Provavelmente o canal de televisão mais barato do mundo

Por a 11 de Fevereiro de 2014
180-logo-peq1

A história do Canal 180 (plataformas Zon Optimus e Vodafone) cruza-se com vários prémios. Uma parte do financiamento veio do Prémio Nacional das Indústrias Criativas Unicer/Serralves 2010 e a identidade visual foi galardoada no festival Cannes Lions. Depois, protagoniza uma série de inovações. Lançado a 25 de Abril de 2011 pela empresa OSTV, apresenta-se como o primeiro canal nacional sobre cultura e criatividade. Além disso é o primeiro canal open source do mundo. E não fica por aqui: “É provavelmente o sistema de emissão de televisão mais barato do mundo”, conta Nuno Alves, director de programação, que prefere não adiantar o orçamento do canal com sede no Porto. A direcção de programas, coordenação editorial, comunicação e produção é composta por quatro pessoas, estando seis pessoas ligadas à área de produção vídeo. João Vasconcelos (na TBWA/grupo BBDO) é o director-executivo.

Comecemos pela parte técnica. A emissão consiste em blocos de vídeos. Não há estúdios ou regies. “Basta converter o vídeo para o formato da emissão e inserir os elementos gráficos. Fomos desenvolvendo um modelo tecnológico que nos permite ter zero pessoas alocadas à emissão”, conta. Existe um layer que permite introduzir os elementos gráficos, o que diminui o trabalho de pós-produção.

Na grelha do canal encontram-se formatos internacionais como Cidade Fantasma (ocupações criativas de espaços abandonados), Focus Forward (histórias sobre pessoas inovadoras), The Avant/Garde Diaries (pessoas e eventos inspiradores), Fubiz TV (criatividade), Gestalten TV (cultura visual) ou Like Knows Like (artistas populares nas redes sociais). São conteúdos que o Canal 180 emite sem necessidade de pagar aos criadores e que, por vezes, têm por detrás projectos de brand entertainment financiados por grandes marcas, como a Mercedes, GE ou a Orange. “Nós damos difusão e audiência” a esses conteúdos, explica Nuno Alves. O mesmo modelo se aplica a conteúdos nacionais.

A actualidade está concentrada no espaço diário Magazine que, à semelhança do EuroNews, baseia-se no modelo da locução, a cargo de Rita Moreira (ex-Antena 3). “Achamos que as pessoas que devem aparecer no nosso canal a dar a cara são os criadores, curadores, artistas e agentes culturais e não os nossos apresentadores. Foi uma opção estética e editorial do canal, que tem um impacto grande nos custos”, explica o director de programação. O Magazine é exibido também na televisão interna do Metro do Porto. “É provavelmente a plataforma onde temos maior audiência”, aponta. A produção própria do canal pode ainda ser difundida, graças a parcerias, nos sites P3 do Público, Rua de Baixo, Porto24 e no portal Pitanga no Brasil, para além das aplicações do 180 para smartphone e tablet.

Qual o modelo de negócio

Dos operadores de TV e da publicidade vêm poucas receitas. A fatia mais significativa tem como origem a produção de conteúdos para as marcas e instituições culturais. “Começámos com Gulbenkian, Serralves e a Casa da Música, para quem fazíamos peças em open source para o nosso Magazine. Depois estas entidades usavam os vídeos nas suas próprias plataformas. Actualmente estamos a trabalhar com a Casa da Música, Serralves, Oliva Creative Factory, Museu da Presidência e Bienal de Cerveira. Vários agentes culturais encontraram em nós um bom parceiro para produzir conteúdos para as suas plataformas”. O Canal 180 também já trabalhou para o Optimus Primavera Sound e para o Vodafone Paredes de Coura. “Com o nosso registo editorial produzimos vídeos, no caso da Optimus para serem exibidos na SIC Noticias e no caso da Vodafone na TVI”. Também criaram mini-documentários associados à campanha Living La Vida Low Cost da McDonald’s.

Destaque ainda para Guimarães 2012 que apareceu numa “fase crítica”. “Estávamos com alguma dificuldade em conseguir trabalhar com as marcas”, relembra. O canal fez toda a cobertura da Capital Europeia da Cultura. “Provavelmente o melhor resumo da capital europeia está no Canal 180 e não nas televisões generalistas que estiveram lá na abertura e encerramento e passaram o ano sem pôr lá os pés. Houve ali uma prova do nosso conceito”, considera Nuno Alves.

Outra área importante é o encontro anual 180 Creative Camp. “Começou por ser um evento para potenciar a nossa comunicação nos media e na rua.” Arrancou em Vila Nova de Cerveira e instalou-se depois em Abrantes. Durante uma semana, criadores portugueses e internacionais das áreas do cinema, música, vídeo, arquitectura, publicidade, instalação e arte urbana desenvolvem projectos próprios e participam em masterclasses, workshops e conferências. “Contribui para a estabilidade da empresa. Há verbas do Creative Camp que ajudam a manter a equipa.” Alguns dos trabalhos dão origem a conteúdos para o próprio canal, para além de serem depois repercutidos em meios um pouco por todo o mundo.

É na internacionalização que podem vir a ser dados os passos mais ambiciosos. “Queremos fazer um canal internacional. Temos a solução tecnológica, em que demoramos dois ou três dias a criar um canal em inglês”. Basta um operador internacional mostrar interesse que avança uma nova versão do 180 em inglês, dado que a maioria dos conteúdos da versão portuguesa nessa língua, estando legendados. “Os custos de operação e adaptação são praticamente nenhuns”. Os contactos mais avançados são com operadores de França, Suécia, Chile, Brasil e Espanha. Uma empresa chinesa, por exemplo, que está a concorrer à TDT na Namíbia, mostrou-se interessada em ter o sinal do 180.

Mais difícil tem sido entrar no operador Meo. “Estamos em conversações há muito tempo. Apresentámos o canal mas a decisão tem vindo a ser adiada. Para nós é muito importante estar no Meo, por ser o segundo operador em Portugal. Os canais novos que vão surgindo são para massas e de interesse cultural nenhum. É essa a guerra dos operadores em Portugal. Se calhar, neste momento é mais fácil estar na Orange em França do que na Meo em Portugal”, constata.

Caso o canal consiga dar o salto da internacionalização, “vamos para um campeonato de receitas directas de operação de televisão com a entrega do sinal aos operadores, que potenciará a publicidade e os eventos. Quando tivermos receitas significativas dos operadores vamos ter muito gosto em despender receitas directamente para os criadores, para quem aparecer com projectos interessantes”, prevê.

Deixe aqui o seu comentário