“O crescimento do digital compensou a quebra de algum investimento no print”

Por a 9 de Junho de 2017
Cristina Soares, administradora do Público

Administradora do Público há nove anos, função que nos primeiros seis anos dividiu com Hugo Figueiredo e Pedro Nunes Pedro, Cristina Soares faz o balanço dos primeiros seis meses da direcção encabeçada por David Dinis, cujos resultados mais visíveis se vão materializar no Verão, com o lançamento de um novo site. O estado do sector, os restantes players nacionais e eventuais movimentos de concentração, a relação com os players internacionais, a monetização de conteúdos, as novas receitas e a relação com o accionista são alguns dos temas abordados na conversa, que poderá ler na próxima edição do M&P


Meios&Publicidade (M&P): Em Maio do ano passado foi anunciado que Bárbara Reis ia deixar a direção do Público e, cerca de um mês depois, que o cargo seria ocupado por David Dinis, que assumiu formalmente a direcção em Outubro. O que é que pretenderam com estas decisões? Qual o balanço?

Cristina Soares (CS): Os resultados vão, de alguma forma, reflectir melhor do que as palavras o que pretendemos. Mas posso dizer que o balanço é positivo. A própria direcção editorial teve um trabalho de reestruturação dentro da redacção, cada director e cada direcção imprime um registo muito próprio, e portanto…

M&P: No dia em que o nome da nova direcção surgiu pela primeira vez no cabeçalho lançaram três newsletters, o jornal chegou às bancas com alterações gráficas e de conteúdos e tinha sido formada uma equipa de breaking news, que implicou inclusive mudanças físicas na redação…

CS: Esta antecedência permitiu que o próprio director formasse a sua equipa, por um lado, e que fizesse todo um pensamento antes de tomar posse. Além das férias, a pessoa vai sempre e férias e pensa no que pode fazer – e o Público é muito diferente da TSF e também diferente do Observador, que era um projecto muito inovador mas só digital. O Público tem sempre aquela carga muito grande de uma redacção forte e com muita qualidade, com alguns ilustres jornalistas e repórteres e, nessa perspectiva, as coisas calharam bem. Não foi de propósito nem planeado, mas acabou por surtir bem o efeito, porque quando o David entrou como director já tinha todo um planeamento feito e que pôde logo pôr em prática. Quando isso não acontece, muitas vezes quando se entra em funções ainda se está numa fase de planeamento, pensamento e conceito. Por isso é que ao fim de seis meses já conseguimos apresentar dados francamente positivos.

M&P: Porquê a escolha de David Dinis?

CS: Porque acreditamos que o futuro do Público e de um jornal vai passar pelo drive digital. Achamos que nem todas as pessoas têm hoje em dia o drive digital no seu ADN, para além do de jornalista. Portanto, achámos que o David era uma boa escolha, e foi a primeira escolha. Fomos assertivos e estamos contentes com a escolha e com a confiança que estamos a depositar nele e na direcção. Mas, porque é que eu digo que o balanço é francamente positivo? Esta reestruturação teve como output uma significativa maior produção de notícias, essencialmente dentro da parte económica e política, por um lado. Por outro, eles reorganizaram um bocadinho a apresentação dos conteúdos,  no papel mas também no site. Digamos que a homepage, a organização e a dinâmica, durante as 24 horas das notícias também mudou. É evidente que enquanto no papel vemos algumas mudanças de grafismo e de paginação, no digital não vemos tantas porque, como sabemos, o digital é menos flexível do que o papel. No papel vamos ao InDesign e acabamos por alterar o desenho e mandar imprimir. No digital são coisas muito complexas e que além do frontend têm também a parte do backoffice, é todo um trabalho muito mais moroso. Mas estamos a trabalhar nele e é uma das novidades, vamos lançar no Verão um novo site, com uma nova arquitectura de informação. Acho que vai ser uma inovação grande no mercado. No digital demoramos mais seis meses do que no papel, mas é esta a nossa aposta, a aposta no digital. O futuro assenta muito no digital. Mas, para além da reorganização no site e no papel, também fizemos alguns conteúdos exclusivos, como o áudio no P24, o vídeo 360º, e estamos a desenvolver outros projectos ao nível do jornalismo de proximidade. Tudo isto resultou em um aumento de vendas em banca de 1,5 por cento, de segunda a sexta-feira (dados dos últimos seis meses, versus os seis meses anteriores). No fundo, podemos dizer que esta estratégia atenuou a quebra e até teve um aumento de 1,5 por cento nas vendas, o que contraria o mercado e a tendência do Público nos últimos anos. Não estamos a dizer que vamos crescer, mas demonstra muito o dinamismo e a diferença em termos de jornal e de conteúdos. Acho que o Público tem marcado a agenda e, quando assim é, verificamos que os leitores também correspondem, não só no papel como também no site. Apesar de termos ainda um site que no mundo digital podemos dizer que é velho – já foi lançado em 2012 – crescemos em visitantes. Ao crescer em visitantes, e essencialmente no heavy users, que são de facto as pessoas que lêem notícias, houve um grande aumento do engagement, que fez com que a venda de assinaturas aumentasse mais de 40 por cento, versus o ano passado.

M&P: Refere-se a números?…

CS: Estou a falar em euros. É mesmo venda, angariação de assinaturas. Mas, o que queria realçar, é que há um reconhecimento grande da estratégia que desenhámos e que está em permanente desenvolvimento. E, neste aspecto, gostava de dizer que está a decorrer o congresso da INMA, em que ontem (terça-feira) o CEO do New York Times deu uma entrevista em que diz que o futuro está nas receitas de audiência digitais. Eles têm uma paywall, como o Público, e de facto reafirmou o sucesso da estratégia. Para além da circulação, do tráfego digital e das assinaturas, a publicidade também cresceu. Estamos a crescer versus o ano passado. E, pela primeira vez, posso dizer que o crescimento do digital compensou a quebra de algum investimento no print.

M&P: Cairam no papel mas subiram no digital e no conjunto cresceram?

CS: Exactamente.

M&P: Quanto é que cresceram?

CS: Estamos a crescer mais de 5 por cento.

M&P: A imprensa, a valores reais, está a cair cerca de 20 por cento…

CS: Sim, sim. Mas, portanto, o crescimento das receitas, conjugado com um eficiente controle de custos e de recursos, faz com que o Público esteja a caminhar para a sustentabilidade, que é o nosso objectivo.

M&P: Os resultados já são positivos?

CS: Não, mas estão melhores, a estratégia está a correr bem. É evidente que estamos a investir, em recursos, em novas competências… Isto para dizer que uma das grandes conclusões que gostava de partilhar é que o comportamento, quer ao nível das assinaturas, quer ao nível da circulação, quer ao nível da publicidade, é reflexo da dinâmica que a equipa está a imprimir. Na área comercial temos uma nova equipa, na área editorial também e na área das assinaturas também temos pessoas com novas competências e novas experiências, essencialmente quase nativos digitais. Essencialmente os resultados traduzem o bom investimento que estamos a fazer em termos de competências. Queria dizer que é possível aliar, e isto é importante, uma comunidade de assinantes a uma gestão eficaz de publicidade. Ou seja, num projecto como o Público, que queira ter um drive no digital, acreditamos que o caminho para a sustentabilidade passa pela conjugação entre uma comunidade de assinantes e uma gestão eficaz de publicidade. Dai a paywall, que o permite.

M&P: Já disse duas ou três vezes que o drive é muito digital. O papel, apesar de agora terem crescido, continua a fazer sentido? É uma pergunta clássica no Público…

CS: É uma pergunta clássica. Até posso dizer que como estamos a crescer o papel está vivo. Mas estamos mais preocupados em produzir conteúdos e ser uma referência do jornalismo em Portugal, com reconhecimento internacional. O papel do papel… ele vai existir enquanto fizer sentido. E fizer sentido sobretudo para os leitores, para a sociedade e para o Público. Digamos que há aqui um triângulo. Hoje verifico que a sociedade política ainda se move muito com o print, não podemos esquecer que a nossa população é muito envelhecida, portanto há toda uma franja de leitores que ainda acha muito cómodo o jornal. O pdf é muito cómodo de ler mas, sobretudo ao fim de semana, as pessoas ainda compram o print…

M&P: Uma das hipóteses, há uns anos, terá chegado a ser sair só ao fim-de-semana.

CS: Pois, mas o sair… Nós saímos todos os dias, a todas as horas e todos os minutos. Vemos isto como uma plataforma, produzimos conteúdos. Para mim o papel é uma plataforma de distribuição tão importante como o mobile. Já estamos num estádio de desenvolvimento em que é fácil, é muito fácil, tomarmos a decisão de amanhã dizer “não faz sentido o papel a partir de amanhã, porque a sociedade já não se revê nesta plataforma, os leitores também já não se revêem, isto já não acresce nada ao Público e portanto…”. É porque nasceram outras plataformas, que entretanto têm mais protagonismo. Acho que já não há aqui…

M&P: Já não há drama?

CS: Já não há drama e em termos organizacionais não terá um impacto significativo.

M&P: Não implicará a saída de pessoas?

CS: Não.

M&P: Quanto é que o digital representa hoje na facturação do Público?

CS: Vinte a 25 por cento. A parte da audiência.

Deixe aqui o seu comentário