Já em 2010. E agora?

Por a 23 de Abril de 2010

À pergunta, quão má está a situação do sector de imprensa, um jornalista respondeu: “Está tão má que até os ardinas que fazem entregas ao domicílio se queixam que as edições de segunda-feira nem têm peso de lançamento suficiente para chegar às portas das casas.” Este é o panorama com que o sector arrancou este ano, depois de um 2009 francamente agressivo do ponto de vista económico. Os números reunidos pelo norte-americano Pew Research Center – Project for Excellence in Journalism em State of the News Media 2010 dão conta do patamar do qual o sector partiu findo 2009. “Os números mais recentes foram feios. Perdas de publicidade de cerca de 26 por cento em 2009 (em cima de uma perda de 23 por cento nos últimos dois anos) levaram os jornais a reduzir tudo – desde as suas dimensões físicas, o espaço dedicado às notícias e, mais dolorosamente, o seu número de jornalistas. Pelos nossos cálculos as receitas de publicidade caíram 43 por cento nos últimos três anos”, descreve o estudo, com as redacções a diminuírem em 27 por cento nos últimos três anos o seu número de funcionários, tendo-se perdido cerca de 15 mil postos de trabalho, e isto só nos Estados Unidos.

A situação de quebra das receitas de publicidade não foi exclusiva dos jornais: a publicidade da televisão local caiu 24 por cento (o triplo do ano anterior), na rádio a descida foi de 18 por cento, nas revistas caiu 19 por cento, nas redes de televisão diminuiu 7 por cento e no online cerca de 5 por cento. Apenas a televisão por cabo não quebrou as suas receitas o ano passado. “As estimativas sobre o que irá acontecer depois de a economia reagir variam e mesmo essas são apenas suposições. A empresa de marketing research e banco de investimento Veronis Suhler Stevenson projecta que em 2013, depois da recuperação da economia, três elementos dos velhos media – jornais, rádio e revistas – recebam menos 33 por cento de receitas de publicidade do que obtinham face a 2006”, alerta o estudo. E as perdas são “tremendas”, com os jornais a dirigir menos 1,6 mil milhões de dólares para a produção de notícias do que em relação a 2000. “Para os jornais, que ainda representam a maior fatia de jornalismo de relato nos Estados Unidos, a metáfora que vem à mente é de areia numa ampulheta. A fatia que encolhe de dinheiro, mas que ainda representa 90 por cento dos fundos da indústria, é o montante de tempo que resta para inventar um novo modelo de negócio online. A indústria tem de encontrar um novo modelo antes que o dinheiro acabe”, frisa o estudo.

Redes sociais como o Twitter emergiram em 2009 como ferramentas poderosas de disseminação de informação e até de mobilização dos cidadãos, conquistando espaço junto dos utilizadores de internet (57 por cento neste momento usa ferramentas como o Twitter, blogues ou redes sociais) e experiências de jornalismo cidadão a nível local começam a ganhar terreno. Apesar de tudo as receitas geradas representam uma fatia diminuta do que foi perdido, como dá conta o J-Lab, projecto liderado por Jan Schaffer e que estuda os media sociais, que calcula que cerca de 141 milhões de dólares de fundos não-lucrativos se dirigiu para os projectos de novos media nos últimos quatro anos (não incluindo a televisão pública) “o que é menos de um décimo das perdas ocorridas nos jornais”.

Mais fontes de receita

Um cenário que leva os operadores a questionar-se sobre o que o futuro reserva para o sector, tendo-se imposto de forma decisiva a necessidade de a indústria obter novas fontes de receita. Para os jornais, “as perspectivas de negócio para 2010 são marginalmente melhores” do que em relação ao ano anterior, pode ler-se no State of the News Media.“As perdas de publicidade e a necessidade de cortes adicionais será menos extrema. Com os aumentos de preços em muitos jornais, as receitas de circulação estão a subir ligeiramente, embora os números de circulação continuem a cair”, considera. As receitas de publicidade oriundas do online deverão aumentar novamente e os jornais poderão encontrar novas receitas em mercados como o da produção de notícias para terminais móveis. É, de resto, do digital que, considera o estudo, poderão advir novas fontes de receita para os jornais, com iniciativas na área do behavioral targeting, plataformas self-service de anúncios, notícias e anúncios para terminais móveis, experiências de cobrança de conteúdos online e edições electrónicas para a nova geração de tablets a apresentarem novas razões de esperança para o sector.

O chamado behavioral targeting, que permite entregar publicidade dirigida aos utilizadores com base na informação recolhida através das suas acções online, está a provar ser um sucesso. Alguns grupos de media registaram aumentos anuais de 30 por cento nas suas receitas oriundas da publicidade em display. E para este ano a questão que se levanta, alerta o estudo, é verificar se o targeting pode ser mais lucrativo com um maior grau de segmentação e se a este se pode juntar anúncios com formatos mais apelativos para os utilizadores online que, habitualmente, ignoram os banners ou os “irritantes” drop screens. Como ameaça ao potencial deste negócio surgem os esforços dos defensores de políticas de privacidade que visam proteger de forma mais restrita a informação sobre os dados dos utilizadores e que defendem que em vez da actual regra de ‘opt out’, caso o utilizador receba publicidade dirigida, deveria ser implementada uma política de ‘opt in’, uma decisão que poderia ter um efeito negativo “numa das poucas crescentes fontes de receita da indústria”.

O ano passado também surgiram experiências com as chamadas plataformas self-service de anúncios, isto é, plataformas de anúncios que permitem a pequenos anunciantes comprar pacotes com taxas mais reduzidas sem a intermediação de um comercial. “Ainda é cedo, no entanto, para perceber se os anúncios funcionam suficientemente bem para atrair negócio contínuo de anunciantes como lavandarias a seco ou restaurantes”, além de que, chama a atenção o estudo, a concorrência para obter publicidade de pequenos negócios irá certamente aumentar.

2010 também é o ano onde se vai verificar se a ‘eterna esperança’ chamada internet móvel se vai ou não confirmar como uma fonte de receita para os media, através da publicidade e dos conteúdos. O ano passado o entusiasmo em torno desta plataforma aumentou exponencialmente graças ao iPhone da Apple, mas apesar do crescimento em termos de utilizadores, aplicações e conteúdos disponíveis para este terminal, “nenhuma destas actividades resultou numa fonte de receita sólida para os jornais”. Como melhor apresentar os conteúdos, bem como a colocação dos anúncios, são aspectos que ainda estão a ser trabalhados, restando ainda dúvidas sobre se a publicidade geo-referenciada irá cativar os comerciantes cautelosos em relação ao digital e se os media, além dos consumidores, poderão retirar daí algum benefício. Outra plataforma que está a gerar furor junto do sector é o iPad com a promessa de juntar o melhor dos dois mundos – papel e digital – mas provavelmente “será em meados de 2011, no melhor dos cenários, que os tablets terão um impacto significativo nas receitas”.

A resposta à questão ‘conteúdos pagos, sim ou não?’ é o tema que, certamente, irá marcar este ano. Depois do aceso debate ocorrido o ano passado, em pleno olho da crise, já em 2010 grupos de media anunciaram que vão avançar com formas de cobrança por conteúdos online nos seus sites, tendo o debate também se intensificado em relação aos chamados agregadores e se algum tipo de cobrança lhes deverá ser exigido pela utilização dos seus conteúdos. A ver vamos se as ‘ameaças’ de Rupert Murdoch (News Corporation) e de Tom Curley (Associated Press) de bloquear o acesso ao Google se irão concretizar… ou não.

– Tendências para 2010

• À medida que aprendemos mais sobre a economia da web e o comportamento do consumidor, a separação das notícias parece central para o futuro do jornalismo. Os consumidores já não procuram as organizações jornalísticas em busca da sua agenda total. Procuram as notícias por tópico, por evento, percorrendo diversas plataformas. Este facto está a mudar a cultura e as finanças das redacções. Quando as receitas estão cada vez mais ligadas a cada história, qual é o racional de assegurar a cobertura de uma área que tem um interesse limitado para os utilizadores?

• O futuro dos velhos e dos novos media está mais relacionado do que pensamos. A maioria dos sites exclusivamente online têm uma capacidade limitada de produzir conteúdo, sendo que a sua capacidade de evolução nesse campo está mais dependente de encontrarem um modelo financeiro que gere receitas maiores do que as actuais e que vá para além das oriundas por via da publicidade online. Alianças entre os velhos e os novos media poderão emergir, bem como a colaboração entre velhos media e os cidadãos, no que alguns denominam de ‘pro-am’ (profissional e amador), num novo modelo de produção de notícias.

• A noção de que os media noticiosos estão a diminuir é errada. O jornalismo de relato está a diminuir, mas o comentário e o aspecto de discussão e de análise de os media não, tanto no cabo, como na rádio, media sociais e noutros media, apesar dos números sugerirem que “os novos media são largamente preenchidos pelo debate alimentado pela base de jornalismo informativo que começa nos velhos media” (80 por cento dos links têm origem nos media tradicionais nos Estados Unidos). O único sector com audiências crescentes é o cabo, meio onde a fatia de leão do investimento é empregue na contratação de opinião. “Um dos resultados pode ser os números crescentes nas sondagens que dão conta que 71 por cento dos americanos sente que a maioria das fontes noticiosas são parciais na sua cobertura e que 70 por cento se sente mais esmagado do que informado pela quantidade de notícias e informação a que tem acesso”.

• A tecnologia está a transferir o poder para as fontes das notícias e a nova forma é através da sua capacidade de controlar o relato inicial dos acontecimentos. A tecnologia, pelo menos por agora, está a transferir mais recursos para uma lógica de breaking news. As redacções, cada vez mais diminutas, estão a pedir aos jornalistas que restam para se focarem no relato mais rápido dos acontecimentos e alimentar diferentes plataformas. “Estão a focar mais tempo na disseminação de informação e menos na sua recolha, tornando-os mais reactivos e menos proactivos. Está também a dar lugar ao fenómeno de que o relato na primeira pessoa das fontes de notícia – as suas conferências de imprensa e press releases – chegam ao grande público de uma forma menos escrutinada e por vezes quase textual”. O que desaparece é o relato suplementar, que poderia acrescentar mais factos e contexto aos acontecimentos.

• Os media tradicionais continuam a dominar as audiências online. Isto significa que o impacto dos cortes nos velhos media está reflectir-se no conhecimento que o público adquire através dos novos media. Nos Estados Unidos 80 por cento do tráfego para sites noticiosos está concentrado em 7 por cento dos sites. A maioria dos sites noticiosos mais visitados (67 por cento) está ligado aos media tradicionais, 13 por cento desses sites são agregadores de conteúdos oriundos dos media tradicionais. Apenas 14 por cento dos sites são operações exclusivamente online.

Fonte: State of the News Media 2010 – Pew Research Center – Project for Excellence in Journalism

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