Como é viver e trabalhar no Dubai

Por a 14 de Fevereiro de 2017

SoniaA primeira pergunta que me costumam colocar quando descobrem que vivi e trabalhei no Dubai é: como conseguiste esse trabalho? Admito que não enviei nenhum currículo, nem me candidatei a qualquer vaga. Eu “dei-me a conhecer lá fora” através das redes sociais, principalmente recorrendo ao LinkedIn.
Há várias formas de criar um bom perfil no LinkedIn, mas eu recomendo principalmente uma: desenvolver uma rede de contactos relevantes. Não nos devemos focar em adicionar apenas quem já conhecemos pessoalmente. Acredito que a principal vantagem de uma rede social é podermos conhecer pessoas que, de outra forma, nunca cruzariam o nosso caminho. No meu perfil já acumulo mais de 4000 ligações, na sua maioria ligados ao marketing digital e residentes em vários pontos do planeta. Através delas recebo diariamente informação profissional relevante dos quatro cantos do mundo.
Numa vertente mais pessoal, e para facilitar a adaptação a um novo país para onde me mudei sozinha e sem conhecer ninguém, recorri aos meus amigos do Facebook. Uma pesquisa rápida permitiu-me concluir que vários amigos meus estavam ligados a alguém que vivia no Dubai. Assim, pedi aos meus amigos que fizessem as devidas apresentações e, antes mesmo de aterrar, já tinha estabelecido contactos com várias pessoas que me receberam no Dubai e que hoje considero amigos para a vida.
Não foi fácil decidir-me a ir trabalhar para o Dubai em Novembro de 2014, sobretudo devido ao desconhecimento total que tinha em relação aos Emirados Árabes Unidos. Teria de me cobrir toda? Teria autorização para conduzir? Poderia andar sozinha? Confesso que as condições oferecidas pela empresa seduziam-me bastante, incluindo os bilhetes de avião pagos e com desconto de staff. A verdade é que fui muito bem recebida pelos meus chefes e colegas, conduzi sempre o meu carro para todo o lado e pude vestir-me normalmente (apenas quando entrei em edifícios governamentais tive de ter o cuidado de tapar as pernas e os ombros).
Chegada ao local de trabalho, a sede do Emirates Group, o maior choque prendeu-se com a dimensão e a diversidade da empresa. Habituada em Portugal a trabalhar em pequenas e médias empresas, que mesmo tendo dezenas de funcionários se mantêm muito familiares, não foi fácil imaginar o que me esperava no Emirates Group: uma empresa onde trabalham quase cem mil pessoas de mais de 190 países diferentes, onde é preciso gerir as mais diversas sensibilidades e onde é indispensável respeitar as crenças de cada um. Na verdade, tudo no Dubai impressiona pela dimensão. As oitos faixas para cada sentido da Sheikh Zayed Road, o edifício mais alto do mundo com 160 andares (é tão alto que permite ver o mesmo pôr-do-sol duas vezes no mesmo dia – sim é verdade), o maior anel de ouro do mundo em exibição no Gold Souk, apenas para mencionar alguns exemplos.
Trabalhar numa empresa tão multinacional e multicultural fez-me perceber a importância de criar processos detalhados e de seguir à risca os procedimentos e as cadeias de aprovação para cada departamento, sendo talvez esta a principal diferença para o conhecido “desenrascanço” português, que não deixa de ser valorizado. No entanto, existe a preocupação de coordenar a comunicação oficial de uma empresa tão grande sobretudo em situações de crise, como um incidente num aeroporto ou envolvendo um avião. Mesmo que a empresa não seja afectada directamente, todos os departamentos colaboram para parar as campanhas online, pausar a publicação de posts e até mesmo preparar comunicados de imprensa, dependendo da gravidade da situação em questão.
Para conseguir fazer o meu trabalho no departamento de Relações Públicas tive que aprofundar ainda mais o meu domínio da língua inglesa, pois escrevia diariamente comunicações oficiais em inglês para serem publicadas. Apesar de não ser a língua materna de praticamente ninguém que vive nos EAU, é aquela que nos permite comunicar tanto com os locais como com todos os expatriados, que constituem 85% da população.
Talvez por isso, no Dubai tudo gire à volta da exclusividade. Quando algo se torna acessível ao público, perde imediatamente o interesse para os locais. Foi fácil entusiasmar-me com a forma como as marcas utilizam essa necessidade de exclusividade para comunicar os seus produtos. Um exemplo foi o lançamento da XLine feito com pompa pelo filho do Sheikh (e dono da empresa) e para a qual só eram convidadas a experimentar celebridades, influenciadores e pessoas com wasta (a versão árabe da nossa “cunha”). Outro exemplo interessante dessa necessidade é o do restaurante Parker’s, que esconde chaves da sua porta pela cidade. No Snapchat são publicadas Stories com pistas para a localização das chaves e aí começa a “caça à chave”. Só quem tem uma chave é que pode entrar no restaurante e comer, pois a porta está trancada. Todos os dias o restaurante está cheio… de locais, claro!
Assim, as redes sociais mais fechadas como o Instagram e o Snapchat são as preferidas pelos locais como forma de terem acesso privilegiado a certas actividades. A vida pessoal é partilhada com um número muito reduzido de pessoas, por motivos sobretudo religiosos. No entanto, muitos utilizam o Instagram como loja online e por vezes tornam-se em autênticas celebridades (das quais não conhecemos a cara), juntando mais de 500 mil seguidores. Tudo isto é possível porque a população que está online é muito jovem e não quer (nem pode) permitir o acesso ao seu mundo.
Eu recomendo uma experiência internacional a toda a gente, não só por toda a aprendizagem profissional, mas sobretudo pelo crescimento pessoal. Quando as nacionalidades e as religiões deixam de ser coisas abstractas e distantes e passam a ter caras e nomes, o nosso conhecimento expande-se. Não é fácil, porque a partir desse momento nunca mais nos sentimos verdadeiramente em casa em lado nenhum: algures dentro de nós há saudades do deserto interminável, do mar calmo e quente do Golfo Pérsico e dos aromas inebriantes dos souks.

Artigo de opinião de Sónia Vieira da Costa, social media specialist

3 comentários

  1. Luis

    23 de Fevereiro de 2017 at 1:28

    Excelente artigo! Ultimamente tem andado a roer cá dentro a ideia de um dia ir trabalhar para o Dubai… quem sabe um dia não aparece a oportunidade!

  2. Ana Fátima Berquó

    17 de Fevereiro de 2017 at 10:06

    Interessante conhecer a sua experiência.

  3. Arminda Antónia Amaral Vieira

    14 de Fevereiro de 2017 at 18:33

    Um artigo excelente e motivador, parabéns Sónia pela partilha da tua experiência.

Deixe aqui o seu comentário