Comece com um breve mas revelador exercício. Pense “Ano 2000”: a exaltação dos novos modelos de negócio da net, as valorizações estratosféricas e os start-ups a crescerem como cogumelos nas margens de Silicon Valley. Mais importante, imagine-se a viver sem acede no dia de hoje à sua página do Facebook para ouvir e ver o que se passa ou sem poder comunicar via Skype com o seu chefe de férias na Tailândia. Mas, acredite-se ou não, essa era a realidade há 10 anos.
Os “powerhouses” geradores de tráfego e conteúdos tardavam em afirmar-se tal a profusão de novos conceitos de teste, projectos-piloto ou experiências interactivas. Todos eles, diga-se, alimentados por business angels de visões futuristas, mas talvez menos orientadas para indicadores bem mais mundanos como pay-back, EPS ou VALs.
Sabemos bem como esse longo sonho terminou. Na ressaca acabaram por não se encontrar dezenas de novos grandes players. Quem se fortaleceu procura agora novos parceiros e a cadeira certa para se sentar antes que a música dos multiplicadores de crescimento pare subitamente.
Veja-se como a Microsoft se tornou protagonista maior dessa sinfonia de candidatos e por robustos 8,5 mil milhões de dólares arrebatou uma donzela chamada Skype, o serviço de vídeo e voz usado por milhões no globo para comunicação, das mãos de outros ilustres e garbosos cavaleiros da net. Essa transacção foi arrebatadora e paciente mas, de resto, racional. Quantos dos fãs Windows – genuínos ou convertidos – não aguardarão ansiosos a disponibilização do serviço Skype nas diárias aplicações de Outlook, X-Box ou Kinect? Mas não foi amor à primeira vista!
No seu apetite voraz de quem ostenta o título de site mais visitado nos Estados Unidos e de maior tráfego (destronando recentemente o Google), o Facebook olhava para um casamento de conveniência com o Skype. O seu IPO poderia render algo entre 3 a 4 mil milhões de dólares, o que não parecia assustar a rede social de Zuckerberg – ela própria avaliada em mais de 70 mil milhões.
Mais do que os valores, pareciam ser as valências complementares que o colocavam em melhor posição que o Google para conquistar com os accionistas do Skype. Claramente o activo Skype completava o Facebook. Não só porque este não dispõe de capacidade de voz e vídeo, mas acima de tudo porque encorajaria maior permanência de tempo no site daquela rede social – no final a sua razão de existência. A capacidade de comunicação, endémica a qualquer processo de sociabilização (mesmo que digital), era julgada central e poder aceder a esse tipo de plataforma que conta já com 124 milhões de utilizadores ligados, representaria um trunfo de peso para o Facebook.
Já para o Google, outro putativo candidato à aquisição do Skype, o cenário, sendo menos revolucionário – já hoje o motor de busca dispõe de capacidade de voz e vídeo –, seria uma via segura e com materialidade, de incorporar o Skype no seu Google Voice. Talvez até fazer esquecer uma entrada menos memorável nas redes de media social com a iniciativa Buzz.
Facebook ou Google – a batalha mediática por novas fontes de rendimento estava ao rubro e o jogo parecia confinado àqueles dois. Pura ilusão afinal!
Uma possível vitória a cair no colo do Facebook ou Google colocou afinal em “codered” o estado maior da Microsoft em Redmond, Washington. O que até se compreende. É que o Facebook com mais de 550 milhões de utilizadores activos e regulares e 1,5 mil milhões de dólares de receitas multiplicou o seu valor estimado 400 por cento em apenas um ano… antes mesmo de realizar a sua entrada em bolsa.
É, sem dúvida, uma das empresas de nova geração a criar um entusiasmo desmesurado de investidores. Muitos deles refeitos do choque da bolha de 2000-2001 não hesitam em saltar para a plataforma de media social como a nova “galinha dos ovos de ouro” dos seus investimentos.
Outros se seguem como o Twitter, Groupon ou Zinga.
Estaremos pois a assistir ao início da gestação da bolha versão 2.0 quando a Microsoft paga um multiplicador quase 10 vezes superior ao valor de vendas efectivo do Skype? Factualmente, os 5 mil milhões de dólares de investimento de venture capital nos quatro primeiros meses do corrente ano, colocam 2011 como o ano mais profícuo desde há mais de uma década.
Recuemos até ao ano de 2000 quando mais de 55 (!) mil milhões de dólares correram direitos para empresas de novas tecnologias em laboratório.
Então tal como hoje parece resisitir um certo encantamento por “concept start-ups”, a maioria das quais ainda sem site lançado. A competitividade aguda na colocação de investimento nos “pontos quentes” fez com que novos investidores se acotovelem para ganhar um lugar na primeira fila do próximo Groupon, Facebook ou Twitter.. se é que os haverá. O capital parece estar a ir ao encontro das novas formas de tecnologia que dão agora os primeiros passos, mesmo sem estas necessitarem de o procurar.
Mas será que as coincidências param por aqui? Um dos responsáveis de empresa de venture capital MatrixPartners parece querer coleccionar outros sinais de semelhança: “Quando eu assisto a certas start-ups duplicarem o seu valor nos últimos 12 meses com a mesma equipa, o mesmo conceito… talvez isso me faça voltar à bolha do passado”, atesta. Desafiemos por agora esta Matrix…reloaded!
Na prática o boom actual de investimento parece distinguir-se na sua essência daquele que resultou em colapso há 10 anos atrás. São 4 as razões que acabam por os separar à primeira vista.
Por um lado com a chegada do cloud computing mais facilmente as jovens empresas são lucrativas ou trilham um caminho mais fácil para o equilíbrio financeiro dados os custos operacionais dramaticamente mais baixos em relação há 10 anos.
Da mesma forma, quer a publicidade online, quer o comércio electrónico são hoje fontes de receita mais seguras e fiáveis que há uma década, quando se encontravam a dar os primeiros passos.
Há ainda a ter em conta que a pressa exacerbada para fazer o cash-out via IPO desceu consideravelmente face há 10 anos. Isto porque nova regulamentação e o crescimento de novas formas alternativas para negociar acções de firmas privadas forneceram novos meios e um claro incentivo para adiar o IPO.
Finalmente mais claro que todos os aspectos anteriores é o de que desta vez é diferente porque o frenesim é global. Repare-se que, entre 1999 e 2011, dos cerca de 100 mil milhões de dólares que as sociedades de capital de risco colocaram em start-ups de investimento, quase 80% foi nos Estados Unidos e dos 10.755 contratos realizados, cerca de 7.200 acabaram por ser implementados nos mesmos países.
Como é diferente o mundo de hoje! Dos 5 mil milhões de dólares que se referiram apenas, 4 mil milhões foram investidos directamente nos EUA, enquanto 75 por cento das 403 ideias de negócio fechadas nasceram fora dos Estados Unidos.
Mas não só o número como também a dimensão dos “start-ups” deixa de ter um “american flavour”.Dos 25 maiores negócios da internet de 2010, 15 deles não eram investimentos norte-americanos.
E de onde provinham? Adivinhou: a maioria eram chineses (12).
Descansamos então na certeza de que desta vez “a bolha” deixará de ter a volatilidade dramática da que se assistiu em 2000? Com novos actores, modelos de negócio sustentados e estabelecidos e em especial com um consumidor mais apto e entusiasta da tecnologia (obrigado, Mr. Jobs!)… o “post it” de todas estas movimentações pode ser um claro “Like it!” .
Nos dias de hoje estar-se certo de que uma nova onda de consolidação na net está a chegar é provavelmente a coisa mais errada. Ou como diria Paul Arden: “It´s wrong to be right, because people who are right are rooted in the past.”
Sigamos por isso os próximos episódios deste reality show!
Pedro Casquinha, gestor