Factos e Ficção…

Por a 9 de Agosto de 2017
Ricardo Monteiro

Ricardo Monteiro

Facto 1 – Portugal pede ajuda ao FMI e à União Europeia. O The New York Times publica um artigo com uma foto de um burro de Mirandela afirmando que o país fora à falência por excesso de subsídios como, por exemplo, aos burros daquela terra. Estamos em 2011.

Facto 2 – Portugal transforma-se no P do infame acrónimo PIGS.

Facto 3 – Garrett McNamara cavalga uma onda gigante na Praia do Norte, na Nazaré. A fotografia do feito torna-se um fenómeno mundial, sendo a imagem mais publicada na imprensa internacional nos quinze dias seguintes ao acontecimento.

Facto 4 – Anthony Bourdain vai comer ao Ramiro.

Facto 5 – Um vendedor de rua imola-se na Tunísia. O norte de África transforma-se num caldeirão de revolta. A Líbia, o Egipto e a Síria são arrastados. Nos dois primeiros os seus lideres de décadas caem e a instabilidade instala-se no mundo Árabe nosso vizinho.

Facto 6 – A Grécia aparece nas notícias de todo o mundo. A Praça Sintagma envolve-se em protestos violentos e um povo revoltado mostra a sua ira.

Facto 7 – A Turquia mergulha nas incertezas do islamismo. Erdogan sobrevive a um golpe mas envia milhares para a prisão. Tanques nas ruas. E, antes disso, há tiros no aeroporto de Istambul e pelo país fora.

Facto 8 – Atentados varrem a França. Charlie Hebdo, Bataclan, Nice. A Côte d-Azur perde o glamour. A França cai sob a sombra do terrorismo islâmico.

Facto 9 – Governantes portugueses convencem o organizador do Web Summit que um Portugal ensolarado é melhor que uma Irlanda chuvosa.

Facto 10 – Outro governante português liberta a regulamentação do alojamento local e facilita o licenciamento de hostels.

Facto 11 – Uma lei fiscal permite a obtenção de Vistos Gold e que franceses reformados se instalem em Portugal sem pagar IRS.

Facto 12 – Portugal ganha o Campeonato Europeu de Futebol.

Facto 13 – Um português é nomeado secretário-geral da ONU.

Facto 14 – Portugal ganha a Eurovisão. Estamos em 2017.

Factos 1, 2, 3 e 4 trazem-nos a notoriedade que há muito não tínhamos.

Factos 5,6, 7 e 8 incapacitam e inviabilizam a maioria dos países nossos concorrentes na área vital do turismo.

Factos 9, 10 e 11 inauguram a era do Governo-promoção e do país descomplicado.

Factos 12, 13 e 14 estabelecem Portugal como um país vencedor.

Em seis anos apenas passámos de perdedores desconhecidos a vencedores notórios.

Hoje, quando apresento o meu passaporte num hotel, olham para mim e dizem: “Ah! Portugal…”

Perguntaram-me o que penso das diferentes estratégias de promoção do país…como publicitário deveria ter uma resposta estruturada. Mas não tenho. A última é bonita. As anteriores não eram más… houve mesmo uma que teve razão “avant-la-lettre”, aquela que dizia que Portugal era a costa oeste da Europa… mas só agora, mais de uma década depois, fruto tanto do acaso como de acontecimentos que não controlamos e políticas que não coordenámos, encontrámos o perfeito alinhamento de estrelas que trouxe a Portugal a imagem que ele hoje tem, dinâmico, moderno, jovem, autêntico, empreendedor, ganhador. Além de lindo, acolhedor, com cozinha, com história, com tudo. E muito falado.

Não sei como deveria ser a promoção do país. Mas, se fosse do Turismo, de uma coisa eu tenho a certeza, mandava fazer um clip diário de tudo o que se publica sobre Portugal e assegurava-me que tudo era replicado nas redes sociais até à saciedade. Porque mais vale a Madonna a cavalo na comporta que mil anúncios inteligentes. E não esqueceria de mandar uma garrafa do melhor tinto do Douro aos editores da Monocle, Guardian, The New York Times, The Huffington Post e por aí fora, com uma nota de bem-haja…

Mas isto sou eu…

Artigo de opinião assinado por Ricardo Monteiro, ex-global chairman da Havas Worldwide

Este é um dos artigos que integra um dossier especial de 10 páginas dedicado ao sector do Turismo que poderá ler na próxima edição impressa do M&P

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