O mastro e a bandeira

Por a 16 de Outubro de 2015
António Lobato Mello

António Lobato Mello

Desde puto que tenho um gosto especial e uma paixão por bandeiras. Isso começou com as bandeiras dos países desta aldeia global. As bandeiras, são a identidade visual e a imagem de cada um.  Desde a do Benfica à do Partido da Mariana Mortágua. São logotipos puros e intocáveis, pelo menos enquanto estiverem actuais.  Também elas, ou os logos de marcas sofrem restylings.
Mudar uma imagem é sempre notícia. Mudar uma bandeira, como parece estar a acontecer na Nova Zelândia, que quer avançar com um plebiscito, é uma notícia bombástica. E parece que o Brasil quer ir atrás. Por cá já se falou e escreveu sobre a matéria. Há quem diga que a nossa é foleira, ou que remete para África em termos cromáticos, ou que a combinação de cores é infeliz. Ou até que a esfera armilar tem demasiada presença.
Enquanto publicitário e amante de marcas, reconheço que, quando queremos posicionar e associar uma marca ao seu país de origem, a nossa bandeira não ajuda mesmo nada. Antes pelo contrário. Lembro-me das dores de cabeça quando trabalhava Sagres e o seu patrocínio à selecção nacional.  Noutras marcas, a coisa pode mesmo resultar. Basta pensar num Ikea, numa Marlboro, ou numa Swatch, ou numa British Airways.  Esta última, tem a sorte de poder capitalizar na bandeira mais bonita do Mundo. Já a nossa TAP, teve que viver com as cores nacionais, mudando o pantone do verde, numa tentativa de “desfoleirar” a combinação das duas cores.
Fico passado, passo a expressão, quando vejo mastros sem a bandeira. Ou mais grave ainda e inadmissível, quando as bandeiras que o ocupam estão num estado miserável. Infelizmente, nos meus passeios por esta Lisboa que eu adoro e fotografo, encontro de tudo. Rotas, sujas ou “russas” e sem cor. Badalhocas mesmo. Muito triste.
O curioso é que isto começa no topo do Parque Eduardo VII, com a bandeira gigante de Portugal. Não sei de quem foi a ideia, mas resulta espectacularmente. Tanto, que até sugeri fizessem o mesmo junto ao Padrão dos Descobrimentos, porque essa época gloriosa de Portugal nos posiciona e diferencia no contexto mundial. E naquele local ficava a matar.
E os exemplos, maus exemplos, de paus desnudados ou mal vestidos, arrastam-se por essa Lisboa e claro a nível nacional. Estações de serviço, Porto de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, (em frente aos Jerónimos), etc, etc… Exemplo terrível e bem actual, é o da Torre de Belém, uma verdadeira jóia da nossa arquitectura Manuelina de Lisboa, que está a comemorar  os seus 500 anos. Linda idade.
bandeirasPor essa razão, a Torre e Belém, no âmbito das comemorações, decidiu e bem, montar junto ao monumento, uma expo de mupis que contam a sua história, desde o projecto inicial até ao presente. Sem dúvida, uma boa ideia. Os turistas fazem bicha para a visitar, apreciam a exposição e tiram as suas fotos.  Tudo seria perfeito, se as bandeiras com o logo dos 500 anos, não estivessem rotas, sujas e “russas”.
O que pensarão os turistas a olhar para aqueles mastros, verdadeiros maltrapilhos.  É por isso que digo, muitas vezes, que continuamos a brincar ao turismo. É preciso saber respeitar uma Bandeira. Um mastro merece uma bandeira. Os dois são inseparáveis e um não vive sem o outro. Ou pelo menos devia ser assim.
E é triste. Não sei qual a entidade oficial que encomendou o logotipo dos 500 anos da torre de Belém. Houve um Briefing e houve trabalho profissional e dedicação, até chegar à solução final, por sinal bem feliz. E alguém pagou. E alguém ganhou. E nós perdemos. Eu como turista luso, fico revoltado com isto.
Passar no Parque Eduardo VII e não ver lá a nossa bandeira. Não aceito. Se a CML não tem livro de reclamações devia ter. Não me lixem. Imprimam mais. Ou vão à lavandaria.

Artigo de opinião de António Mello, senior partner da Be Social or Die

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