Imprensa: Vamos continuar a fazer de conta que não entendemos?

Por a 5 de Setembro de 2017
José Pedro dias pinheiro

Desde que surgiu a internet que se vaticina o fim da imprensa. E é um facto que a imprensa tem vindo a sofrer uma erosão significativa, seja no número de títulos, seja na dimensão da circulação. O problema não tem a ver só com a imprensa. É um problema da comunicação social como um todo e da informação editada em particular. O “papel” aqui só vem aumentar (ou esconder) esta realidade, num contexto em que o digital é incontornável. O que está em causa é o modelo de negócio que financia a curadoria e edição de conteúdos, ou seja, a capacidade do publisher financiar os custos que tem com a produção dos seus conteúdos. O modelo atual esgotou-se e terá de mudar. Será que ainda vamos a tempo? Numa economia pequena como a Portuguesa, a “imprensa” não sobreviverá com as receitas da publicidade, que deixou de “precisar” dela, nem com as vendas em banca e assinaturas, que continuam a baixar. Há 15 ou 20 anos tinhamos talvez 1 milhão de leitores em Portugal que compravam jornais e revistas com periodicidade, ou liam o que outros compravam. Qualquer inquérito realizado hoje revelará que muitos mais “lêem” conteúdos produzidos por publishers. Será fácil chegarmos a uns 4 ou 5 milhões de gente “informada” e “culta”, não porque compre ou leia qualquer jornal ou revista, mas porque toda a “informação” lhes chega pelas redes sociais. Estas intermedeiam a relação entre os que escrevem e os que lêem. Pior, são algoritmos (regras) que definem essa intermediação, o que faz com que a diversidade esteja condenada a prazo, e se caminhe para uma polarização de opiniões (basta ler os comentários que são produzidos por uma nova elite “sábia” e “culta” que não prescinde do seu papel de “crítico”, “comentador” ou mesmo “sensor” de tudo e de todos). Os leitores originais vão desaparecendo e nada se faz de muito sério para cativar outros. O que se escreve e publica hoje é pior e menos relevante (opinião minha) do que no passado, desde logo porque não se fazem “omeletes sem ovos”, as receitas dos publishers estão a descer, e vêm-se cortando a direito os custos, como resposta, sem que tal signifique necessariamente o ajustamento adequado. Por isso a comunicação social editada continua a perder audiência, e perderá muito mais, enquanto não encontrar uma nova fórmula para se financiar. E assim chegam as fake news e as realidades alternativas. Custam infinitamente menos a produzir, geram audiências maiores, e por isso vendem melhor e mais caro. Não vale a pena fingir que a “imprensa” é imprescindível à publicidade, porque não é. A imprensa que aqui menciono, sempre lato senso como comunicação social, faz sim muita falta à democracia, à sociedade, à cultura e à ética. O que tem de mudar é a forma como esta se sustenta e financia. A pergunta é, vamos continuar a fazer de conta que não entendemos? Falamos da quebra dos investimentos publicitários para justificar o desinvestimento na imprensa, mas aceitamos que os mesmos investimentos sejam distribuídos por qualquer tipo de conteúdo, editado ou não, que é “vendido” nas plataformas tecnológicas por qualquer preço (bem sei que não são os contextos que se estão a vender ou a comprar). Tudo isto também porque insistimos num modelo que acabou, onde a qualidade da intermediação e a escala eram a vantagem, quando agora esta é a tecnologia e os dados, e tudo isto tem custos, e exige tratamento muito qualificado, particularmente em ambiente programático. Insistimos pois em não querer ver, não querer pagar, em aceitar o incerto e o inseguro, o que, como veremos, não protege os interesses das marcas (pelo menos os que por estas são declarados). Não sou adepto de qualquer modelo que fomente um apoio público ou uma regulação financeira da comunicação social. Mas talvez valha a pena pensar se, quem está de facto a ficar com o grosso dos investimentos publicitários (que não estão a diminuir como se procura fazer crer, antes pelo contrário), não deveria ter uma maior responsabilidade na salvaguarda destes interesses, ao invés de promover uma total falta de transparência sobre o que se compra e o que se vende no mercado publicitário, pelo menos durante este período de transição, que se arrasta há tempo demais e que, quando chegar ao fim, poderá ser já demasiado tarde. Não sei se é solução, ou sequer se há solução! O que sei é que não podemos correr o risco de “perder” a comunicação social, fingindo com hipocrisia que nada do que podemos fazer está ao nosso alcance. Talvez tenha chegado o tempo de fazer uma reflexão séria sobre este tema. É minha convicção que, em pouco tempo, vamos ter muitas saudades da informação editada, com qualidade e opinião.

Por José Pedro Dias Pinheiro, CEO GroupM Portugal

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