Ditam tendências mas não são de moda

Por a 28 de Maio de 2010

Já ouviu falar dos Vintage Fashion Shows? E das canetas-espia saídas de um filme de James Bond que permitem filmar e escrever? E das revistas que dedicam páginas e páginas ao Brasil? E do guarda-chuva feito de cortiça criado pela portuguesa Sandra Correia? Estas são algumas das tendências identificadas mais recentemente por alguns dos 34 mil colaboradores da consultora Trend Hunter. Esta multidão, espalhada pelas principais cidades do mundo, anda à procura de novas tendências ligadas à cultura, à arte, aos negócios e até à forma como as pessoas interagem. Jeremy Gutsche, key speaker do Congresso Nacional de Marketing que decorreu ontem em Lisboa, tem dado a volta ao mundo a apresentar o projecto Trend Hunter, que criou quando ainda andava na faculdade. Depois da capital portuguesa, Otava era o próximo destino agendado.

Em termos práticos, como é que as consultoras de tendências ajudam as empresas a melhorar os seus negócios? “Através do estudo de tendências do consumidor e das suas evoluções é possível identificar novas oportunidades e ideias de negócio”, responde Pedro Rocha,

que está à frente da Oak, consultora que trabalha lado a lado com o Trendwatching.com na análise de evoluções do comportamento do consumidor. “Na medida em que a sociedade se modifica, é necessário ter em conta a evolução das necessidades, dos contextos, dos valores das pessoas e depois adaptar a oferta de acordo com os mesmos”, completa o mesmo responsável. Luís Rasquilha, que abriu no ano passado a Ayr, onde conta com o apoio da Science of the Time, consultora de tendências fundada por Carl Rohde, exemplifica com uma tendência identificada pela Science of the Time que está a ser seguida pela Galp Energia. A petrolífera adoptou a macro-tendência Um Mundo Melhor que leva os consumidores a preferirem produtos e marcas que contribuem para uma sociedade melhor. “A Ayr é o braço armado da Science of the Time, ou seja, nós interpretamos as tendências e aplicámo-las a negócios, mas sempre partindo de briefings de negócio e análise de dados de mercado e consumidor profundos. Somente assim é que vemos uma aplicação real, prática e vantajosa das tendências a necessidades ou oportunidades concretas”, comenta ao M&P Luís Rasquilha.

A lista de termos criados pelas consultores e caça-tendências não pára de aumentar. O Trendwatching apresenta como tendência mais recente o “statusphere”, um conceito de status onde o esforço pelo reconhecimento está presente em todos os actos de consumo. Já no início do ano, o Trend Hunter apresentava entre as tendências que iam marcar os meses seguintes termos como unserved, nostalgia marketing e ecopolitan. Quer saber mais pormenores? Só comprando os relatórios, que são um dos pilares do seu modelo de negócio.

O conhecimento das tendências “serve para criar uma visão, um caminho estratégico para as organizações, centrada nas evoluções das necessidades dos consumidores, que tem de ser complementada com outras informações estratégicas, para realmente impactar o negócio”, considera Pedro Rocha. Em termos de negócio, a Oak actua ao nível do planeamento estratégico e criação de marcas centradas nos universos dos consumidores “de forma a criar diferenciação e, acima de tudo, relevância para os nossos clientes”, comenta. No entanto, para cada tendência existe uma contra-tendência. Um exemplo: “Há marcas para as quais faz sentido falarmos em democratização do discurso – crowdsourcing, isto é, incluir os consumidores – e outras que funcionam simplesmente ao criar produtos inovadores e fantásticos que maravilham os consumidores, sem os incluir nesse processo”, refere Pedro Rocha, que aponta para o caso da empresa de Steve Jobs. “Há caminhos democráticos e opacos para perseguir quando falamos em gestão de marcas. A Apple é, por exemplo, uma marca opaca, uma aparente contra-tendência de acordo com a retórica actual – mas parece resultar para aquela empresa”.

O relatório anual de tendências do consumidor desenvolvido pelo Trendwatching.com, em que a Oak participa, tem clientes como a Google, The Body Shop, Virgin Mobile, Telefónica ou o Instituto Português de Turismo, a CIN, a Sonae Distribuição e a Jerónimo Martins. “A Oak, em particular, trabalha com diversas empresas portuguesas nas áreas do retalho e distribuição, desporto, telecomunicações e administração pública – quer na análise da evolução do comportamento do consumidor para construir novas oportunidades de negócio, quer na construção de marcas e soluções de marketing adequadas a essas realidades emergentes”, detalha Pedro Rocha. Luís Rasquilha, por questões de confidencialidade, prefere não revelar os clientes.

– Oito conceitos para Portugal

1. Os Open Spaces para os Nómadas Urbanos

Cada vez mais estamos conectados e acessíveis 24/7/365 e, por isso, nota-se a presença dos Nómadas Urbanos, aqueles que trabalham onde quer que estejam e não precisam de um escritório fixo.

2. Maior conectividade. Menos cabos

A permanente disponibilidade para estar presente nas redes sociais e partilhar a sua vida nelas, em busca de semelhantes com gostos e hábitos iguais é um dado adquirido.

3. Recessão sã

Não há ainda sinais de que a recessão tenha terminado. Assistimos a uma atitude de grande capacidade de lidar com circunstâncias adversas e mesmo rir delas – o que chamamos de Resistência Criativa.

4. Compaixão, sim. Pena, não.

O mundo torna-se um lugar cada vez mais perigoso onde as histórias dos que vivem nas suas regiões mais problemáticas não podem ser nem romantizadas, nem esquecidas.

5. Eco Cool Estrutural

O ambiente está a passar por algumas “dificuldades técnicas” que se reflectem nas notícias e que sentimos na nossa pele. Há um terreno extremamente fértil para o Eco Cool Estrutural em 2010 e 2011 para que possamos cumprir o nosso dever de ajudar a resgatar o ambiente para as futuras gerações.

6. Relax Total

Estamos a viver numa sociedade onde predomina o stress. É talvez por isso mesmo que necessitamos mais do que nunca de alguns momentos de relaxamento. Não apenas um “tomar fôlego”, mas sim momentos preciosos que nos permitam “sair do nosso corpo”.

7. Raiva, desconfiança e decadência

Os banqueiros não são uma categoria que possa contar com o respeito e carinho gerais, já que são primordialmente responsáveis pelo colapso de uma das mais importantes bases de confiança nas instituições da sociedade. Uma confiança que levará muito tempo até ser reconquistada. Os seus abusos causaram, entre outros, uma retracção enorme nos hábitos de consumo e pequenas indulgências que eram comuns a muitos passaram a ser vistas como luxos e até mesmo “decadência”.

8. A transparência da vida ou a realidade ampliada

É a tendência com maior potencial de crescimento em 2010 e 2011. O desejo, a necessidade e a realidade de podermos estarmos conectados permanentemente e em qualquer lugar agora acopla-se e estende-se à capacidade de obter, ter e compartilhar informação: onde estamos, que recursos podemos ter disponíveis (não importa para quê) e, sobretudo, o que podemos saber mais – sobre onde estamos, com quem estamos, para onde podemos ir e com quem. Tudo ao detalhe.

Fonte: AYR/The Science of Time

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