Estará a internet a mudar os valores do jornalismo? Será que a noção do impacto que um determinado tipo de conteúdo tem junto aos leitores das edições electrónicas está a influenciar o alinhamento das edições em papel, privilegiando-se o tipo de conteúdos que têm mais ‘sucesso’ junto dos utilizadores? A avaliar pelas reacções dos responsáveis editoriais ouvidos pelo M&P, o conhecimento obtido por via da internet tem impacto, ma non troppo.
“Hoje os jornais, mais do que jornais diários, são marcas que disponibilizam conteúdos em diferentes plataformas. O ritmo da internet pode sempre influenciar, mas não é o único dado”, começa por referir João Marcelino, director do Diário de Notícias. “Há notícias que entram em linha e que têm mais procura do que outras”, diz o responsável, mas que não é por isso que outros temas, à partida com menos nível de resposta da parte dos utilizadores, não são abordados. “O online é muito bem medido”, diz, por seu turno, Miguel Gaspar. “Temos capacidade de perceber se as pessoas leram [determinada notícia], se a acham interessante e que comentários suscita”, o que não acontece com tanto grau de pormenor no papel onde as medições “são menos imediatas”. O online é, por isso, no entender do director-adjunto do Público, um “barómetro interessante”, mas há que ter um “certo cuidado nessa aferição”. É que, realça, “os conteúdos do papel e do online são diferentes. No online são conteúdos mais imediatos, privilegia-se a actualização minuto a minuto, no papel é diferente. As notícias do papel têm de ser aprofundadas”, diz o responsável editorial do Público, que frisa que os temas que surgem na edição em papel são à partida “os que queremos trabalhar em profundidade” e, na óptica do jornal, considerados relevantes. E dá como exemplo o Estatuto do Estudante que, diz, mesmo que online não fosse o conteúdo mais procurado “não deixaria de ser importante”. “Não vamos mudar o critério por causa de audiências”, garante.
“Em 90 por cento dos casos os comentários [no online] são pura e simplesmente ‘bocas’ para o geral”, lamenta por seu turno Henrique Monteiro, director do Expresso, quando questionado sobre se notícias que geram buzz na edição online influenciam o alinhamento da edição semanal em papel. Contudo, ressalva, “os conteúdos de comentários são de uma percentagem de quem nos lê” e que, quando há uma procura muito grande de uma notícia “há interesse que no papel apareça um pouco mais [desenvolvida]”. No entanto, realça o director do semanário da Impresa Publishing, nessa ponderação, e “num jornal como o Expresso, há que separar o interesse público do interesse do público”. “A última namorada do Ronaldo pode ter muito interesse do público, mas não tem interesse público”, atira a título de exemplo. “O critério no online é mais largo do que no papel, pelo simples facto de que não há limitação de espaço”, como no papel, refere ainda Henrique Monteiro. “De qualquer forma temos de perceber o que também é relevante. Também damos manchetes no online”, acrescenta.
Na relação entre o online e o papel há uma influência entre as duas plataformas, admite Octávio Ribeiro, mas não necessariamente do online para a edição em papel. “Influencia mas ao contrário”, diz o director do Correio da Manhã. “As notícias que são apresentadas no online são menos valorizadas do que os exclusivos que temos em papel”, afirma o responsável do diário da Cofina.
“Há um processo entre o jornal e o papel que flui em contínuo ao longo dos dias”, diz por seu lado Pedro Guerreiro, director do Jornal de Negócios. “Há influência do online no papel”, admite o responsável do título de economia da Cofina, já que, “o jornal é o complemento do online e não o contrário”, invertendo o que diz ser o “esquema tradicional” de funcionamento de outros meios de imprensa com presença na internet “onde o online é o complemento dos jornais”. O que significa que há conteúdos abordados no online que têm continuidade e são aprofundados no dia seguinte no papel através de opinião ou entrevistas, diz. Apesar de os leitores das duas plataformas não serem os mesmos e terem “necessidades distintas”, o online funciona “como indicador dos temas que estão a ter interesse junto dos leitores”, afirma. “A Comissão de Inquérito [sobre o negócio da compra da TVI/PT no Parlamento] não está a ser tão procurada online como foram os trabalhos da Comissão de Ética, na edição impressa não estamos a fazer a mesma quantidade de trabalho que fizemos para a Comissão de Ética”, exemplifica o director do Jornal de Negócios. Um interesse dos leitores que tem de ser avaliado com cuidado já que se “são os soundbytes que geram audiências no online”, isso pode “gerar o efeito de nos tornarmos reféns das audiências e há a tentação de só fazer o online com notícias de soundbyte”, alerta. “Nós estamos interessados em fixar audiências”, garante, isto é, que os leitores permaneçam no site, “os soundbytes são para os franco-atiradores”, comenta.
Estará o online a ‘flexibilizar’ os critérios jornalísticos?
Mas com a crescente importância que o online está a ganhar junto do público, estarão os critérios jornalísticos a ser afectados? Estará a velocidade e o ritmo imprimido pelo online a tornar as regras do jornalismo mais ‘flexíveis’? Um inquérito realizado junto a responsáveis do sector da imprensa e de televisão no mercado norte-americano e publicado recentemente no estudo The State of Journalism apresenta alguns resultados que dão que pensar: 59 por cento dos inquiridos responderam que a internet está a mudar os valores do jornalismo. Standards mais flexíveis (65 por cento), ênfase na velocidade (30 por cento), mais opinião e parcialidade (16 por cento) e menos análise e mais superficialidade (13 por cento) são alguns dos aspectos que, no entender dos responsáveis ouvidos pelo Project for Excellence in Journalism, sofreram o impacto da internet. Contudo, 40 por cento considera que os valores do jornalismo estão a transferir-se para a internet (ver quadros). Os operadores portugueses ouvidos pelo M&P parecem inclinar-se mais para esta análise, pelo que se pode depreender dos seus depoimentos.
“A lógica de procura [de informação] do online mais próxima é a do meio rádio ou da televisão”, constata Octávio Ribeiro, admitindo que no online possa haver “um pouco esse risco de uma menor, não digo confirmação, mas de um menor desenvolvimento até porque no online pode estar apenas um lead”, refere o responsável editorial do Correio da Manhã.
“As grandes marcas têm que ter critérios uniformes seja no papel, seja no online” ou todas as outras plataformas em que a marca poderá marcar presença no futuro, refere João Marcelino. Para o responsável do Diário de Notícias as marcas não podem cair na tentação de, pela pressão da velocidade, avançarem com informação que não siga os procedimentos de confirmação jornalísticos habituais. Se isso acontecer as marcas “estão perdidas”. “Não se pode matar uma pessoa às 15h10 e depois afinal não é verdade”, ironiza, embora admita não ver “grande razão de queixa” dos produtos informativos online em Portugal.
“O que distingue os jornais de tudo resto é a credibilidade. É o que distingue a imprensa séria de todas as fábulas, quimeras e efabulações que circulam no online”, frisa Henrique Monteiro. Rigor é, por conseguinte, importante e necessário que se aplique, considerando o director do Expresso que “os jornais que estão na internet têm critérios muito semelhantes aos do papel. No fundo, no fundo é a mesma coisa”.
“O risco das notícias não confirmadas é sempre uma situação de tensão”, diz, por seu turno, Miguel Gaspar. O director-adjunto do Público recorda um caso paradigmático com que o título se viu confrontado recentemente. Aquando das derrocadas da Madeira houve meios que avançaram com a informação de que estariam corpos num centro comercial no Funchal que estava inundado. Dados que o jornal não conseguia confirmar, nem mesmo o correspondente que tinha na Madeira: “Decidimos não avançar, e ainda bem que não o fizemos porque estava errada”, recorda Miguel Gaspar. “Temos de ter a presença de espírito de não ir atrás da maré”, diz. “A tentação existe sempre e às vezes toma-se a decisão errada”, continua. Tanto no online como no papel correr esses riscos e cair em erro, considera, “é mau”. “O impacto é negativo na mesma”, sintetiza.
“Os nossos critérios são os mesmos [tanto no papel como no online]”, garante Pedro Guerreiro. “A redacção [para as duas plataformas] é a mesma há muitos anos”, refere o director do Jornal de Negócios. Mas, ressalva, “sinto que a propagação de informação não verificada é muito mais fácil” no online. “Quando somos a fonte original da notícia, temos os mesmos cuidados nos dois meios”, assegura, mas “já nos aconteceu reproduzir uma notícia em que a fonte original não teve esses cuidados”. “Houve uma notícia que surgiu num site de um jornal generalista que uma empresa tinha sido alvo de buscas e não tinha”, relembra. “A propagação é muito rápida e depois é incontrolável”, diz. “Acontece muito em redacções onde o online está entregue aos mais júniores”, conclui.