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Opinião :: Cronistas

O pequeno mundo do Cabo

12 de Fevereiro de 2010 às 05:34:02, por Meios & Publicidade

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Pedro Boucherie Mendes – director de canais temáticos SIC

Qual é a diferença entre a SIC Radical e o Fox Life? Há muitas certamente, mas uma é especialmente relevante: o primeiro é um canal de televisão português sujeito à legislação portuguesa. O outro é um canal distribuído em Portugal, mas que não está obrigado a cumprir a nossa lei da televisão. Têm quadros competitivos completamente diferentes portanto.

Por estar sujeita à Lei da televisão da República, a SIC Radical gasta muito dinheiro a fazer um programa diário como o Curto Circuito. Comprar programas na América é mais barato, dá menos trabalho e normalmente mais audiências.

Por seu lado, o Fox Life só tem de se preocupar em mandar legendar as cassetes porque não está obrigado a ter programação nacional, de produção local e própria ou de encomenda a produtores independentes (tudo isto está previsto na lei que regula a Radical).

O Fox Life nem sequer tem de programar uma determinada percentagem de obras de origem europeia, como a Radical tem de fazer. Mais: por lei, o Fox Life nem sequer é obrigado a legendar os seus programas!

Para deixar claro, não me move nada nem contra o Fox Life nem contra o legislador. Chamo apenas a atenção para esta estranha forma de vida. Seria como se um restaurante de fast food português fosse obrigado a ter como única oferta em determinados dias pataniscas e iscas servidas com capilé, enquanto que na porta do McDonald’s havia hambúrgueres e batatas fritas todos os dias.

Esta contingência é um problema para a SIC Radical porque qualquer canal de Cabo não tem orçamento para fazer programação nacional que não seja low cost. Mas a SIC Radical e a SIC Mulher cumprem um papel importante sem que se faça alarde disso. Ao longo destes quase dez anos, os dois canais gastaram dezenas de milhões de euros no mercado português de televisão, lançaram projectos, ideias e caras e produziram programas que fazem parte da história da televisão em Portugal. O exemplo mais claro é o Gato Fedorento. Por seu lado, o Fox Life ajudou à subida de vendas dos kleenex, tantas são as repetições da Anatomia de Grey. Não é mau, mas não aporta grande criatividade ou robustez a esta indústria.

Estes dois canais da SIC são os únicos da televisão portuguesa que apostam em ficção e humor alternativos ou em magazines ao estilo internacional como o Querido Mudei a Casa. Estimulam a criatividade e contribuem para a diversidade da oferta. Além de tudo, criam empregos e riqueza para o país. E como bónus revelam outros programas que de outra forma não seriam vistos ou conhecidos por cá, como os de Oprah ou Jamie Oliver, ou Conan O’Brien e South Park, ou o Daily Show e o Project Runnway, etc, etc. Os outros canais de cabo nacionais ou são de notícias ou são de desporto, pelo que só a Radical, a Mulher (e agora a SIC K) é que são forçados pela sua natureza e pela lei a produzir televisão original de ficção ou entretenimento, feita localmente para competir com produto americano de topo no canal ao lado. É assim que se vive neste particular pequeno mundo do Cabo, como lhe chamam alguns colegas meus, que não fazem ideia do que falam.

O exemplo de como a falta de concorrência impede o crescimento do mercado e melhoria na oferta. Sim, porque nenhuma lei impede que haja uma TVI Radical ou uma RTP Mulher.