Caso Volkswagen e outros que tais…

Por a 29 de Setembro de 2015
Salvador da Cunha, CEO Grupo Lift

Salvador da Cunha, CEO Grupo Lift

“Podemos enganar toda a gente durante algum tempo e até muita gente durante todo o tempo. Não podemos é enganar toda a gente durante todo o tempo”.

Abraham Lincoln, o icónico presidente norte americano, foi o autor de uma frase célebre, de alguma forma imortalizada por Bob Marley no tema “Get Up, Stand Up”: “You can fool all the people some of the time, and some of the people all the time, but you cannot fool all the people all the time.”

Estas palavras aplicam-se na perfeição ao recente caso do Grupo Volkswagen, o maior e mais prestigiado grupo automóvel do mundo, e vem abalar a reputação, não apenas do gigante grupo de empresas, como de todo o sector automóvel, da Alemanha e até mesmo da Europa.

As consequências deste caso são ainda imprevisíveis, mas serão um tsunami de tal forma destruidor, que dificilmente ficará pedra sobre pedra no maior grupo automóvel do mundo. Se me permitem antever o que se irá passar, o Grupo Volkswagen como o conhecemos hoje, será desmantelado e vendido às peças aos seus principais concorrentes. Este caso vai obrigar toda a indústria a reinventar-se e, por exemplo, a libertar-se de uma vez por todas da ligação umbilical que tem tido com a indústria petrolífera, ligação essa que tem sido a principal responsável pela limitação das evoluções tecnológicas que implicam energias mais limpas.

Tudo isto é mau, mas pode ter um lado positivo: forçar a indústria a ter de olhar para soluções do tipo Tesla, que há anos é impedida pelos lóbis do setor de vingar verdadeiramente ao nível da inovação e desenvolvimento. Sim, porque o nível de vendas da Tesla é muito inferior à procura por ser altamente condicionado pela concorrência e pela alegada regulação.

Mais do que falar das consequências, podemos falar dos porquês. Como é que uma situação como esta acontece numa empresa como a Volkswagen, que goza de uma das melhores reputações do mundo? Pelas mesmas razões dos casos da Leman Brothers, da Enron, e por aqui, no nosso retângulo, do BES e da PT SPGS.

A pressão brutal dos mercados em obter das empresas cotadas resultados rápidos, trimestrais e crescentes, associados a prémios de gestão milionários, fazem do «Corporate Governance» uma cartilha de propaganda da gestão das grandes empresas e não uma realidade. Seria bom que assim não fosse na maioria das grandes empresas. Mas o facto é que as preocupações genuínas com a reputação, com propósitos éticos nas empresas, são ainda pouco valorizadas pelos gestores, por produzirem efeitos apenas a médio longo prazo, e não no curto prazo. Mais uma vez, a pressão dos resultados trimestrais não permite essas «veleidades». Fecham-se os olhos e empurra-se com a Barriga.

Das regras escritas de Governo de Sociedade, que tanto são propagandeadas, fazem-se tábua rasa quando está em causa resolver um problema que afeta o «bottom line» — linguagem empresarial para resultados líquidos. Isto acontece uma vez e passa despercebido. Acontece uma segunda vez e ninguém nota. Engana-se alguma gente durante algum tempo e fica-se na ilusão de que se pode enganar toda a gente durante todo o tempo. Errado… na era do Big Brother invertido (quem diria meu caro George Orwell …), não é possível. Todos temos audiência e se o assunto é sexy torna-se viral. Se Michelle Obama fizer “topless” numa qualquer praia do Pacífico e for apanhada num twitte, todo mundo fica a saber numa questão de minutos.

O Caso Volkswagen vai ser mais um caso de estudo sobre «what not to do». E com isto o assunto da reputação das empresas volta a ganhar relevância.

Mas as bases têm de ser orgânicas, genuínas. Não podem ser apenas percepções criadas artificialmente pela comunicação. As grandes empresas têm de aplicar as regras que prometem e que tornam os seus consumidores em «brand lovers», mas têm de garantir que toda a empresa está alinhada pelos mesmos princípios éticos e morais.

No capítulo da gestão de reputação, há muito trabalho feito e bem feito a nível internacional. As metodologias científicas estão criadas, a avaliação é possível em várias dimensões e atributos, a comunicação empresarial está a funcionar em prol das boas percepções e na procura de bons comportamentos de suporte dos Stakeholders. Tudo isto é possível com estratégia e planeamento. Mas do outro lado, dentro das organizações, têm de ser criados mecanismos de controlo para que, verdadeiramente, a empresa possa cumprir o que promete – por exemplo um provedor do Stakeholder. E os olhos da gestão de topo não se podem fechar de vez em quando… têm de estar sempre abertos.

 

*Salvador da Cunha, CEO. Lift World

3 comentários

  1. João

    3 de Outubro de 2015 at 17:11

    Se este problema com a Volkswagen, se fosse com uma marca Italiana ou Francesa o caso levaria outro rumo, a Alemanha aplicaria logo multas pesadas a essas ditas marcas, mas sendo eles os SENHORES da Europa tudo será feito a seu belo prazer…

  2. Neves

    1 de Outubro de 2015 at 15:05

    O curioso é que o país mais poluente do planeta sem qualquer preocupação ambiental tenha descoberto a aldrabice

  3. Again

    1 de Outubro de 2015 at 13:49

    A maior e mais reputada marca nao e a Volkswagen , mas sim a Toyota que tem lucros de quase duas vezes o da sua rival e que fabrica carros muito mais limpos e praticamente nao se vendem na Europa . So quem nao percebe nada de motores e que nao ve que o motores a Diesel sao um aborto . Todos os dias nos cruzamos na rua com Mercedes e BMW relativamente novos que quando passam deixam o ar simplesmente irrespiravel.O lobi dos Diesel so existe na Europa ,porque os grandes produtores deste tipo de motores sao as maiores e Economias da Europa.

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