamente isso, que uma das grandes premissas do design gráfico era diminuir a quantidade de vulgaridade no mundo, tornando-o num lugar melhor para estar.

E eu gosto sempre de reafirmar que o design gráfico não é uma coisa! Não é (só) fazer um boneco. Não é (só) fazer coisas bonitas! O design gráfico (ainda) tem uma palavra a dizer.

Isto pode parecer arrogante, e eu sou suspeito pois grande parte da minha formação base foi em design gráfico, mas o design gráfico é a base de todo o design que se enquadra no “mundo visual”.

Os designers gráficos, e todas as suas, antigas e novas declinações, visuais, de comunicação, de interfaces, etc, etc…, lutam contra isso mesmo: contra a vulgaridade. Lutam contra o mundo tangível, perseguem a intangibilidade da qualidade. Lá está! Perseguem ficar na história.

E ficar na história não significa que se faz design a pensar no prémio. O prémio é a consequência natural de ficar na história, fazer parte dela, ou seja, marcar a diferença.

E marcar a diferença muitas vezes passa por recordar, reviver e reinventar os clássicos. Dar-lhes vida, mostrá-los, ensiná-los. Levá-los às escolas. Dar-lhes palco. Dar-lhes liberdade e espaço nas nossas aulas para também eles passarem o seu conhecimento. Que é incomensurável!

Servem de inspiração às novas gerações e as novas gerações dão-lhes viva. Dão-lhes história.

Os produtos nascem e desaparecem, é algo que não controlamos. Verdade! Mas sobre marcar, ou sobre os objectos que realmente nos marcam, a história, essa, já nos diz o contrário. Se eu sou da geração da histórica marca MTV, já os meus filhos serão da geração Netflix. Aqui pelo meio estão cerca de 30 anos de ciclos e contraciclos, de invenção e reinvenção. O que estará para vir poucos sabem, mas pode-se tentar adivinhar as modas e as tendências que têm essa capacidade viva de renascer. Os planos de cor intensa, as apostas nas formas tipográficas exageradas poderão afirmar-se no ano que agora entra. O chamado flat design, poderá estar para durar. Simples e directo. Conciso. Em suma, linguagens formais e cromáticas “tipo Vignelli”.

Os designers gráficos, grandes arquitectos da informação, são os mestres da clareza e da informação. São os mestres das mensagens. São os mestres da semântica. E o mundo precisa de semântica, de significados.

“Gosto que o design seja semanticamente correcto, sintaticamente consistente e pragmaticamente compreensível. Gosto que seja visualmente poderoso, intelectualmente elegante e, acima de tudo, intemporal”. – disse Vignelli. E eu gosto disso. Elegante, poderoso e intemporal.

São três excelentes palavras, mas a última, a intemporalidade, é algo que de uma forma ou de outra, todos queremos.

E queremos esse lugar, nem acima nem abaixo, queremos esse lugar na história, mesmo ali ao lado do Vignelli.

Artigo de opinião de Carlos Rosa, director do IADE Universidade Europeia

Deixe aqui o seu comentário