A RTP Memória e a actualidade

Por a 5 de Dezembro de 2017
Luís Paulo Rodrigues

Luís Paulo Rodrigues

Um mês de Novembro marcado pela morte de algumas figuras públicas que milhões de portugueses conhecem através dos meios de comunicação levou-me a reflectir sobre o papel da RTP Memória e da sua programação no contexto dos conteúdos produzidos e difundidos pela Rádio e Televisão de Portugal (RTP).
Antes de mais, devo dizer que a RTP, enquanto operador público de rádio e televisão, melhorou muito nos últimos anos, não só ao nível da diversificação da programação e dos conteúdos nos vários canais de televisão e da sua disponibilização à população, justamente com a liberação em canal aberto do canal de informação RTP3 e da RTP Memória, como no esforço permanente de independência e rigor da sua equipa de jornalismo.
Na programação da RTP Memória, observo, porém, que necessita de um esforço de acompanhamento da actualidade, de uma nova dinâmica, que implica agilidade e criatividade face aos acontecimentos quotidianos, fazendo uma ponte imediata e permanente com as memórias do passado. Uma ponte de ligação do presente aos registos televisivos do passado, que ajude a audiência a compreender o significado da actualidade como, por exemplo, o significado da morte de artistas como João Ricardo ou Zé Pedro, de empresários como Belmiro de Azevedo ou de jornalistas como Pedro Rolo Duarte. Ou seja, nomes destacados na sua actividade que ao longo do tempo mereceram a atenção da programação da RTP.
Assim como um canal de notícias pode interromper a sua emissão por causa de algo que está a acontecer no momento (infelizmente, para haver directos televisivos, já não é preciso acontecer nada de muito extraordinário…), também um canal de memória, que se baseia na retransmissão de conteúdos de outros tempos, poderia estar preparado para situações excepcionais, mudando a sua programação em função de acontecimentos do dia ou da semana cujos protagonistas tenham tido um passado público relevante e documentado em programas televisivos.
Aproveitando, como exemplos ilustrativos, as mortes do actor João Ricardo (que trabalhou em produções da RTP), do jornalista Pedro Rolo Duarte (que teve programas na RTP), do empresário Belmiro de Azevedo, que deu entrevistas à RTP, e do guitarrista Zé Pedro, que actuou em concertos dos Xutos e Pontapés registados ou transmitidos pela RTP, todos desaparecidos no mês de Novembro, penso que ficaria muito bem à RTP Memória ajustar a sua programação para retransmitir séries em que participou João Ricardo, programas e entrevistas em que participou Pedro Rolo Duarte, entrevistas de Belmiro de Azevedo e concertos e/ou entrevistas de Zé Pedro.
Estes dias, dei uma vista de olhos pela programação da RTP Memória e não vi nenhuma alteração em função da actualidade. No entanto, no dia em que morreu Belmiro de Azevedo, o serão da RTP Memória poderia ter tido em destaque uma das mais importantes entrevistas dele. Curiosamente, a RTP1 retransmitiu uma. E no dia em que morreu Zé Pedro, a RTP Memória poderia retransmitir um dos grandes concertos dos Xutos & Pontapés. No dia ou nos dias seguintes.
Se esta agilidade da RTP Memória acontecesse, tornando a programação mais imprevisível e pautada pelos acontecimentos do presente, mas relacionando-os sempre com o passado, não tenho dúvidas que o canal teria muito mais interesse e audiência.
Além disso, em minha opinião, um canal de memória deixa de ter interesse quando está amarrado por uma programação antiga sem qualquer “diálogo” com a actualidade que estimule e surpreenda as audiências.

Artigo de opinião de Luís Paulo Rodrigues, consultor de comunicação e editor do blogue Comunicação Integrada (www.luispaulorodrigues.com)

Deixe aqui o seu comentário