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Artigos de Fundo

O maravilhoso mundo das plataformas

5 de Fevereiro de 2010 às 05:02:11, por Ana Marcela

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Com o deslizar de um dedo fazemos scroll lateral de páginas, ampliamos imagens, temos acesso a álbuns de fotografias com o mesmo tema. Podemos enviar artigos ou imagens a amigos e ver anúncios em vídeo. Tudo isto a cores. A descrição pode ser digna de figurar em filmes como Relatório Minoritário mas é desta forma que a Time Inc. e a Wonderfactory olham para o futuro das publicações proporcionado por novos terminais, como se pode ver na antecipação que fizeram do que seria a Sports Illustrated do amanhã. Esta semana os olhos dos grupos de media a nível mundial centraram-se no Ipad, o novo tablet da Apple revelado esta quarta-feira, apontado como a grande promessa para a oferta massificada de produtos editoriais nas plataformas móveis. Se a promessa se irá ou não cumprir ainda é cedo para avaliar, mas o certo é que mesmo em Portugal as possibilidades trazidas pelas novas plataformas como os e-readers ou os tablets estão a ser seguidas com atenção. No Público o futuro pode chamar-se Kindle. O jornal da Sonaecom vai ter “muito em breve” uma edição para o terminal da Amazon. Ainda em “período experimental”, a edição, explica ao M&P Pedro Nunes Pedro, vai permitir aos leitores do jornal receber diariamente os destaques, textos e artigos de opinião.

Uma entrada do jornal neste tipo de plataforma – a primeira de um grupo de media português – que, diz, mais do que uma forma imediata de gerar receita é uma maneira de marcar a posição do Público como marca de informação.

“Neste momento achamos que é interessante [marcar presença no Kindle]. Nesta fase, não vamos estar centrados tanto na questão [do negócio]“, afirma Pedro Nunes Pedro, quando questionado sobre o modelo de negócio com a Amazon, loja de comércio online que, de acordo com testemunhos de grupos de media que já estão presentes nesta plataforma, reserva para si a grande fatia da receita gerada. “Vamos avaliar. O contrato tem a duração de um ano”, acrescenta.

O reforço do Público como marca de informação passa igualmente pela renovação das assinaturas digitais do jornal, através de uma parceria com a Newspaper Direct – empresa responsável pelas edições digitais de títulos com o The Guardian, Finantial Times, Washington Post ou o Le Monde -, ou por uma nova versão do jornal para o iPhone (a primeira versão foi lançada em 2008), através de uma aliança com a Vodafone e a Optimus “em fase de testes na Apple Store”, adianta o administrador da Público S.A. A versão irá disponibilizar toda a informação de última hora do Público, permitindo novos formatos de visualização da informação, partilha do conteúdo (e-mail, Twitter ou Facebook), arquivo dos conteúdos favoritos do leitor e possibilidade de utilização offline, com sincronização online prévia e consulta dos conteúdos offline a posteriori. Com estes dois operadores, o jornal estabeleceu “uma cedência de conteúdos e há depois um fee que pagam”, mas no futuro o modelo de negócio, admite, poderá evoluir para uma partilha de receita. “A quantidade de tráfego ainda é embrionária e ainda estamos todos a testar modelos. A única coisa que sabemos é que o paradigma está a mudar”.

O impacto no design

Uma constatação que faz eco junto dos profissionais ouvidos pelo M&P e que terá reflexo na forma como os conteúdos editoriais poderão ser apresentados aos leitores, influenciando a própria abordagem em termos de design. “A revolução já está em curso”, considera Vasco Ferreira, director de arte da Visão. “Os e-readers, e agora os tablets, vão permitir a agregação, numa só plataforma, de texto, fotografia, vídeo, ilustração, infografia com o extra, importantíssimo, da portabilidade. A qualidade de imagem dos tablets, muitíssimo superior à dos e-readers existentes, levará o consumo de informação e entretenimento para outra dimensão, ainda mais entusiasmante”, acredita o responsável. Ponto de vista igualmente sustentado por Marco Grieco. “A evolução para estes formatos é algo inevitável para as publicações actuais que querem sobreviver às novas demandas tecnológicas e de mercado”, diz o director de arte do Expresso. “Os e-readers ou o acesso à informação através dos telemóveis de terceira geração são uma realidade à qual não podemos fechar os olhos. Vejo tais movimentos – e investimentos – como o florescer de todo um novo mundo de possibilidades e oportunidades”, diz. “Os trabalhos desenvolvidos para as futuras versões digitais da Sports Illustrated, no caso do Grupo Time Inc., e da The Wired, da Condé Nast, abrem perspectivas aliciantes tanto para quem consome a informação como para quem a produz”, comenta. Mas, ressalva o responsável de arte do semanário da Impresa Publishing, “numa análise realista a curto e médio prazo, ambos dependem claramente de uma evolução dos próprios meios electrónicos, que ainda não possuem os padrões exigidos de definição, cor e sensibilidade”.

Talvez por isso, quando confrontado com a pergunta ‘Serão estas novas plataformas a nova revolução dos media?’, Nick Mrozowski, director criativo do I, responda: “Não sei.” Tudo depende da forma como o utilizador reagir à experiência de utilização proposta por estas novas plataformas, mas pelos exemplos conhecidos, o director criativo do diário da Lena Comunicação acredita que é “uma forma muito interessante” de misturar funcionalidades das edições em papel e online, já que “têm o sentido de toque das edições em papel” e funcionalidades disponíveis apenas online. Contudo, Nick Mrozowski não acredita que o trabalho do designer mude assim tanto, na medida em que, independentemente da plataforma, a preocupação de quem cria desenhos de projectos editoriais “leva em consideração a forma como os utilizadores interagem”. “Os princípios básicos do design não mudam: usabilidade, clareza, interacção aplicam-se em qualquer lado”, diz.

“Os designers de publicações têm hoje de se reinventar como designers de marcas de media. Não basta pensar só na publicação impressa”, defende Vasco Ferreira. “Temos de aumentar as nossas competências para levar em todas as plataformas a experiência da marca ao consumidor. São os designers que asseguram a consistência visual das marcas de media e o fundamental impacto que o consumidor de informação tem quando entra em contacto com uma marca de media. Informação e design têm que estar ligados e proporcionar uma experiência consistente ao consumidor, seja no papel, no mobile, em livro ou no tablet”, clarifica o director de arte da Visão.

Mas que tipo de design e look & feel podemos esperar destas publicações? “É expectável que tenham o mesmo ‘look and feel’, mas seria limitativo tentar reproduzir apenas aquilo que vemos nas versões impressas”, diz, por seu turno, Marco Grieco. “De certa forma, o design específico para terminais como tablets ou e-readers vai ter que ser ainda menos intrusivo, deixando o centro das atenções para as imagens e o conteúdo propriamente dito”, diz “Estes novos terminais abrem toda uma panóplia de opções para os leitores, para os jornalistas e para os anunciantes”, afirma. “Perde-se o prazer de sentir e folhear o papel, mas ganha-se uma maior interacção entre as diversas componentes do processo e uma dinâmica que é de todo impossível nas publicações impressas. A portabilidade é outra das vantagens, bem como a sua conectividade contínua – desde que o usuário esteja disposto a pagar por isso. Por outro lado, para os mais conservadores ou pouco afeitos às ‘modernices’, a leitura de um jornal ou revista num ecrã de dimensões limitadas pode ser pouco confortável”, sintetiza Marco Grieco.

Contudo, para este profissional, nem todos os jornais ou revistas são adequados as estas novas plataformas.

“Prevejo maior aptidão para o jornalismo opinativo e de investigação de qualidade e para publicações de nicho muito específico, que poderão beneficiar, por um lado, de publicidades interactivas, e por outro de assinaturas”, preconiza.

Mas será que esta abordagem tentada em mercados como os Estados Unidos em grupos como a Time Inc., Condé Nast ou o sueco Bonnier fará escola no mercado português? Sim, acredita Vasco Ferreira. Após terem sido “testadas em mercados mais desenvolvidos, creio que as melhores práticas e modelos serão adoptados. A internet ensinou-nos a não avançar por avançar”. E irá avançar na Impresa Publishing? A empresa, diz o director de arte da Visão, “segue atentamente este fenómeno”. No I, o tema também é seguido, admite Nick Mrozowski, mas em relação do sucesso de novas plataformas como tablets, o director criativo chama a atenção para a questão dos conteúdos. As plataformas, acredita, “só serão bem sucedidas, dependendo do tipo de conteúdo que está disponível. Se têm falta de conteúdo…”.

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