A vida de um realizador português em Cannes

Por a 22 de Junho de 2017

Paco cruzA tenda monta-se e o “circo” volta a abrir as suas portas para mais um festival de Cannes. Tem sido assim ao longos dos últimos 64 anos e mais uma vez lá vamos nós em procissão para o mais importante e sem dúvida o mais prestigiante festival de publicidade que existe.
Durante sete dias criativos, clientes, agências, produtores, realizadores, músicos, casas de pós-produção, agentes e meio mundo vai estar presente em Cannes. Quer se goste ou não, Cannes acaba por ser um lugar de passagem obrigatória. Mas para lá do que se vai passar no “Palais des Festivals” a verdadeira vida para um realizador e para uma produtora de filmes acontece cá fora.
São dias intensos de uma constante e desgastante rotina: acordar, reunião, trocar contactos, falar, beber um café, despedir-se, ir para o próximo ponto de encontro (provavelmente do outro lado da La Croisette, ou seja andar 15 minutos de baixo de um tórrido calor), encontrar os produtores com quem se tinha marcado o encontro, sentar, voltar a beber qualquer coisa mais, voltar a falar, voltar a contar mais histórias, despedir, mais uma bebida, trocar cartões e, voltar para a próxima reunião noutro bar ou noutro hotel, voltar ao mesmo, ficar em pânico porque acabou a bateria do telemóvel, arranjar maneira de carregar o telemóvel e seguir para o encontro seguinte. Desta vez, como já vamos a meio do dia, a próxima paragem será numa casa nas encostas de Cannes (as famosas pool parties que normalmente de exótico só têm mesmo o nome )… Mas a cidade de Cannes por esta altura já transborda pelas costuras e precisamos de apanhar um táxi para ir à tal casa que fica algures nas encostas… Um táxi em Cannes é um mito. Depois de muita luta lá se consegue apanhar um que com toda a certeza será partilhado com um conjunto de estranhos e, claro, aproveitamos logo para conhecer e trocar contactos e fazer mais conversa de circunstância.
Por fim chega a noite e os dois mundos (de quem assiste ao festival e de quem percorre as capelinhas cá fora em reuniões e encontros) acabam por se unir.
Mais coisa menos coisa, esta será sempre um pouco da vida que decorre em paralelo com o festival que acontece dentro do “Palais”.
Reuniões informais outras menos, contactos e, acima de tudo, a oportunidade de podermos conhecer em poucos dias pessoas da nossa indústrias de todos os cantos do mundo que de outra forma seria muito difícil.
Ter ganho dois leões em Film Craft abriu-me a porta a um mundo de oportunidades que muito dificilmente conseguiria ter acesso de outra forma. Não só de poder entrar em pitches para campanhas globais (ao lado de outros realizadores que tanto admiro) mas também de conseguir acesso a reuniões em Cannes com produtoras com quem muito provavelmente nunca conseguiria ter um lugar à mesa.
Quando chegamos a casa vamos carregados de cartões, souvenires, contactos e muitos emails trocados. Apesar de muito ficar esquecido, basta um contacto resultar, conseguirmos um filme ou um parceiro de trabalho para que a ida ao festival já tenha valido a pena.
No início quando comecei a frequentar o festival a maioria da presença portuguesa era das agências e produtoras de services. Hoje, começamos a notar uma pequena alteração com um maior número de produtores e realizadores portugueses a tentarem deixar a sua marca.

Artigo de opinião de Paco Cruz, realizador da Major West

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