A coroação do “rei” Marcelo

Por a 14 de Janeiro de 2016
Luís Paulo Rodrigues

Luís Paulo Rodrigues

Quando o jornal “Meios & Publicidade” me pediu este texto de análise aos principais candidatos às Presidenciais 2016, avaliando os seus pontos fortes e pontos fracos, lembrei-me da expressão popular “em terra de cego quem tem olho é rei” para explicar o que distingue, de forma decisiva, a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa dos restantes nove candidatos, alguns deles desconhecidos.
Tenho para mim que Marcelo Rebelo de Sousa não é um candidato. Ele é um protocandidato hiperfavorito. Ele não precisa do nome no cartaz, nem precisa de “slogan”. Porque ele próprio é o cartaz e o slogan. Ele não precisa de comícios, nem de sessões de esclarecimento. Porque ele próprio é o comício e a sessão de esclarecimento. Ele só precisa de aparecer, e quanto mais intimista parecer, melhor. Porque Marcelo é a mensagem. E uma mensagem que passa bem nas longas peças dos telejornais. Por isso, a sua estratégia é só uma: aparecer publicamente como um português normal, magnânimo e sedutor. Porque as eleições serão uma mera formalidade popular para coroar o “rei” Marcelo.
Ao contrário do que acontecera no seu confronto com Jorge Sampaio para a Câmara de Lisboa, que perdeu, em 1989, nesta campanha presidencial, Marcelo também não precisou de conduzir um táxi, nem de tomar banho no Tejo, muito menos precisou de fazer o pino na Serra da Estrela ou de escalar a Torre dos Clérigos. Porque Marcelo partiu para estas eleições com uma notoriedade, entre os eleitores portugueses, próxima dos 100%, talvez mais do que a percentagem da notoriedade somada de todos os restantes candidatos.
A campanha de Marcelo não começou em 2015, quando apresentou a sua candidatura tendo atrás de si uma simples representação da bandeira portuguesa, na pobre e longínqua vila rural de Celorico de Basto. A sua verdadeira campanha começou na década de 1990, com o “comentário político” aos microfones da influente TSF, dando notas aos políticos – como se espera de um professor –, e, nos últimos 15 anos, nos estúdios de televisão em sinal aberto, nas noites de domingo, sempre com grande audiência, em que falou aos portugueses sobre tudo o que quis, praticamente todos os domingos – daí resultando uma figura pública amiga, inteligente, culta, valendo mais do que o partido político em que milita, porque pensa sempre pela sua cabeça. Pelo meio do percurso, a passagem pela liderança do PSD, entre 1996 e 1999, foi apenas uma obrigação de militante, que agora lhe dá os frutos.
O espaço público mediático foi, sem dúvida, o melhor laboratório que Marcelo poderia ter encontrado para, a anos de distância, fazer dele um candidato hiperfavorito nestas presidenciais. Mas isto só foi possível de acontecer porque Portugal é o único país da Europa comunitária onde políticos no ativo, candidatos a presidentes partidários ou ex-presidentes partidários, conseguem lugares bem pagos nos meios de comunicação para fazerem política sem estarem legitimados pelo voto. São os “comentadores residentes”, função que noutros países é desempenhada por jornalistas seniores, experimentados e reconhecidos publicamente pela sua competência. O que acontece em Portugal é inacreditável, com os políticos-comentadores, alguns representando lóbis privados, dando conta das “investigações jornalísticas” que fizeram durante a semana, criando factos políticos ou lançando notícias, como se fossem jornalistas. Depois, como são estrelas da política, as suas afirmações provocam notícias nos sites e nos jornais do dia, quase sempre em forma de recado político interno para consumo do país político, amplificando ainda mais a sua prestação televisiva.
O ponto forte da candidatura de Marcelo é justamente o ponto fraco de todos os restantes candidatos: Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém, Marisa Matias, Edgar Silva, Henrique Neto, Paulo Morais e os outros. Mas Marcelo consegue outra proeza: é o único candidato que representa o eleitorado da direita e do centro-direita, o que não deixa de ser politicamente interessante, sobretudo tendo em conta que a coligação PSD/CDS acabou de sair do Governo.
Também curioso é o facto de a esquerda, que conseguiu uma solução de compromisso para a governação do país, envolvendo PS, CDU e BE, se apresentar nestas eleições presidenciais completamente esfrangalhada nas candidaturas de Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém, Edgar Silva, Marisa Matias e Henrique Neto.
Finalmente uma nota sobre o excessivo número de candidatos. A República portuguesa é muito pequena para ter 10 candidatos à sua presidência. Nem nos tempos do PREC (Período Revolucionário Em Curso), na década de 1970, houve tantos candidatos. Mas isso é revelador do descontentamento popular com uma classe política cada vez mais próxima dos negócios em seu proveito e mais distante das pessoas e do país. No fundo, o excessivo número de candidatos traduz uma ideia: em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. A pobreza dos debates evidenciou essa espécie de caos político e social que atravessa o país, a Europa e o mundo.

Artigo de opinião de Luís Paulo Rodrigues, consultor de comunicação e autor do blog Comunicação Integrada (www.luispaulorodrigues.com)

Deixe aqui o seu comentário