Todo o mundo é feito de mudança – ou o poder na ponta do comando

Por a 30 de Setembro de 2015
Manuel Falcão, director-geral da Nova Expressão

Manuel Falcão, director-geral da Nova Expressão

1-No decurso deste ano tem-se verificado um aumento crescente da audiência que prefere os canais de cabo aos canais generalistas. Durante os dias de semana o share médio do universo do conjunto dos canais de cabo anda nos 32-33%, mas ao fim de semana já sobe para os 36% . Na realidade, à semelhança do que aconteceu noutros países, o auditório procura alternativas à televisão tradicional – que para a generalidade das pessoas é a que é simbolizada pelos canais generalistas – RTP 1 e 2, SIC e TVI. Se contarmos ainda com cerca de 12-13% de pessoas que usam a televisão para fazer outros visionamentos, temos que em média, números redondos, 44% das pessoas estão já fora de alcance dos tais canais tradicionais.

Esta penetração crescente do cabo tem a ver com três tipos de questões:
a) uma penetração ainda crescente dos subscritores de televisão paga – 3,43 milhões de assinantes que representam 84% dos lares;

b) a possibilidade de escolha alargada para a esmagadora maioria do auditório que tem já acesso a mais de 60 canais;

c) – o crescimento do visionamento diferido, ou seja, da utilização das boxes para ver determinados programas emitidos anteriormente e que são vistos em oportunidade à escolha do cliente.

2- Estes números mostram uma alteração qualitativa do comportamento dos espectadores. Cada vez mais procuram produtos segmentados de acordo com os seus interesses pessoais e um número já significativo decide o que quer ver e quando quer ver, sendo, de certa forma, o programador da sua própria experiência de televisão. Este segmento cresce entre os subscritores de serviço que têm acesso a uma boa tecnologia, nomeadamente a fibra óptica, já utilizada por cerca de 20% dos lares com televisão por assinatura (pay TV) – que é precisamente o segmento responsável pelos maior crescimento quantitativo. Com o crescimento que se espera que continue a acontecer da cobertura e utilização de fibra óptica, cresce a velocidade e a qualidade do acesso à internet e abrem-se novas oportunidades para o consumo de serviços que exigem largura de banda – como é o caso dos novos serviços de televisão, como o Netflix e do serviço concorrente que a NOS criou, o N Play.

3 – Esta televisão baseada na internet vai ser a protagonista da próxima mudança dos habitos de visionamento. Nos Estados Unidos, nos dois últimos anos, tem crescido o número de pessoas que deixa de pagar aos distribuidores de televisão por cabo tradicional e passa a visionar o que quer, quando quer, através da Netflix e de outros serviço concorrentes, como a Amazon ou a HBO. A estratégia de produção de conteúdos próprios, no caso da Netflix, potenciou o aumento dos seus utilizadores – e a HBO, que cedo percebeu que a internet vai ser a forma de distribuição de televisão no futuro, garantiu a estreia das próximas séries de “Sesame Street” porque pensa já em fidelizar as audiências desde cedo. Os canais de cabo tradicionais continuarão ainda a existir por muito tempo mas tudo indica que a erosão que vão sofrer será comparável àquela que eles próprios fizeram aos canais generalistas. Não antevejo alterações rápidas e profundas no panorama português – mas acredito que serviços como o Netflix e o N Play conseguirão conquistar subscritores e que terão tendência a aumentar. No fundo o que oferecem é o poder de decisão do que se quer ver de uma forma ainda mais aprofundada que o cabo. Vamos continuar a ter turbulência no mundo da televisão – e a sua nova forma de expressão está a chegar a Portugal.

Artigo de opinião de Manuel Falcão, director-geral da Nova Expressão, publicado na última edição do M&P no âmbito de um especial dedicado ao mercado da televisão por subscrição onde a chegada do Netflix ao mercado português é um dos temas em análise por parte de vários profissionais do sector

Deixe aqui o seu comentário