‘O produto mais importante somos nós próprios’

Por a 14 de Maio de 2010

Marketing Pessoal. És um produto de sucesso?. É com este título “provocatório”, nas palavras de um dos autores, que um grupo de seis gestores se prepara para lançar aquele que pretende ser o primeiro manual de marketing pessoal português. No momento exacto do lançamento será colocado online o site mymarketing.pt, uma extensão do projecto que visa criar uma comunidade em torno deste tipo de questões. Em entrevista ao M&P, Nuno Nunes, gestor do projecto, explica em que consiste este projecto e fala sobre a importância do marketing na vida pessoal e profissional. O livro, que conta com testemunhos de personalidades como Fernando Nobre, Mário Barbosa (director da McDonald’s), Rui Nabeiro (presidente da Delta Cafés), Edson Athayde ou Beatriz Lemos (directora da Glam Celebrity Management), tem lançamento agendado para o próximo dia 19 de Maio, na Fnac do Centro Comercial Colombo. As receitas da veda do livro revertem a favor da AMI.

Meios & Publicidade (M&P): Em que é que vai consistir este projecto?

Nuno Nunes (NN): O projecto teve origem em seis gestores de diferentes áreas de negócio, desde indústria alimentar à distribuição, passando no meu caso, pela indústria farmacêutica. Nos últimos anos tem-se falado muito do marketing associado aos produtos e serviços, mas entrámos numa década em que começa a fazer sentido falar de marketing aplicado ao indivíduo. O projecto tem o objectivo de procurar que os leitores sintam necessidade de encontrar algo sobre auto-desenvolvimento e promover uma forte componente de responsabilidade social individual. Faz sentido começar a pensar na responsabilidade social também como uma questão individual. E é um livro orientado para o sucesso pessoal, para aumentar a auto-confiança dos portugueses já que somos tradicionalmente um país muito fatalista, que acredita pouco na capacidade de fazer coisas, no empreendedorismo, na capacidade de inovar. Somos um país que acredita muito no factor sorte. O que pretendemos mostrar é a visão contrária, a de que podemos construir diariamente os ambientes que nos poderão trazer o sucesso.

M&P: Mas o que é concretamente este livro de marketing pessoal? Um guia?

NN: O livro tem dez capítulos, com casos práticos, portanto é um manual. Mais do que um livro teórico, é um manual de marketing pessoal. Depois, tem um último capítulo – Vende a tua marca na rede – que está no site. É uma espécie de capítulo escondido, que convida as pessoas a visitar o site. Envolvemos no projecto um conjunto de contributos de pessoas de várias áreas da sociedade portuguesa, como foi o caso de Fernando Nobre, que para nós é um exemplo daquilo que representa o marketing pessoal.

M&P: O que é, afinal, o marketing pessoal?

NN: Por desconhecimento da maioria das pessoas, o marketing pessoal é muito diferente daquilo que é a primeira percepção das pessoas. Pensa-se que marketing pessoal é vender uma imagem, promover a pessoa independentemente daquilo que é o conteúdo e as suas características. A nossa visão não é esta. Primeiro está a construção do indivíduo, ganhar competências, aperfeiçoar-se e depois sim entra a fase da promoção, que é expectável que aconteça. Este é, por isso, um livro que faz muito sentido para pessoas que acabam a sua formação e entram no mercado de emprego ou, eventualmente, pessoas que estão na meia-idade e pretendem reavaliar e reorientar a sua vida profissional.

M&P: Qual vai ser o papel do site no desenvolvimento do projecto?

NN: O site funciona como uma plataforma que nos permite fazer uma extensão dos próprios conteúdos do livro, permitindo alimentar o tema do marketing pessoal e outros que se possam associar a este no futuro. Vamos ter também artigos de opinião dos autores do livro, de directores de empresas, que nesta fase ainda não foram englobadas no projecto. Por último, ponderamos transformar este site numa espécie de comunidade, um micro-blogue do MyMarketing.

Presença nas redes sociais

M&P: A ideia passa por tentar criar um espaço de reflexão sobre marketing pessoal?

NN: Também, mas queríamos que fosse mais do que isso. Hoje em dia o marketing pessoal toca em tantas áreas que tornar este site apenas e só de marketing é redutor, tem de ter outras componentes para além dessa. Este projecto está ainda numa fase de desenvolvimento e não vai ser estático. Os conteúdos que lá estarão no dia de lançamento não vão ser seguramente os mesmos que vão lá estar quinze dias depois. Há pessoas que estão preocupadas com a questão de gestão de marca, dos atributos, da publicidade e da promoção. As pessoas vão poder aderir a uma comunidade, como aquelas a que estamos habituados com o Facebook ou LinkedIn, orientada para estes assuntos. É um espaço onde vão poder partilhar experiências, produzir opinião e ajudar a construir o próprio projecto e fazê-lo crescer. Isto numa segunda fase. A primeira fase passa por criar uma plataforma dinâmica para expandir conteúdos para além daqueles que compõem o livro. O capítulo Vende a tua marca na Rede, por exemplo, faz todo o sentido estar online porque é disso que estamos a falar, de redes sociais e vida em rede, com exemplos práticos de como as pessoas se devem apresentar e promover nas redes sociais.

M&P: Essa é uma questão cada vez mais determinante ao nível do marketing pessoal? Há um código para saber estar nas redes sociais e tirar partido disso a nível profissional?

NN: Sim, é preciso chamar atenção para o facto de que existe hoje o fenómeno da netiqueta. Não está escrito em lado nenhum como as pessoas se devem comportar online, quais as oportunidades e quais as ameaças que podem surgir, mas existe uma noção de que nos devemos apresentar à comunidade online, ao mundo virtual, com os mesmos valores, os mesmo princípios, a mesma conduta.

M&P: Ainda em relação ao projecto do site, vai ser uma espécie de agregador de conteúdos de marketing pessoal ou vai também funcionar como uma plataforma para identificar tendências?

NN: O site foi concebido com a lógica de tentar criar numa só página tudo aquilo que hoje em dia as pessoas utilizam quando acedem à internet e, a partir daí, alimentar com conteúdos à volta dos diferentes temas que temos. Quando vamos à internet vamos fazer uma reserva de hotel, planear uma viagem, ver como está o tempo, ver os resultados do futebol, ler as notícias, aceder ao Facebook e ao MSN… E quando o fazemos temos de passar por diversas páginas. Aqui, vamos ter numa só página todo esse tipo de informação, tendo também as principais notícias do dia em economia, desporto, nacional e internacional, que vão aparecer logo na primeira página. Depois temos o último capítulo do livro e vamos trabalhar áreas como o marketing viral, mobile marketing, vamos naturalmente também falar de tendências. Mas não vamos ter apenas e só a reflexão em torno do marketing pessoal.

M&P: O que vos motivou a avançar com este projecto? Sente que o marketing pessoal é uma necessidade emergente?

NN: Fala-se muito de marketing aplicado a marcas, a produtos e serviços, mas o marketing é uma disciplina tão rica que pode ser indiscutivelmente utilizada nas nossas vidas, na condução do nosso percurso. Daí até começar a escrever umas coisas foi um passo. Contámos também com a colaboração de um professor, Frederico d’Orey, que é uma pessoa com uma vastíssima experiência em gestão de marketing e esteve ligado à Unicer. E percebemos que este era um projecto com potencial para ser desenvolvido. Quisemos também mudar essa visão de que o marketing pessoal tem pouco a ver com o conteúdo e mais com a promoção, que é uma coisa de fachada. O que fizemos foi, enquanto gestores, olhar para as matrizes que utilizamos na gestão de empresas e de produtos e achámos que há um conjunto delas que podem ser replicáveis para a gestão da nossa vida. Quando falamos, por exemplo, de uma empresa que assume para si a sua missão e os seus valores, porque é que o indivíduo não há-de ter como as empresas uma declaração de missão para o seu percurso profissional e pessoal e projectar como será a sua vida daqui a dez anos? As empresas usam também muito uma matriz que analisa, em determinado momento, aquilo que são as oportunidades, ameaças, forças e fraquezas de um produto. Porque é que não devemos olhar para nós e fazer essa análise?

M&P: Pegando no título do livro, És um produto de sucesso?, parece-lhe que as pessoas devem, para atingir o sucesso, colocar esta questão a si próprias?

NN: As pessoas devem fazer uma análise daquilo que são, daquilo que construíram e daquilo que ambicionam ser. Não queremos passar a ideia de que este livro tem aqui os passos mágicos para o sucesso. Não prometemos nada disso. Mas quisemos um título provocatório, que desafie a pessoa a comparar-se com um produto. Porque há muita falta de atitude nos portugueses. Às vezes as pessoas até passam pela fase da análise mas depois falta-lhes atitude. É preciso abanar a árvore e deixar cair alguns dos preconceitos e pressupostos que as pessoas têm enraizados. O que pretendemos é que as pessoas afastem essa apatia e tracem uma espécie de plano de marketing para as suas vidas. Porque o produto mais importante que temos, se por um momento o entendermos dessa forma, somos nós próprios. Se pensarmos que somos um produto numa prateleira, facilmente percebemos que temos de fazer algo para sobressair. Faz sentido equacionar o nosso próprio plano de marketing.

Um plano de marketing pessoal

M&P: Qual é a importância da construção desse plano de marketing do ponto de vista pessoal?

NN: Construir um bom plano de marketing é determinante para o sucesso, quer de um produto quer da vida das pessoas. Grande parte das coisas que compõem um plano de marketing estão no livro mas com outra roupagem, para chegar a pessoas que não têm conhecimentos prévios de marketing. Mas falamos muito de posicionamento, de segmentação e até de público-alvo. Temos de ter a consciência de que na nossa vida não temos a capacidade de chegar a todo o tipo de pessoas da mesma forma. Temos um capítulo dedicado ao networking e o desafio que aí fazemos é, em primeiro lugar, perceber a importância do networking na nossa vida profissional e pessoal. A nossa rede de contactos começa logo quando nascemos. E, em determinados momentos, temos projectos que não podemos fazer sozinhos, precisamos da nossa rede de contactos. É importante termos consciência de que quanto melhor trabalharmos sobre a nossa rede de contactos mais possibilidades teremos de alcançar os nossos objectivos. Para os objectivos que estabelecemos, olhamos para a nossa rede de contactos e vamos perceber se aquela rede que temos actualmente é ou não a mais adequada aos objectivos que perseguimos. Faz sentido ponderar este objectivo tendo esta rede de contactos? Ou preciso de me aproximar de determinadas pessoas e construir uma nova rede de contactos? É preciso fazer este tipo de análise. Outra questão é o benchmarking: porque é que não havemos de fazer benchmarking individual e aproveitar, à semelhança do que fazem as empresas, os aspectos positivos que reconhecemos nos outros?

M&P: Numa altura em que as redes sociais estão tão presentes na vida das pessoas, essa gestão do marketing pessoal assume uma importância maior?

NN: Sem dúvida. As redes sociais permitem que, à distância de um clique, se esteja próximo do mundo. Isso traz, do ponto de vista pessoal e profissional, muitas vantagens mas também algumas ameaças. Se já há pessoas que as utilizam de uma forma inteligente, há pessoas que ainda estão um pouco desatentas sobre a forma como podem promover-se nesse tipo de meio. As redes sociais são uma extensão da nossa vida, com relações que são digitais em vez de físicas. É importante ter essa consciência e ter a tal netiqueta. Temos de saber lidar com as pessoas também no MSN ou no Facebook. O potencial tem a ver com a visibilidade que podemos dar ao nosso trabalho. Há pessoas que são óptimas numa determinada área mas que, pela sua maneira de ser, se sentem amordaçadas, sem mostrar esse potencial. Uma comunidade virtual vem facilitar esse processo.

M&P: Este projecto tem a ambição de vir a evoluir para uma consultora de marketing pessoal?

NN: Nesta fase não pensamos nisso. Este projecto deu muito trabalho e, nesta fase, aquilo que queremos é perceber o impacto daquilo que fizemos. É prematuro, para já, considerar que este projecto pode vir a ganhar vida própria e a transformar-se numa entidade empresarial para fazer acções de formação, coaching ou o que quer que seja nesta área.

M&P: Mas, pelo que percebo das suas palavras, não excluem essa hipótese.

NN: Não, não excluímos essa hipótese evidentemente, quer a título pessoal quer a nível colectivo. Mas não faz parte, a médio prazo, dos nossos objectivos.

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