Pedro Ferreira: Tudo em prol dessa palavra (com vídeos)

Por a 19 de Junho de 2017

Pedro ferreiraEm 94 fui a Cannes pela primeira vez pela Nova Publicidade com a Judite. Era tudo novo para nós. O festival só o conhecíamos das K7 U-Matic que chegavam meses depois.
Nesse primeiro ano enviámos quatro trabalhos para serem julgados. Ganhámos com O Código Postal Mudou para os CTT e tivemos uma shortlist com a Fashion Clinic. Foi um ano que vai ser irrepetível em termos de performance. Ganhamos bronze em Filme mas a verdade é que já estávamos muito contentes e a celebrar com as shortlists. Poucas eram as agências em Portugal que tinham ganho leões até essa data. Era o maior festival de publicidade do mundo e como dizíamos nessa altura, trazíamos um bicho. Bronze.
Mas tal como o mundo onde vivemos, o maior festival de publicidade do mundo mudou. Mudou para algo multidisciplinar, tecnológico, difícil de definir.
Mudou para festival of creativity e, nesta palavra, cabe quase tudo, ou pelo menos é o que quase todos acham. Das três categorias de 1993 (Film, Press&Outdoor) passamos para as 22 de hoje. Mobile, Innovation, Entertainment, Titanium. E aqui uma pequena história. A do meu amigo Drakalsky Dushan que quando ganhou o um Titanium perguntava-me. “Is it more important then the Gold Lion Pedro? Na minha opinião é. Mas ele preferia ter ganho Gold em Film. Era mais fácil de explicar à mãe. Apesar de haver hoje demasiadas categorias Film ainda é a categoria a que toda agente quer assistir, aplaudir e assobiar, twittar a dizer que esteve lá no meios dos 2.200 lugares do Grand Auditorium. Nem que seja para dizer mal nas escadarias. A malta gosta de dizer mal. “Como é possível aquela merda ter ganho.” Acontece todos os anos.

Mudou para festival of creativity e, nesta palavra, cabe quase tudo, ou pelo menos é o que quase todos acham

Mas vamos a 2017. Para mim o festival tem três fases distintas. 2017 começa quando o outro festival acaba, em Junho de 2016. Geralmente em Setembro há a fase das reuniões da Y&R Europa onde se começa a escolher o Best-of das regiões, as que vão depois a Cannes. Em Março há a fase das inscrições, deadlines e respectivos prolongamentos, das aprovações de budget, dos IWos’, dos directors cut e das versões em inglês. É hoje em dia um experiência difícil.
E há a semana onde mais de 15 mil publicitários e gente da indústria se junta.
À noite nos bares, de dia nas filas para assistir às palestras cronometradas ao minuto e que este ano junta nomes como Mario Testino, Alexander Wang, Christine Lagarte ou o Reverendo Jackson. Para além de criativos publicitários. Gente do métier que durante uma semana se mistura com Hollywood e a política. Tudo em prol dessa palavra. Criatividade.
Por experiência sei que é difícil adivinhar tudo o que vai ganhar Cannes mas há sempre as excepções. Este é um ano em que ganha Fearless Girl, reparem no nome, já ganhou. Neste ano em que o trend é gender equality. Ganha. Mas não consigo prever as cores dos leões ou categorias, esta é uma das ideias que dá para inscrever em quase todas as 22. Tenho também a certeza de que ganha o meu filme favorito de 2016 Colemn Sweenew, Even a Asshole Can Safe a Life. Tem tudo o que Cannes gosta, humor, final surpresa, é made in USA e por uma boa causa. Tal como ganha o Coins of Hope da Y&R, Wunderman Bélgica e ganha porque é uma daquelas ideias “never done before”.
Infelizmente não tenho a certeza de que o “Vamos pôr o Sequeira no lugar certo” da Fuel ganhe, mas eu gostava que ganhasse. Tal como gostava que mais ideias portuguesas e criadas por cá ganhassem. E gostava que os nossos Young Creatives saíssem orgulhosos com medalhas, de preferência ouro. Temos até tradição e sei que são tão bons quanto o melhor brasileiro ou inglês. Neste caso, têm as mesmas condições que os restantes, tirando o pequeno detalhe de não haver jurados nacionais a puxar a brasa à nossa sardinha, e isso conta. E muito.



Artigo de opinião de Pedro Ferreira, executive creative director da Y&R

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