O jornalismo português e as despesas de Marcelo

Por a 21 de Dezembro de 2016

LuisO jornal “Público” fez notícia de um trabalho jornalístico sobre o Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e a sua gestão poupada, originalmente publicado no jornal dinamarquês “Berlingske”.
Assinado pelo correspondente para a Europa do Sul Martin Tønner, o artigo foi publicado a 9 de Dezembro de 2016, dia em que Marcelo cumpriu os primeiros nove meses do seu mandato de cinco anos. Segundo a percepção da jornalista do “Público” Leonete Botelho, o texto do seu colega de profissão dinamarquês foi escrito num registo “entre o divertido e o espantado”, apresentando Marcelo como sendo um chefe de Estado “muito acelerado, quase sovina e em certa medida contraditório” (encontra aqui o artigo).
Numa Europa em crise existencial, e em pânico por causa do terrorismo – que tem vitimado famílias indefesas em locais icónicos da qualidade de vida europeia, tornando os massacres ainda mais dolorosos –, e num tempo em que a reputação da classe política atravessa as ruas da amargura, pela corrupção e pela impotência face à resolução dos problemas, o título escolhido pelo jornal dinamarquês instigava à leitura: “Os portugueses adoram o seu frugal Presidente: Convidando os diplomatas para um jantar barato”.
Basicamente, o “Berlingske” contou aos seus leitores como é que o Presidente português poupa em tudo, desde os carros até aos jantares para diplomatas, embora gaste 55 mil euros para se proteger contra “hackers”, uma despesa talvez demasiado alta, tendo em conta que Marcelo coloca todas as informações em rede aberta, como lembrou o jornal.
No final do texto do “Público”, a jornalista, surpreendentemente, confessa desconhecer algumas das informações publicadas pelo jornal dinamarquês: “O ‘Público’ questionou Belém sobre a autenticidade destas informações – a compra do motor do carro, o almoço diplomático e os gastos com informática –, mas a Presidência recusou comentar qualquer destes assuntos.”
O cerne deste texto tem a ver justamente com esta confissão sobre o desconhecimento perante os gastos do Presidente manifestada pelo “Público”, discretamente, no último parágrafo do texto, e o modo aparentemente normal como o jornal aceita que a assessoria de Marcelo Rebelo de Sousa se recuse comentar os assuntos em causa.
No fundo, depois de lida a notícia do “Público” sobre o artigo no jornal dinamarquês, há duas conclusões a reter: 1) a República de Portugal tem motivos para se orgulhar da gestão ativa, poupada e aparentemente rigorosa do seu Presidente; 2) a República de Portugal não tem motivos para se orgulhar do jornalismo que se pratica no país.
Explicando: o “Público”, um jornal português que ainda temos como uma referência na informação de qualidade, inclusive na informação política, fez notícia, e muito bem, sobre um trabalho jornalístico feito por um jornal dinamarquês, com informações sobre o Presidente da República. Com efeito, um artigo sobre o Presidente português em qualquer jornal estrangeiro é noticiável em Portugal.
Acontece, porém, que o artigo em causa do jornal “Berlingske” traz informações nunca divulgadas em Portugal, que os portugueses já deveriam ter sabido pela imprensa portuguesa. Tanto as que dizem respeito aos dinheiros poupados por Marcelo, como as que dizem respeito aos gastos informáticos. Neste último caso, nem teria sido difícil.
Tanto mais que a informação sobre a despesa da Presidência da República com “hackers” é, certamente, uma informação que é pública, ou seja, estará à disposição de todos os jornalistas, e também de todos os cidadãos interessados, bastando consultar a plataforma de compras públicas. Se não está, deveria estar.
Pelo trabalho jornalístico do correspondente dinamarquês, ficou claro que os “media” portugueses têm as câmaras de filmar, os telemóveis e os microfones sempre apontados à boca de Marcelo para que ele diga o que quer. O problema é que têm faltado jornalistas que sejam o verdadeiro filtro de que a sociedade portuguesa precisa, informando o que deve ser informado, com rigor e exigência, com responsabilidade e sem arrogância, para que nenhum jornalista português seja surpreendido pelas novidades escritas por um correspondente estrangeiro, algures da Escandinávia. Ora, isso é tudo menos um bom sinal sobre a força e a vitalidade do jornalismo português.

Artigo de opinião de Luís Paulo Rodrigues, consultor de comunicação e autor do blog Comunicação Integrada (www.luispaulorodrigues.com)

Pelo trabalho jornalístico do correspondente dinamarquês, ficou claro que os “media” portugueses têm as câmaras de filmar, os telemóveis e os microfones sempre apontados à boca de Marcelo para que ele diga o que quer

2 comentários

  1. Locheco

    22 de Dezembro de 2016 at 12:28

    A notícia da notícia da notícia…..
    E és assim que vai o mundo, entretido.

  2. Manuel Ribeiro

    21 de Dezembro de 2016 at 19:35

    Que o jornalismo português tem muitos pontos fracos já sabemos. Há imensos “reporters” que não passam de paus-de-microfone e jornalistas boçais. Assim como há muitos bons profissionais.
    No entanto, quanto a este assunto em concreto, muita ( eu diria, quase toda) da informação referidas pelo jornal dinamarquês já era conhecida.
    Eu conhecia a história do substituição do motor do carro, da dispensa do carro de luxo, de uma auditoria às contas, etc.

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