A comunicação política dá um filme (com vídeo)

Por a 19 de Novembro de 2015

alexandre guerraA propósito da estreia, esta quinta-feira, do filme “Profissionais da Crise”, que já tive oportunidade de ver e que retrata a influência de consultores de comunicação e “estrategistas” políticos norte-americanos nos bastidores da campanha presidencial de 2002 na Bolívia, lembrei-me de uma passagem das memórias de Luís Paixão Martins, que foram recentemente publicadas, quando descreve o seu envolvimento profissional na vitória de José Sócrates, em 2005, e na eleição presidencial de Cavaco Silva, em 2006. Escreve então LPM que “o trabalho de Comunicação em campanha eleitoral de impacto nacional”, como aquele que lhe tinha sido “proporcionado pelas duas candidaturas, não se compara com mais nada no mundo das Public Relations”.
Estas palavras reflectem um tom específico e emocional que vai além da componente técnica ou prática daquela actividade profissional. E quem já teve o privilégio de explorar os diferentes mundos onde as Public Relations se podem mover, ou seja, indo além da chamada comunicação corporativa ou institucional (quase sempre associada ao sector empresarial e dos negócios), consegue compreender perfeitamente aquela relação afectiva com a comunicação política.
Admito a subjectividade desta afirmação, mas a comunicação política contém ingredientes que não são possíveis de encontrar em mais nenhum tipo de comunicação institucional. Há ali componentes que lhe dão uma dinâmica própria, que a tornam sedutora, por vezes, perversa, mas sempre aliciante. O domínio das ferramentas e o apuramento da técnica são apenas dois dos factores a ter em consideração quando se joga na arena da comunicação política e eleitoral. Há muitos outros factores que a tornam incomparável no universo das Public Relations.
A verdade é que ninguém faz filmes sobre consultores de comunicação de uma marca de shampoo, de um hipermercado, de uma farmacêutica ou de uma empresa, seja ela de refrigerantes ou de telecomunicações. Refira-se, no entanto, que é daqui que vêm os “fees” das agências de comunicação e é este o verdadeiro mercado das Public Relations, sobretudo em Portugal, já que a comunicação política dá tudo menos dinheiro.
A grande virtuosidade do filme “Profissionais da Crise”, que se inspira em acontecimentos reais, embora os nomes dos personagens e alguns acontecimentos sejam fictícios, é que permite, precisamente, transmitir ao telespectador essa emoção, esse “gozo”, essa entrega, esse estado afectivo, que é fazer comunicação política e eleitoral. Uma comunicação em que, por vezes, a solução está fora dos cânones dos manuais pré-estabelecidos ou dos procedimentos enraizados, que tanta escola fazem no relacionamento profissional entre o dedicado “account” e o eterno insatisfeito “cliente”.
Apesar de se inspirar num documentário de 2005, o filme tem uma liberdade narrativa que serve para prender o telespectador, num registo que, não escapando aos habituais apontamentos hollywoodescos, dá ainda uma perspectiva interessante da influência que os especialistas norte-americanos em comunicação política têm na América do Sul.

Artigo de opinião de Alexandre Guerra, consultor de comunicação


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