O recomeçar do outro lado mundo

Por a 8 de Setembro de 2015

Dora (2)Estou fora de Portugal há quase três anos. Estou a viver a minha segunda experiência de “Portuguesa pelo Mundo”. Depois do Brasil, desta vez estou na Nova Zelândia mais concretamente em Christchurch. Para quem não sabe, é uma cidade que ficou destruída pelos terramotos de 2010 e 2011. É difícil negar que a experiência de viver noutro país muda-nos. O choque cultural é de tal forma inevitável e significativo que diferentes partes da nossa personalidade assumem qualidades inesperadas – aprendemos a adaptarmo-nos. Há um medo palpável em viver num novo país, e embora seja mais agudo nos primeiros meses nunca se evapora completamente ao longo do tempo.
Contudo, não posso negar que começar tudo de novo deu-me uma noção de que, aconteça o que acontecer no resto da minha vida, fui capaz de dar este passo e adpatar-me. Eça de Queiroz disse uma vez que, em Portugal, a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre. Na verdade sinto-me grata. Já vivi muitas histórias que, com toda a certeza, não viveria em Portugal ou pelo menos viveria de forma diferente.
A vida pela Nova Zelândia é mais calma, valoriza-se mais os pequenos pormenores da vida e o tempo para a família. Seja de Inverno ou Verão, é tão normal acampar na praia ou simplesmente fazer um piquenique. O Natal é festejado duas vezes por ano (com direito a troca de prendas e a árvore de Natal) apenas porque como Dezembro é Verão por cá, o Natal não tem a mesma magia. A frase mais comum entre os kiwis é “no worries”, ou seja, sem problemas, como quem tudo se descomplica e acaba por se resolver. Os kiwis têm uma forma muito própria e descomplicada de viver a vida e não ligam para as aparências. Nos centros comerciais ou nos supermercados é comum ver pessoas descalças (ou a Nova Zelândia não fosse o país dos hobbits…) e, às vezes, de pijama com zip com formas de animais e capuz. É a originalidade e a liberdade de identidade no seu maior expoente! Não há discriminação em relação à forma como as pessoas se vestem e se apresentam. Não é raro vermos profissionais de fato a irem para o trabalho de skate ou a usarem piercings e tatuagens.
A cultura de trabalho é baseada em mérito e não nas aparências. (Portugal teria muito a aprender nesse aspecto). Por cá trabalha-se 7h30 por dia, meia hora de almoço e raramente se fazem horas extra. Contudo considero que a produtividade e o ritmo de trabalho é maior. O dia-a-dia é bastante informal e é muito comum fechar um negócio com um simples “gentlemen’s agreement”. Regra geral os ambientes de trabalho são open-spaces, facilitando a comunicação e inter-relação entre os vários quadros da empresa. Face à cultura descomplicada e simples de gozar a vida dos neozelandeses, é fácil perceber que as campanhas de marketing são muito directas e descomplicadas. É interessante ver como tantos produtos e nomes de empresas usam palavras como “simple” e “ezy” (simplificação de “easy”), apelam a uma relação familiar ou de amigos (“yes mate, it´s a real deal”). Utiliza-se muito “slang language” como “sweet as”ou “my bad”.
Profissionalmente, o maior impacto que tive foi a exposição a vários mercados em simultâneo, desde do neo-zelandês, asiático, indiano ao europeu. Confesso que o mais complexo é o mercado chinês, os desafios são mais que muitos, desde a legislação do país até à forma como as negociações são realizadas. Mas esta história fica para uma próxima. Leva-se muito tempo para conquistar uma vida nova, num país novo, nem sempre é fácil e muitas são noites acordadas a pensar no que poderei estar a perder por Portugal. Mas uma vez que tenho esta oportunidade vou aproveitá-la, pois, uma coisa é certa, saberei sempre o caminho para casa!

Artigo de opinião de Dora Augusto, marketeer a viver em Christchurch (Nova Zelândia). Licenciada em Gestão, Dora Augusto iniciou a sua carreira como gestora de marketing em 2007 na Multi Mall Managemet. Agora trabalha na empresa Sky Line onde é marketing executive, liderando uma equipa de seis pessoas.

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