“Vamos comprar pipocas e passar a tarde a ver os trabalhos da Comissão de Ética, Sociedade e Cultura sobre a liberdade de expressão…” A sugestão em abstracto parece um disparate, mas poucos formatos televisivos conseguem uma articulação tão perfeita entre comédia, drama, suspense e até terror como aquilo a que se tem assistido nas últimas semanas. Os deputados oscilam entre uma gritante falta de preparação e a apresentação de um leque tão exaustivo de factos e datas que mais do que colocar questões parecem estar a defender uma tese. Por seu turno as respostas dadas pelos inúmeros profissionais que já passaram pela comissão são arrepiantes, desde a t-shirt mostrada logo no início por Mário Crespo, ao distanciamento em relação à compra da Media Capital de Henrique Granadeiro (que acusou Morais Sarmento, enquanto ministro com a tutela da Comunicação Social, de lhe ter exigido, a demissão do director do 24 Horas, da Grande Reportagem e do Jornal de Notícias, títulos da Lusomundo Media, empresa à qual presidia) passando pela explicação dada por Zeinal Bava para a participação de Rui Pedro Soares nas negociações para a compra da Media Capital: “Era a pessoa que estava à mão”. Se esta comissão fosse só um programa da televisão, um dos pontos altos da semana tinha sido a audição a José Eduardo Moniz, que durante cerca de três horas basicamente explicou que nos últimos 10 anos sempre foi visto pelas administrações da Media Capital como uma espécie de mal necessário, com os administradores a aproveitarem as suas ausências para tomarem decisões, Moniz a fingir que não percebia que pretendiam alterar a linha editorial ou, já na recta final, as confidências que o CEO da empresa lhe fazia após as reuniões com a Prisa. Se tudo isto fosse ficção, até tinha piada.
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