Sexismo ou parvoismo?

Por a 31 de Março de 2017
João Geada

João Geada

Há décadas que deparo com surtos de controvérsia, acerca do recurso a estereótipos sexuais em publicidade. Em todos estes anos, confesso que a minha opinião foi mudando e tenho a certeza de que vai continuar a mudar. Neste momento, ela prende-se cada vez mais com aquilo a que vou chamar Lógica de rebanho VS Lógica do indivíduo
Na lógica do rebanho, esta discussão faz todo o sentido, porque os anúncios são feitos para agra-dar massas treinadas para pensar de forma idêntica, para reagir aos mesmos estímulos, seguir as mesmas tendências e as mesmas marcas. Assim, recorre-se aos tais estereótipos de beleza, usando-os para estimular o cérebro reptiliano, a parte velha do cérebro dedicada aos processos básicos ligados à sobrevivência primordial, apenas para desenvolver desejos que, dizem, serão associados e transpostos para as marcas, levando o rebanho a comprar, de preferência sem sequer pensar.
Na lógica do indivíduo, usam-se quanto muito arquétipos e evitam-se os estereótipos, evitam-se os clichés e as receitas, porque se respeitam as idiossincrasias de cada pessoa ou grupo de pes-soas e em vez de estimular o sistema límbico fazendo a tal publicidade ‘pavloviana’, tem-se ideias relevantes e novas que desenvolvem a personalidade que a marca quer ter, de forma a quem deve gostar dela, gostar dela porque se identifica de facto com os seus valores e com a forma como faz o seu trabalho, presta os seus serviços e fabrica e vende os seus produtos, ou seja, gosta de toda a experiência e essa experiência é bem comunicada na sua publicidade.
Posto isto, só posso defender que se a ideia pede corpos bonitos descascados e sensuais e é uma boa ideia, venham eles, senão o que seria também do cinema, da música, da pintura, da escultura e da fotografia? A beleza é acima de tudo isso mesmo e é para ser apreciada porque faz sentido numa obra de arte ou porque ajuda a passar uma boa ideia num anúncio. Se é só para fazer o rebanho babar é mesmo muito parvo.

Artigo de opinião de João Geada, Chef Creative Human da The Creative Humanity

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