‘Nunca se questionou a continuação do Global Notícias’

Por a 21 de Maio de 2010

Mais de dois anos depois do lançamento, o Global Notícias surge nas ruas com um novo grafismo (da Cases) e direcção. Gonçalo Pereira, o novo homem à frente do leme do diário gratuito do grupo Controlinveste, dá conta, em entrevista ao M&P, dos planos para o título que, assegura, mantém os objectivos fundadores: dar ao leitor a informação sobre o que se passa no mundo em 15 a 20 minutos e a conhecer os conteúdos dos produtos editoriais dos meios do grupo. Isto apesar de as vendas dos títulos em banca da Controlinveste não terem registado o impacto positivo, como antecipavam os seus responsáveis, da chegada do gratuito, a avaliar pelos números do APCT. “Não se pode imputar em relação ao Global as responsabilidades nas quebras de vendas de vários títulos, pode é dizer-se que o Global não alavancou essas vendas”, comenta Gonçalo Pereira. A consolidação do segmento dos gratuitos e a queixa da Controlinveste na Autoridade da Concorrência foram outros dos temas abordados na entrevista.

Meios & Publicidade (M&P): Após dois anos e meio o Global Notícias fez uma remodelação gráfica. Porquê?

Gonçalo Pereira (GP): Porque os jornais podem e devem ir sempre melhorando. A remodelação gráfica é sempre uma agradável surpresa para o leitor, um convite para explorar novamente o jornal, mostrar que o jornal está vivo. Considerámos que havia necessidade de, por um lado, arrumar um pouco melhor o jornal. Dividimos o jornal em três áreas: actualidade, desporto e ócio. A actualidade diz respeito ao noticiário corrente (nacional, internacional, economia, sociedade), o desporto é auto-explicativo, obviamente com o predomínio do futebol e com os três grandes a ocupar o espaço dominante, e o ócio inclui desde programação de televisão a passatempos, gadgets, sugestões de lazer, etc. Uma das preocupações que houve foi aumentar o número de notícias. Um dos propósitos do Global Notícias é dar uma ideia ao leitor do que se passa no mundo em 15 a 20 minutos. O jornal é um companheiro de viagens, não pode ser um jornal que vá prender durante uma infinidade de tempo, quanto mais curtas forem as notícias, mais perfeita será a síntese do acontecimento e, em menos tempo, damos ao leitor a informação que queremos transmitir. Além de que, aumentando o número de notícias por página, também estamos a abranger um maior leque de assuntos.

M&P: Ao Diário de Notícias disse que “mais do que uma remodelação é a adopção de uma nova estratégia”. Que estratégia é essa?

GP: Talvez tenha havido um erro de interpretação. Não há uma alteração de estratégia, esta mantém-se, há um melhoramento da forma como vamos cumprir os nossos propósitos, que são os mesmos desde a fundação. Por um lado, dar ao leitor a informação básica do dia em 15 a 20 minutos nas áreas do desporto, política, economia, internacional, e por outro lado, a segunda parte da estratégia, e que se mantém, é fazer com que este jornal também funcione como uma montra daquilo que o grupo tem para oferecer aos leitores, espectadores ou ouvintes, visto que estamos em várias plataformas, desde a televisão à rádio e imprensa. Daí que continuamos a ter o contributo dos vários órgãos do grupo que vertem informação para o Global Notícias. Esta estratégia de informar sobre o que se passa e mostrar o que temos no grupo mantém-se em vigor.

M&P: Visto que mostrava os conteúdos de outros jornais, um dos objectivos para este projecto era aumentar as vendas dos títulos em banca. Os números do APCT não revelam essa realidade. O que não correu tão bem aqui?

GP: Acho que não é o que não correu tão bem aqui, é o que não correu tão bem em muitos lados. Vários títulos, no grupo e não só, têm sofrido quedas. O que me preocupa não é tanto o que não tem corrido bem, o que me preocupa é o que posso fazer para que isto corra melhor. Não se pode imputar em relação ao Global as responsabilidades nas quebras de vendas de vários títulos, pode é dizer-se que o Global não alavancou essas vendas. A presença do Global não foi suficiente para evitar quebras nas vendas e agora é preciso pensar no que posso fazer para ajudar a contrabalançar – não está tudo nas mãos do Global -, a inverter essa tendência. Admito que a fórmula que tem sido seguida até agora talvez não chegue. Sendo certo que vamos manter esta prática de publicar no jornal súmulas de algumas notícias que são de produção própria de órgãos deste grupo, vou ter de procurar outras alternativas, outras áreas, onde possa ajudar a alavancar as vendas, ajudar outros órgãos do grupo a mostrar às pessoas o que têm para oferecer. E isto, que pode ser útil para os outros órgãos, é também uma riqueza do Global Notícias, ou seja, podemos contar com o contributo de centenas de jornalistas que trabalham para o grupo em que o Global Notícias se insere. Se calhar não tem sido feito da forma mais eficiente possível. Vou procurar encontrar uma forma mais eficaz de o fazer. Não é fácil, mas também não acredito que seja impossível.

M&P: O segmento dos gratuitos sofreu o ano passado uma consolidação através da Metro News, detida a 59 por cento pela Cofina, que passou a ter uma participação no Metro. Esta mudança contribuiu para a reformulação?

GP: Talvez sim. Este processo de remodelação começou antes de chegar, mas acredito que seria feita mesmo que nada exterior ao jornal se passasse. Os jornais são órgãos vivos que nascem e evoluem ao longo do tempo e as remodelações, quer gráficas quer de conteúdos, são uma prática mais ou menos rotineira.

M&P: A propósito dessa operação o grupo questionou a Autoridade da Concorrência, considerando que essa participação da Cofina suscita “claramente problemas de concorrência”.

GP: Partilho essa preocupação.

M&P: Essa situação, imagino, impacta pelo menos a estratégia comercial do Global.

GP: Este grupo tem capacidade para lutar, para fazer valer os seus argumentos, fazer vender os seus produtos, já cá andamos há alguns anos também. Saberemos sobreviver, lutar pelo que é nosso. Agora, preferíamos fazer isso em condições menos nebulosas.

M&P: O que quer dizer com “nebulosas”?

GP: Parece-nos claro que há ali uma concentração de dois títulos que estão em primeiro e segundo lugar nas audiências em gratuitos, o que nos parece uma concentração um bocadinho excessiva. Mas, deixo a gestão dessa política para a administração do grupo, que sei que está a lutar pelos nossos interesses, e para as entidades competentes a que recorremos. A minha preocupação é uma em todo este processo: fazer um jornal melhor que os outros, mais apelativo, e fazer com que os leitores o percebam e prefiram o nosso.

M&P: Neste momento, apesar de serem o título com maior circulação, não têm a maior audiência. Situa-se nos 3,3%…

GP: Essa é em parte a resposta à pergunta porque fizemos esta remodelação gráfica.

M&P: Esta discrepância tem a ver com o facto de ser o gratuito mais recente no mercado ou pela falta de ligação dos leitores com o título?

GP: A juventude tem o seu peso, de facto os jornais demoram algum tempo a implantar-se. Acredito que, à medida que os gratuitos são menos novidade e mais rotina, as pessoas começarão, cada vez mais, a optar por um dos títulos que lhes é posto à frente e optam por aquele que consideram que melhor as serve. É aí que a minha responsabilidade se manifesta: fazer um título que sirva melhor às pessoas. E isso, consideramos aqui, é fazer um jornal mais bonito, mais arrumado e com mais notícias. É a velha máxima ‘nada interessada a todos, mas tudo interessa a alguém’ que nos leva a pôr mais notícias por página, cobrindo um maior leque de interesses das pessoas e mais facilmente informar as pessoas sobre mais assuntos no mesmo espaço de tempo.

M&P: Em termos de tiragem e distribuição pensam vir a fazer alguma alteração?

GP: Por enquanto vamos manter a tiragem, os 140 mil exemplares, e a distribuição. A minha preocupação fulcral é no campo do editorial, o que mais poderei de novo e diferente oferecer e, em função dessa selecção, poderão surgir alguns acertos na distribuição. Neste momento, que é de reflexão, não faria sentido estar a fazer acertos que não meramente pontuais em nome de nada.

M&P: Os gratuitos vivem exclusivamente da publicidade. O ano passado foi particularmente mau…

GP: E temo que este ano não seja particularmente brilhante.

M&P: Sendo essa a sua análise, sente que o novo Global tem as ferramentas necessárias para lutar taco-a-taco pelo seu quinhão de publicidade?

GP: A análise não é minha, é um sentir de mercado de pessoas que acompanham mais directamente essa área e que me transmitem. Temos ferramentas para lutar melhor ainda pelo nosso espaço publicitário. Acredito que podendo nós contar com o contributo de tantos jornalistas que trabalham neste grupo e podendo ter acesso a uma quantidade tão grande de histórias, de informações, acho que temos tudo para ser o melhor dos gratuitos. E acredito que o melhor acabará por se impor, é uma questão de persistência. Resistir é vencer.

M&P: E o grupo tem essa capacidade de resistência? Ou seja, para aguentar o produto até o mesmo se impor, numa altura em que todos os grupos se debatem com dificuldades financeiras.

GP: Acredito plenamente que sim. Em relação a isso não há qualquer dúvida, nunca se questionou a continuação do Global Notícias.

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