A Tecnologia é um Fim?

Por a 14 de Julho de 2017

Ana PaulaA resposta a esta questão foi dada claramente este ano em Cannes, ano em que o festival Cannes Lions assinalou a sua 64ª edição. A tecnologia não é um fim, mas sim um meio ou conjunto de meios ao serviço das causas, da criatividade. Esta foi uma das principais mensagens deste ano por parte do júri, em algumas das conferências e espelhada nos principais prémios atribuídos. Um bom exemplo, entre outros, é a campanha Care Counts (Grande Prémio na categoria Creative Data) da DigitasLBi de Chicago para a Whirpool, que tentou minimizar um problema social identificado: o de milhares de crianças nos EUA faltarem diariamente às aulas por não terem roupa limpa. Sendo que estas crianças são sete vezes mais propensas a abandonar posteriormente o ensino escolar e a enveredar por uma vida de delinquência. Assim, e dentro do seu território enquanto marca, onde o “everyday care” é um dos seus valores, criou o programa Care Counts, onde com base nos dados recolhidos e trabalhados como só a tecnologia permite, procurou perceber em primeiro lugar se haveria uma correlação entre o absentismo escolar e o facto de as crianças não terem roupa limpa. Em segundo lugar, perceber se instalar lavandarias nas escolas seria uma das soluções para o problema. Podem ver-se os resultados aqui:

Outros bons exemplos são o grande prémio da categoria de Cyber Baltic Sea Projet ou The Humanium Metal Initiative, grande prémio na categoria de Innovation. O que dizer da presença gradualmente pujante das plataformas tecnológicas e agora também das consultoras (Oracle, Accenture, Deloitte, Mckinsey…) na Croisette? Como perguntam alguns, “são eles que agora mandam em Cannes?” Os milhões investidos anualmente por parte destes players traduzem antes sim o grau de relevância de se associarem à comunidade criativa que o festival todos os anos reconhece e premeia. É o reconhecimento de uma comunidade onde se encontram os “game changers” que ajudam as marcas não só a serem storytellers, mas também storymakers.

O festival Cannes Lions continua fiel ao drive que sempre esteve na base da sua existência: Premiar a excelência da criatividade em comunicação! A prová-lo, os prémios de que o Gran Prix Titanium desta edição é o corolário. Este prémio, o leão de Titanium, foi atribuído pela primeira vez em 2003, ano em que o festival celebrava 50 anos. Nasceu por sugestão de Dan Wieden (fundador da Wieden & Kennedy) ao então presidente do festival, Roger Hatchuel, para premiar o “outstanding”. Ao ser atribuído à campanha Fearless Girl, criada pela McCann USA, a qual foi Gran Prix também em outras 3 categorias (Glass Lions, PR Lions e Outdoor Lions) o júri, segundo o seu presidente Tham Khai Meng, defendeu que este trabalho vai para além do combate à desigualdade de género, é uma voz de combate aos medos, é um grito da industria a cumprir a sua função, a de dar um sinal à sociedade em geral e às marcas em particular quanto ao seu poder e à sua capacidade de mobilização, num mundo cujos valores vemos ameaçados diariamente. A tecnologia é uma inevitabilidade neste caminho. Pode ser a ajuda, pode ser a ameaça. A diferença será como for usada, como um meio ou como um fim!

Artigo de opinião Ana Paula Costa, MOP, representante portuguesa do festival Cannes Lions

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