O que a tecnologia pode fazer pela sua revista

Por a 28 de Maio de 2010

Não, não há nada de errado com as capas da Egoísta e da GQ. Se as imagens parecem desfocadas nestas páginas é altura de ir buscar os óculos 3D. O uso das imagens tridimensionais chegou à imprensa e parece estar a ganhar terreno. Patrícia Reis, editora da Egoísta, chama à capa da última edição da revista trimestral a sua “capa Avatar”. Dedicada ao Oriente, a edição revela as fotografias do italiano Roberto Giostra, que registou directamente em 3D a sua visão sobre esta região do globo. A responsável da publicação propriedade da Estoril Sol justifica a aposta na utilização de tecnologia tridimensional com a estratégia da revista que “ao longo de 10 anos tem-se esforçado por apresentar capas originais”, com recurso ao uso de veludo, a película lenticular ou em braille e que no próximo número se irá materializar numa capa a negro que terá de ser colocada no micro-ondas, “no máximo durante um segundo”, e a seguir revela uma imagem dedicada ao tema Liberdade. Produzir uma capa em 3D não colocou problemas de maior, diz a responsável, ao nível de produção na gráfica, tendo apenas de ter sido feito uma encomenda “de óculos à China, com muita antecedência”. A capa ganhou nos prémios da revista portuguesa Papiés, mas não sendo, como diz Patrícia Reis, a Egoísta “a publicação típica”, não sabe até que ponto esta aposta no 3D poderá tornar-se mais comum no mercado editorial português. “A nossa revista não tem um interesse meramente comercial”, frisa. A verdade é que o recurso ao 3D não é caso único no mercado editorial português. Também a GQ na sua última edição dedicou uma porção considerável das suas páginas ao 3D. Para Domingos Amaral na aplicação desta tecnologia há um antes e um depois do Avatar, filme de James Cameron que colocou o 3D no foco da atenção do público e dos media. Depois do cinema, a tecnologia começou a ganhar força na televisão e chega agora à imprensa. “Mostrar inovação”, através de “ideias novas”, aumentar notoriedade da revista masculina junto do público e dos anunciantes foram os objectivos que se pretenderam atingir com esta iniciativa, frisa o director da GQ, que refere ainda a vontade de colocar o título mensal na “liderança do uso do 3D na imprensa em Portugal”. O efeito que pode ser visto na capa e nas páginas de produção de moda da revista foi obtido com o recurso a várias técnicas, descreve o responsável editorial, parte resultante de uma produção directa em 3D, realizada pelo fotógrafo Ricardo Quaresma, e outro tanto da aplicação de um programa informático que transforma as fotografias 2D em imagens tridimensionais. Mas para o efeito ser total, a revista teve ainda de encomendar à Mediapromo, empresa sedeada no Porto, os óculos que permitem aceder ao efeito tridimensional em pleno. “Não é um custo exagerado, é um adicional. Não é nada que seja incomportável”, afirma Domingos Amaral. “O custo maior tem a ver com os óculos e aí fomos à procura de parceiros. Encontrámos a Renault, que sponsarizou esta acção”, diz, sem revelar os montantes de custo e de receita com esta edição. Além da marca automóvel que patrocinou os óculos, “um grupo importante de anunciantes alinhou em transformar os anúncios 2D em 3D”. “Houve alguns [anunciantes] que foram seduzidos pela ideia”, comenta o director da GQ.

Com a evolução da própria tecnologia, o responsável da revista masculina considera que o recurso ao 3D irá tornar-se mais habitual, tanto na imprensa, como na televisão ou cinema, mas se será a resposta para aumentar as vendas das revistas ainda é prematuro dizer. “Ainda é muito cedo”, afirma, quando questionado sobre a receptividade da GQ 3D em banca, “mas acredito que será um argumento de venda que vai funcionar muito bem”.

Quando o vídeo chega às revistas

Se o 3D, talvez efeito do Avatar, está no centro das atenções, o mercado editorial português e os anunciantes têm vindo também a experimentar outras opções trazidas por novas tecnologias ou resultantes da aplicação de tecnologias já existentes. Em Fevereiro, a Sábado foi o veículo escolhido pela OMD e pela Renault Portugal para a sua campanha de Video in Print (VIP), uma acção levada a cabo pela Wibii Marketing Tailors. A acção era constituída por um encarte que exibia seis vídeos, com cerca de um total de 10 minutos de visualização, entre outras informações com vídeos sobre os novos modelos Mégane RS e Laguna Coupé, a nova gama Zero Emissões e making of do anúncio para o Renault Mégane Coupé e Sport Tourer, rodado em Lisboa, e com assinatura da Publicis.

A Pixel é outra das empresas que em Portugal oferece esta tecnologia. Esta, descreve Ana Santana Lopes, executive manager da Pixel, inclui a possibilidade de “programar até 90 minutos de conteúdo de áudio-vídeo em tela super fina, controle de navegação através de múltiplos clipes de vídeo, o uso secundário que permite aos consumidores baixar os seus próprios conteúdos de vídeo e vida Extended Play através de baterias recarregáveis”. Visualmente o VIP apresenta-se numa “tela fininha de LCD com resolução de 320×240, colada nas páginas da publicação, e um micro-chip de 2,7 mm de espessura contendo áudio e vídeo”. “Desta forma, esta tecnologia de impressão serve como a primeira verdadeira ponte entre a media impressa e digital. Com todos os desenvolvimentos já existentes em áudio, iluminação, dimensões e materiais esta é uma tecnologia que representa um salto quântico em termos de complexidade e sofisticação”, argumenta a responsável. O VIP pode ser aplicado à própria publicação (“ainda existem algumas limitações na produção mas estou em crer que serão ultrapassadas rapidamente”) ou surgir como encarte (“simples”), e qualquer produção audiovisual (spot, filmes de apresentações institucionais, etc) pode ser adaptada a esta tecnologia através de um software específico, explica Ana Santana Lopes. “O investimento financeiro associado a uma campanha usando esta tecnologia não é pequeno, mas depende de quantidades e da variedade de conteúdos a inserir”, afirma a responsável da Pixel. “Mas o mais importante, não é o investimento, mas sim o retorno que obtemos. A CBS e a Pepsi Max serão sempre lembradas pela sua acção inovadora de marketing que apanhou os media de surpresa em Setembro de 2009”, acrescenta.

Ana Santana Lopes mostra-se optimista quanto à evolução e expansão de utilização do VIP. “Se, até à data, apenas era possível encontrar conteúdos estáticos numa publicação ou brochura, a partir de agora a comunicação conta com um suporte que permite ir mais além no impacto da mensagem junto do público-alvo. Pode-se falar de uma nova era na publicidade”, acredita. “É possível que num futuro próximo, esta tecnologia esteja presente em locais tão diversos como embalagens de cartão, menus de restaurantes, boletins informativos, revistas, jornais, cartões de aniversário, brinquedos e outros”, refere.

Realidade versão XL

Ao VIP junta-se um novo acrónimo: RA. Ou seja, realidade aumentada. Vítor Santos, um dos fundadores do atelier Raio X Design, que desenvolveu uma acção com recurso a esta ferramenta para a Dif, dando “a oportunidade ao leitor de viajar para além do papel” explica o seu funcionamento: “O utilizador tem de ter um computador com webcam, abre uma página específica e mostra o marcador, que é um símbolo gráfico a preto-e-branco [colocado nas páginas da revista]. Quando a aplicação identifica o marcador, activa a realidade aumentada, que pode ser um vídeo, uma animação, um objecto 3D, um jogo, etc.”

O projecto, explica Trevenen Morris-Grantham, director da Publicards e editor da Dif, surgiu de um contacto realizado pela Raio X Design “que nos abordou para tentar perceber se faria sentido esta acção para marcar uma diferenciação da revista”, o que foi considerado apropriado, tendo em conta “o conceito da revista e do público” a que se dirige.

Na edição os leitores tinham acesso a diversos marcadores que, quando exibidos frente a um ecrã de um computador/webcam, davam acesso a vários vídeos produzidos por parceiros, como a produção de moda realizada com o patrocínio da Compal, da qual foi feito um vídeo com o making-of, tendo contado ainda com o contributo de vídeos produzidos pela Cabra Cega e pela Torke. “A nossa ideia foi fazer parcerias com as empresas, mostrando o que é possível com o recurso à realidade aumentada”, comenta o responsável da Dif, que classifica o investimento nesta iniciativa como “irrisório”, sendo mesmo ao nível de reforço de espaço de servidor, já que o “já tínhamos o site e não criámos propriamente conteúdos” para esta iniciativa.

“O facto de podermos incluir conteúdos multimédia ou interactivos aumenta o interesse do leitor, pois existe um factor surpresa aliado a uma quantidade maior de informação, que é mostrada de uma forma completamente diferente”, considera Vítor Santos. “Há uma maior predisposição para consultar informação online, o que torna as revistas num meio menos aliciante para o leitor. No fundo, pretendemos aliar os conteúdos em papel, com esse dinamismo da internet”, acrescenta um dos fundadores da Raio X Design, quando questionado sobre a potencial receptividade deste tipo de abordagem junto dos leitores. Em relação aos anunciantes, Vítor Santos mostra-se igualmente optimista. “Enfrentamos neste momento uma crise na publicidade a nível dos media tradicionais. Se dermos oportunidade a um anunciante de incluir outros conteúdos que sejam mais eficazes na comunicação com o cliente, irá dar um novo ânimo à publicidade. Pode ser algo surpreendente, mas também pode ser uma promoção, um passatempo ou um jogo, sendo o objectivo principal criar laços com o cliente”, comenta. Trevenen Morris-Grantham mostra-se mais cauteloso. O tempo record em que esta ideia foi pensada e implementada (“três a quatro semanas”), não deu margem suficiente para a revista trabalhar a proposta junto dos anunciantes, admite o editor da Dif. A novidade da abordagem também coloca problemas adicionais. “É difícil explicar [a um anunciante] o que não conhece. Os clientes gostam de fazer coisas diferentes, mas quando é muito diferente ficam com algum receio, sobretudo numa altura em que os budgets são muito limitados”, confidencia o director da Publicards. Além disso, considera, este tipo de acções inovadoras também levanta algumas reticências junto dos investidores já que, diz, “é difícil medir o retorno do investimento”, embora considere que a mesma “pode ter uma mais-valia para o cliente ao nível de relações públicas”.

“Esta tecnologia ainda está a dar os primeiros passos na internet, mas pensamos que irá revolucionar a comunicação”, acredita Vítor Santos. “Pensamos que no futuro todos os websites podem ser construídos com recurso a este tipo de tecnologia, que juntamente com a holografia irão facilitar a navegação num site. Também na área das aplicações em telemóveis irá dar grandes passos”, vaticina.

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