Estudo: Leitura de livros em digital não substituiu a de livros em papel

Por a 29 de Outubro de 2013

A leitura de livros em formato digital não substituiu a dos livros em papel, mas há uma mudança do paradigma da leitura por causa da Internet, concluiu um estudo português, de âmbito internacional. Algumas conclusões do estudo, iniciado em 2011, serão apresentadas hoje na Conferência Internacional de Educação, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, pelo investigador Gustavo Cardoso.

O estudo foi desenvolvido pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) e tem por base um inquérito feito em 16 países, incluindo Portugal, “sobre o que significa ler” na actualidade e como é que os utilizadores de Internet lêem em papel e em digital. No caso de Portugal, a existência de grandes leitores em formato digital ainda é “incipiente”, quando comparada com os restantes países incluídos no inquérito. Apenas dez por cento dos inquiridos portugueses disseram ter lido mais de oito livros em formato digital ao longo do último ano, quando a amostra global do inquérito se situou nos 30 por cento.

“Tentou-se mapear a mudança. Como é que as pessoas estão a ler hoje, por via de terem adoptado, como forma de leitura, os ecrãs. Quais são as tendências de transformação que estão a tocar as bibliotecas e a relação com este tipo de leitores”, antecipou Gustavo Cardoso, aos jornalistas. No que toca ao mercado livreiro, o investigador referiu que em Portugal “quem está no setor joga à defesa” quando se fala em investimento no livro digital, e que não existe “uma estratégia comum a todos os editores”.

O inquérito internacional permitiu também concluir que a leitura em digital, em múltiplos suportes – telemóveis, ‘tablets’, computadores – coexiste com a leitura em papel e que o objecto de leitura inclui, além de livros e jornais, textos em blogues, correio electrónico ou mensagens partilhadas em redes sociais. Segundo os investigadores do CIES, quem mais lê em digital também é quem lê mais em papel e o leitor actual “lê, escreve e partilha” perante uma comunidade.

O inquérito internacional revela ainda que os que dizem ler livros em formato digital têm um maior nível de escolaridade e relacionam leitura e prazer mais com livros em papel do que em digital. Os dados permitem ainda verificar que ler livros e jornais em digital é uma actividade tão individualizada quanto a leitura em papel e que os leitores do digital valorizam, por exemplo, a possibilidade de aceder a um motor de busca para pesquisas.

O inquérito foi realizado em países como China, Índia, Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Brasil, México, África do Sul, Egipto e Austrália. Os dados estatísticos permitem perceber, por exemplo, que no Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul há mais leitores que já leram um livro em digital (79 por cento) do que na Europa (43 por cento, Alemanha, França, Itália, Espanha, Reino Unido e Portugal). O projecto, cujos dados totais deverão ser disponibilizados no final do ano, foi coordenado pelo sociólogo Gustavo Cardoso, no CIES do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian. Da equipa de investigadores chegou a fazer parte Jorge Barreto Xavier, actual secretário de Estado da Cultura. (Lusa)

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