Prémios Marketing

O iraniano que implodiu Cannes Lions e a indústria dos prémios

Por a 26 de Junho de 2015

Amir Kassaei“Cerca de 90% dos trabalhos que vimos aqui esta semana e que foram feitos para ONG e outras associações não foram feitos para ajudar aquelas pessoas. Foram feitos por alguém que quis ter uma grande ideia para enviar a um conjunto de 25 palhaços [a expressão usada foi shitheads] em salas escuras a verem e a apaixonarem-se por aquilo e darem um prémio”. Esta foi uma das últimas bombas largadas por Amir Kassaei, chief creative officer da DDB Worldwide.
O iraniano não foi poupado nas palmas tal como não o foi em material explosivo capaz de fazer estremecer Philip Thomas, o CEO do Cannes Lions que estava sossegado um piso acima a dar uma entrevista na sala de imprensa. Amir Kassaei surgiu no palco da sala Debussy visivelmente consternado, consciente de que as palavras que dizia eram duras, mas que seria ainda mais duro não as dizer. Começou por lamentar o facto de que “estamos aqui a enganar-nos a nós mesmos ao premiar coisas que não têm qualquer ligação com a realidade. Toda agente está a falar sobre o que está a mudar na indústria mas ninguém fala do que nunca mudará. Estamos a perder a ligação com o que importa: a realidade”, afirmou, criticando a indústria, que “tem uma tendência para se esquecer dos seus reais valores, dos motivos e da essência do que estamos aqui a fazer, do porquê de existirmos”.
Para ilustrar, Amir Kassaei contou como todos os dias apanha o comboio para ir de Brooklyn para Manhattan. “Vejo trabalhadores da construção, empregadas de lojas, gente de trabalho que vai muito cedo para deixar os filhos na escola antes de um dia longo. Aquelas pessoas não estão interessadas naquilo que fazemos. Não estão interessadas em publicidade. Não estão interessadas em marcas. E nós estamos a esquecer-nos disso, nós perdemos o foco das pessoas reais”, alertou, rematando: “Estamos a falar de social media, de conectividade, e nada desta merda importa.” Mais um estrondo que este deve ter abanado o edifício do lado onde decorre esta sexta-feira a primeira edição dos Innovation Lions dedicados, precisamente, e em exclusivo, a estes temas.
O iraniano estava longe de terminar. “Peguem na ideia mais inovadora que viram aqui esta semana e mostrem-na a alguém fora daqui, fora do Palais. Nem precisam de sair de Cannes. Mostrem-na às pessoas reais que aqui vivem e vão ver se essa pessoa se importa com isso”, afirmou, chamando a atenção para o facto de que “acreditamos, na nossa arrogância, que o que estamos a fazer é importante para a vida das pessoas e não é”. “A nossa essência e fazer algo que importe na vida das pessoas, ligar as pessoas às marcas e mostrar-lhes que aquela marca tem algo que pode melhorar a vida delas. Somos vendedores”, lembra e, atira, “neste momento estamos só a vender merda a nós mesmos. Ninguém nos vai matar. Nós estamos a matar-nos a nós mesmos”.
Caminhando para o fim, Amir Kassaei está quase a chegar à frase com que acendemos o rastilho deste texto. “A razão para entrar nesta indústria não era querer ser famoso, ganhar prémios Era estar com pessoas fantásticas a ajudar os marketeers a resolver problemas das suas marcas e para melhorar a vida das pessoas. Esquecemo-nos disso, estamos mais cínicos e negativos. Ganhar prémios só significa que somos bons a ganhar prémios, nada mais”. E pergunta: “Qual foi a última vez que chegaram à casa e disseram ao vosso filho de cinco anos que fizeram algo que vai dar-vos um leão de bronze em Cannes e ele ficou maluco?” Nova explosão, desta vez de palmas.
“Ou reconduzimos os nossos valores e os recuperamos ou morremos”, sentenciou. “Temos a responsabilidade de guiar os nossos clientes neste tempo difícil mas não suamos a fazer isso, estamos a confundi-los, estamos a enchê-los de bullshit e a culpá-la por não perceberem nada e que nós é que somos os espertos”, criticou. O Palais ainda está de pé. Mas apostamos que Philip Thomas não estará muito satisfeito.

*em Cannes

3 comentários

  1. fabio

    5 de Agosto de 2015 at 5:57

    Nossa, ele reinventou a roda, heim.
    Disse que publicitário e publicidade não serve para nada.
    “Juiiiira ” ?!
    Disse que são canalhas por natureza ?!
    “Juira ” ?!
    óóóóóóH..!
    E o qui qui ele estava fazendo, lá ??!
    Dando showzinho de sinceridade midiática no templo da canalhice ?!
    O “pobrema ” de vocês “publicitários ” é que vocês
    JÁ,… MORRERAM..!
    A publicidade já morreu há duas décadas atrás.
    E só vocês NÃO se tocaram disso, ainda.
    Vocês são ZUMBIS de canalhas perambulando pelas “berrines”
    da vida, tentando reencarnar num corpo novinho.
    Como não conseguem, ficam passando perfume “francês ” em cima
    das entranhas putrefadas.
    ” Congratulations ”
    não esqueçam de dar “entrevista ” no “reclame ” falando da
    “criatividade brasileira “,
    ahahahahahahahahahahahahahahah,
    ai Jisuis !
    Manda uma praga como o Sr. fez no Egito,
    só que ao invés de dizimar os “primogênitos”,
    dizime os publicitários “brasileiros “.
    E as produtoras e redes de tvs, também.
    AMÉM..!

  2. Luis

    1 de Julho de 2015 at 21:14

    E o que todos estes que estavam lá aplaudindo foram fazer em Cannes mesmo? Após o discurso, congratularam-se por serem tão geniais e retornaram às suas agências para continuar fazendo o mesmo até o próximo prêmio.

  3. Sigmar Sabin

    29 de Junho de 2015 at 1:38

    Iupiii… Este cara disse uma grande verdade. Poucos em suas próprias áreas profissionais, tem coragem de admitir que é preciso parar tudo, olhar seu ofício de fora e procurar reinventar-se.

    Fico feliz em ver que ainda tem homens corajosos no mundo.

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