“Passa o Gallo”

Por a 30 de Março de 2017

António MelloAlguém consegue imaginar, durante um jantar de cerimónia ou não, um dos convidados/presentes, virar-se para alguém e dizer “Passa o Gallo”? Alguém consegue imaginar uma campanha com uma bela e apetitosa posta de bacalhau com o headline “Passa o Gallo”? É esquisito, estranho e desadequado. Certo ? E o melhor é nem imaginar, porque não pega mesmo !
Comparar bacalhau com hambúrguer, é, no mínimo, ofensivo. Pelo menos para mim. Ou azeite com ketchup. Isso então é pecado! Alimentação ou pratos especiais diferentes têm que ter tratamento e comunicação diferenciada. É natural…
Agora, o que foi feito ou proposto há 50 anos para o ketchup Heinz faz todo o sentido. Todo! Faz tanto sentido que a campanha criada por Don Draper, o galã criativo da série MadMan, foi na altura chumbada, e agora repescada e afixada em outdoors grande formato em  Nova Iorque. E provavelmente não ficará por aí…
heinz
Na campanha é tudo simples ! Fotos apetitosas de hambúrguer ou batatas fritas e o discreto headline “Pass the Heinz”.  Um conceito tão simples quanto rico e poderoso.  Ou seja, faltava qualquer coisa ali. É como se a comidinha reclamasse ou exigisse para si o Heinz ketchup. É fácil perceber a relevância desta campanha e desta ideia.
Um ketchup, parceiro privilegiado de hambúrgueres, batatas fritas, etc, num país como a América, resulta em cheio! Estamos a falar dos inventores do fast food, ou pelo menos daqueles que o globalizaram, e do consumidor americano que despeja ketchup em tudo o que é prato.
Só o buzz e o ruído que a campanha já terá provocado nos media e nas redes sociais – além de pôr muita gente a gritar à mesa “Pass the Heinz” – já garantiram à marca, um ROI bem gostoso.
Como publicitário e apreciador de grandes ideias, segui a série Mad Man todinha !  Quem teve a sorte de viver, como eu, uns bons anos no mundo das agências no século passado, encontrava na série, episódios e histórias já vividas e sentidas na pele.
Estava lá tudo – a estrutura/organigrama – a guerrinha account vs criativo – a competição e o veneno, e claro, a secretária boazona e influente que sabia tudo e mais alguma coisa e que era venerada pelos clientes.
Nas agências há paletes de dossiers de apresentações e maquetes de grandes ideias chumbadas. Verdadeiros cemitérios – que quem sabe, podem ver a luz do dia – tal como aconteceu com a campanha “Pass the Heinz” brilhantemente pensada pela agência de Don Draper.
Por isso, aconselho as agências a mergulharem no arquivo de ideias mortas e chumbadas. Quem sabe ? Talvez encontrem um novo Heinz… e ganhem umas massas…

Artigo de opinião de António Mello, publicitário

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