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Edição Impressa

Especial Angola – A caminho de Angola

23 de Abril de 2010 às 11:41:38, por Pedro Durães

Angola continua a exercer o seu poder de atracção sobre os grupos de media nacionais. O mais recente pólo dinamizador chama-se Zap TV. A operação de televisão por subscrição por satélite que arrancou a 29 de Março é, aliás, prova dessa aproximação entre playesr nacionais e operadores angolanos ou não fosse o projecto resultante de uma joint-venture da Zon Multimédia (30 por cento) e da Finstar (70 por cento), esta última controlada por Isabel dos Santos. A empresária, de resto, pagou em Dezembro 164 milhões de euros pela aquisição de uma participação de 10 por cento da proprietária da Zon TV Cabo, posicionando a Kento Holding Limited como uma das principais accionistas da operadora. As participações cruzadas ajudaram a aproximar os dois mercados, passando a Zap a apresentar para este território canais exclusivos da Zon TV Cabo, como os TV Cine, ou os detidos pela joint-venture Dreamia (entre a Zon e a Chello Multicanal) – Hollywood, Panda, Panda Biggs e Mov – , bem como os da Sport TV. Mais recentemente foi também conhecida a inclusão em grelha do TVI 24, da SIC Notícias e dos canais temáticos SIC Mulher e SIC K. “As opções em língua portuguesa para o mercado angolano são as mais adequadas. Por outro lado, contar com parceiros como a TVI e a SIC, sendo que dos quatro canais referidos, três deles são novidade no mercado angolano, parece-nos uma boa aposta”, justifica em declarações ao M&P Nuno Aguiar, administrador executivo da Zap TV. Já do ponto de vista da estação de Queluz esta iniciativa representa um “primeiro passo da TVI no continente africano a que se seguirão outros no futuro próximo”, justificou em comunicado. Um futuro próximo que deverá passar pelo TVI Internacional, canal que a estação se prepara para lançar até Junho, como já admitiu Luís Cunha Velho, director coordenador de programas da TVI.

Com a internacionalização dos canais temáticos SIC Mulher e SIC K, também a Impresa viu crescer a sua presença em Angola, país onde a SIC Internacional transmite desde Julho de 2000 através do operador sul-africano Multichoice e desde 2003 com a SIC Notícias. Se o canal que se segue na internacionalização é a SIC Radical não foi possível averiguar, já que sobre os planos para este mercado, no que ao sector de televisão diz respeito, o grupo Impresa não adiantou mais detalhe, nem se estariam a preparar canais específicos para este mercado. O mesmo não foi possível saber junto da TVI já que até ao fecho desta edição a estação não respondeu às perguntas endereçadas pelo M&P. O responsável da Zap TV é cauteloso neste assunto. Quando questionado sobre se nos planos da operadora estaria a aposta em canais próprios e se, nesse sentido, estariam a negociar com operadores portugueses, Nuno Aguiar responde: “A opção de apostar em canais próprios não é uma prioridade, mas é algo que deve ser equacionado quando não existem opções no mercado para temáticas específicas. Neste momento estamos a avaliar a situação.” Com ou sem canais próprios os objectivos da operadora são claros: “Pretendemos atingir a meta dos 100 mil clientes o mais breve possível. Esperamos que seja em menos de um ano, mas vai depender da forma como o mercado responder às nossas propostas”, afirma o administrador executivo.

Entre as novas iniciativas e os balanços

Se 2010 tem sido o ano da televisão, 2009 foi o dos projectos de imprensa. Foi o ano da “parceria de conteúdos” entre a Económica e os angolanos da Score Media, grupo onde Rafael Mora, vice-presidente da Ongoing, é também administrador, sendo que este ano o grupo reforçou os laços através do “protocolo de cooperação” estabelecido em Fevereiro com o Media Nova, grupo com activos na área de imprensa (O País, Vida, Exame Angola, Semanário Económico), impressão (Damer), distribuição (Media Nova Distribuidora), rádio (Rádio Mais) e televisão (TV Zimbo). O protocolo, de acordo com o comunicado emitido na época, passa pelo desenvolvimento de “projectos de produção e distribuição de informação e entretenimento de qualidade em língua portuguesa, com especial foco no mercado de televisão”, bem como pelo “estudo e avaliação de oportunidades de negócio” que possam ser desenvolvidas pelos dois grupos “tanto em Angola como em Portugal, mas também em mercados terceiros”. “Uma parceria é, por princípio, uma aproximação de vontades. Nestas circunstâncias, o acordo assinado hoje expressa o desejo dos dois grupos de crescer em conjunto, não se limitando as suas ambições às fronteiras geográficas de Portugal e Angola”, afirmou na altura José Eduardo Moniz, vice-presidente da Ongoing Media, citado em comunicado. “Este acordo abre caminho ao desenvolvimento de uma parceria sem preconceitos entre os dois grupos. E identificámos já projectos a desenvolver a curto prazo nas áreas da permuta de produtos, da formação e do apoio técnico”, disse João Van Dunem, o actual director-geral da Media Nova. Que projectos ao certo ainda está por definir, tendo para o efeito sido criado um grupo de trabalho entre os dois grupos, segundo explicou fonte oficial da Ongoing ao M&P.

Angola passa também pela estratégia do grupo em termos de conferências, como admite Miguel Coutinho, director de new business da Ongoing Media. “Vamos apostar em grandes conferências internacionais. O objectivo do grupo Ongoing é assumir-se como uma referência no mundo da lusofonia e, por isso, iremos reunir decisores e empresas que falam português em grandes eventos que vão acontecer em Portugal, no Brasil, em Angola e em Moçambique”, diz o responsável, embora sem adiantar mais pormenores. Mas fruto dessa aposta, esta semana o Diário Económico, em parceria com a firma de advogados Legal Council Firm, organiza uma conferência com Marcelo Rebelo de Sousa sobre a nova constituição angolana, adianta fonte oficial do grupo. A conferência é patrocinada pela Singular.

A “correr bastante bem” é como José António Saraiva, director do Sol, classifica a operação no mercado angolano, território onde o semanário está presente com uma edição e uma delegação local de nove elementos liderada por Luís Costa Branco. O título, com capitais da angolana News Hold, coloca neste território semanalmente entre “2 mil a 2.500 exemplares, entre ofertas, assinaturas e vendas em banca” e “praticamente não tem sobras, embora não esconda que parte importante são ofertas”, refere José António Saraiva. O jornal, explica o responsável editorial, está a desenvolver uma acção de marketing que passa pela oferta “durante dois meses” de jornais junto a centros de decisão e empresas, sendo que as vendas do jornal se situam em “cerca de mil” exemplares. Para acompanhar a edição de Angola, o semanário prepara-se para em Maio distribuir a revista Mandos, um misto em termos de formato do suplemento Essencial e da revista Tabu, cuja designação é uma “palavra especificamente angolana” que quer dizer “coisas, histórias”. O título visa dar resposta a uma “lacuna” que, sentiam, era levada em consideração pelo mercado de anunciantes daquele país, nomeadamente, a edição não apresentar tantos conteúdos relativos a Angola quanto seria desejável pelos anunciantes locais. Com vista a uma maior ‘angolização’ dos conteúdos da edição do Sol para este país lusófono, adianta José António Saraiva, o primeiro caderno do jornal também vai ser enriquecido com conteúdos locais, informação sobre o país, mas também dos portugueses “que lá estão e são mais de 100 mil”. Datas para uma impressão da edição em Angola é que ainda não as há. “Continuamos a desenvolver contactos. É uma necessidade que cada vez faz mais sentido para nós”, diz Saraiva. Então porquê este atraso, questionamos. “As oportunidades de negócio ainda se colocam atrás da concorrência”, afirma. “Na questão da distribuição estamos a avançar com a possibilidade de uma distribuição nossa, pois é muito difícil lá por questões de concorrência com os outros grupos”, lamenta o director do Sol.

A fragilidade do sistema de distribuição é também um aspecto referido por Vítor Serpa. O director de A Bola tem, desde Março do ano passado, uma edição em Angola, editada pela Só Bola – que reúne interesses angolanos, entre os quais Álvaro Torre, antigo CEO da Media Nova – entidade responsável pela comercialização, publicidade e distribuição do jornal. O desportivo, descreve Serpa, tem vindo a implementar-se em Luanda, mas admite não ter “conseguido regularizar a distribuição a outras províncias de Angola”. Situação que o responsável editorial espera ver resolvida, já que, afirma, “estão a ser desenvolvidos esforços para aumentar um número significativo de pontos de venda fixos”, uma vez que a distribuição no país ainda é feita muito à base dos ardinas. Apesar disso, Vítor Serpa faz um balanço “bastante positivo” da entrada de A Bola em Angola. O jornal, diz, durante o Campeonato Africano das Nações em Futebol (CAN) vendeu “à volta dos 10 mil exemplares. Depois desceu um pouco em relação a esse período, para uma média de 5 mil exemplares em Luanda”. Números que não desiludem o responsável que, assegura, que a editora partiu para a edição de Angola com “paciência para consolidar o projecto”. “Luanda começa a ser uma das cidades mais importantes para A Bola no mundo em termos de vendas. Dentro de pouco tempo acredito que irá ser a terceira ou quarta cidade em termos de importância de vendas”, defende.

Na Impresa a área de imprensa não parece ser uma aposta imediata. O grupo, que já foi parceiro no lançamento da Caras Angola, funciona agora neste media apenas como fornecedor de conteúdos para esta revista de sociedade, e para este território na área de imprensa diz apenas continuar “como sempre, atento à evolução dos mercados de língua portuguesa e, existindo uma boa oportunidade, no contexto adequado, estudará a respectiva possibilidade”. Mas definitivamente, Angola está nos planos do grupo de Francisco Pinto Balsemão no que se refere à internacionalização do braço digital do grupo, mais em concreto da DGSM. A empresa fornece serviços de entretenimento e internet na área do turismo (video-on-demand, canais corporativos, soluções para marketing e grandes eventos, entre outros) e encerrou o ano passado com 12.350 quartos em 56 hotéis. Em Janeiro entrou em Inglaterra e, adianta fonte oficial do grupo, “a expansão que estamos a prever conta com países como Angola”.

Estudar o país

O actual “bom momento em Angola, com um desenvolvimento económico muito grande” e “onde actuam muitas empresas portuguesas”, o “factor língua”, o facto “de ser um país onde a internet vai crescer”, sendo importante “ter uma vantagem competitiva em termos de painéis online de opinião” foram as razões que, segundo Salvador Patrício Gouveia, motivaram em finais de Março a Netsonda a anunciar a criação de um painel para Angola, Cabo Verde e Moçambique. O painel, explica ao M&P o partner da empresa de estudos de mercado, está ainda “na fase de montagem”, mas apesar disso “estamos já a desenvolver alguns projectos a nível de estudos de mercado online”, através de “agências que têm presença por lá”, escusando-se a revelar quais. “Até o mercado português tem reagido bem”, diz, embora não avance objectivos de conquista de mercado.

Há quatros anos no mercado está a Marktest, já contando com uma equipa de 15 elementos. A criação de um Media Center era um dos projectos para 2009, com vista à monitorização de mais canais de televisão e do meio rádio. A implementação do centro, afiança Jorge Fonseca Ferreira, “tem evoluído razoavelmente”, apesar de, ressalva, “ainda não estarem a ser estudados todos os meios, ou seja, neste momento o PubliTv inclui já os principais canais de televisão: TPA1, TPA2, TV Zimbo, Record, Globo e SIC Internacional”. O estudo de rádio, o PubliRádio, ainda não arrancou “por razões de estratégia interna da Marktest Angola e por o mercado ainda não solicitar essa informação”, tendo-se dado “prioridade à monitorização dos outdoors”, cujo estudo, o PubliExt, começou o ano passado. “O PubliRádio não tem uma data prevista, mas mantém-se nos objectivos imediatos”, diz o CEO da Marktest Portugal.

O ano passado, além do estudo All Media & Products Study (AMPS) em Luanda e Benguela – “um estudo de referência do mercado, quer ao nível de informação sobre audiências de meios (TV, rádio, imprensa), quer ao nível do conhecimento da população da grande Luanda e Benguela, em termos de consumo de produtos, comportamentos e estilos de vida” – a empresa realizou um AMPS – ABC, “de forma a estudar com mais profundidade estes importantes estratos que têm consumos e comportamentos diferenciados do resto da população, dado o seu mais elevado poder de compra”.

Para 2010 a Marktest Angola, que também realiza estudos ad-hoc, tem nos planos “avaliar com o mercado o desenvolvimento de estudos regulares na área da banca, telecomunicações e media, que permitam acompanhar mais regularmente estes mercados com informação útil e indispensável para o desenvolvimento da estratégia das marcas no mercado angolano”, revela Jorge Fonseca Ferreira. “Em consequência disso, será necessário e indispensável continuar com o alargamento da equipa técnica e novos desenvolvimentos tecnológicos que permitam responder a esses e a todos os restantes desafios”, diz.

Consumo de media

- 55 por cento dos residentes na grande Luanda com 15 e mais anos costuma ler ou folhear jornais e/ou revistas. O Jornal de Angola é o mais lido, seguido pelo Jornal dos Desportos.

- 94 por cento do universo em análise costuma ver televisão, sendo a TPA2 o canal mais visto, por 82,8 por cento dos residentes na grande Luanda. A TPA1 obtém 80 por cento de audiência total e a TV Zimbo 68,5 por cento.

Fonte: AMPS – All Media & Products Study – Dados relativos a 2009