“Os algoritmos deviam estar nas mãos dos editores e dos publishers”

Por a 10 de Novembro de 2017

IMG_7104A influência que as grandes empresas tecnológicas como Google ou Facebook têm hoje sobre os media e sobre a forma como a informação chega às pessoas pairou sobre a maioria das discussões em torno do jornalismo na Web Summit. Os algoritmos são bons ou maus para o jornalismo? Mike McCue, um dos fundadores do Flipboard, defende que podem ser bons mas para isso “é importante que os algoritmos estejam nas mãos de dos editores e dos publishers”. Depois de ouvir Tony Gallagher, director do diário britânico The Sun, afirmar que “os algoritmos são maus para o jornalismo porque as pessoas têm uma má imagem dessa tecnologia, sentem-se manipuladas, e isso faz com que o nosso tráfego desça”, Mike McCue argumentou que não vale a pena diabolizar os algoritmos e que “se forem bem utilizados podem ser muito bons para o jornalismo”. “Nós precisamos de algoritmos, há milhões de conteúdos publicados todos os dias, mas têm de ser bem utilizados para que não sejam factores como o número de partilhas a determinar o ranking do conteúdo e se aparece ou não no feed dos utilizadores”, afirmou o co-fundador do Flipboard na Web Summit.

Esse foi precisamente o ponto sublinhado por Tony Gallagher, que criticou o facto de que “os posts são promovidos com base em gostos e partilhas e isso retira ao conteúdo o seu valor informativo. Podemos fazer a melhor história possível, com investigação e investimento na produção da informação e em minutos vemos a história cair nos rankings do algoritmo porque surgiu algo polémico e com menor valor informativo mas que foi partilhado centenas de vezes”. É nesse sentido que Mike McCue reforça a necessidade de esta tecnologia ser bem utilizada. “Se forem bem usados, os algoritmos podem ajudar a descobrir jornalismo de qualidade que nem conhecíamos, mas é importante que os algoritmos estejam nas mãos dos editores. As tecnológicas deviam contratar jornalistas e incorporar essa cultura do jornalismo de qualidade no desenvolvimento dos algoritmos”, aconselha.

No Flipboard, exemplificou Mike McCue, “usamos algoritmos mas para os editores, para personalizar conteúdo e para levar as pessoas a descobrir outros conteúdos, são desenhados em conjunto para que os editores possam influenciar os inputs”. “Não acho que as tecnológicas tenham más intenções, simplesmente não têm esta cultura jornalística e não sabem como funciona o mundo do jornalista”, acredita o co-fundador do Flipboard, para quem, em sentido contrário, também seria “preciso os publishers perceberem melhor a tecnologia”.

O director do The Sun reconhece que “a indústria noticiosa não tem feito um bom trabalho em conhecer o leitor, saber como se comporta no site, os seus hábitos. Temos de melhorar”, admite, embora volte a sublinhar que “também não fomos ajudados na nossa tarefa por essas grandes plataformas”. “Eles detêm os dados, eles são os maiores publishers da história e retiram os dado dos publishers mas não a partilham”, aponta. Em conclusão, afirma Tony Gallagher, “de momento é uma conversa de um só sentido, o tráfego dos nossos conteúdos de qualidade cai em detrimento de conteúdos virais que são privilegiados no feed. Nós tentamos mudar alguma coisa mas o algoritmo não é mudado”.

“Tem de haver uma mudança do algoritmo e não estamos a ser ouvidos nesses sentido”, lamenta o director do The Sun, mostrando-se menos optimista do que Mike McCue relativamente às intenções das grandes empresas tecnológicas: “Não penso que eles compreendam, ou queiram sequer compreender, quanto custa fazer jornalismo. Ou são ingenuamente ignorantes ou compreender isso não serve os seus interesses.”

Na fotografia: Mike McCue (Flipboard) e Tony Gallagher (The Sun) numa conversa moderada pelo jornalista da Adweek Martin Swant

O tema da influência que as grandes empresas tecnológicas como Google ou Facebook têm hoje sobre os media será aprofundado na próxima edição impressa do M&P

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