
Diogo Mello – director criativo executivo da Fischer Portugal
Só agora escrevo sobre este assunto, porque só passado todo este tempo tive conhecimento do mesmo. Com a vida na velocidade que anda já é difícil estar a par das notícias importantes que dirá das outras, como esta, que são só passatempo. Estas, quando são boas, normalmente chegam-me por e-mail de um amigo ou por fazerem sucesso na net… Mas como esta também não é nem boa, nem inteligente, nem teve qualquer repercussão, acabou por só chegar a mim por acaso e porque cita a empresa da qual sou director.
Falo sobre um artigo de opinião (Brasil 3 – Portugal 0) publicado aqui no dia 30 de Outubro e escrito pelo Ricardo Monteiro, presidente da EuroRSCG, em que fala do que (em sua opinião) está “desesperadamente errado (no mercado)” que são as “incursões de agências brasileiras em Portugal”. E a estas “agências”, na qual incluiu a Fischer, atribuiu de forma deselegante adjectivos como “oportunistas, ignorantes e retro-colonialistas”. E finalizou o seu discurso (este sim, provinciano com certeza) a dizer que estas empresas “iludem (os clientes portugueses) com promessas vãs, visões românticas embora não comercias (…) do que deve ser a boa publicidade” Ora, não tendo sido ele o primeiro a dizer este tipo de besteira em público nos jornais do nosso meio penso que este tema já se torna digno de alguma atenção.
Em primeiro lugar, aproveito o case citado por ele da Sagres – que lembre-se, trocou a EuroRSCG pela Fischer há dois anos e hoje é líder de mercado depois de 22 anos a ocupar a segunda posição – para tirarmos logo da frente a ideia infundada de que somos ignorantes em relação ao mercado e ao consumidor português, já que mais do que as palavras, os números estão aí e a qualidade do trabalho na rua fala por si. Poderíamos já mudar de assunto, mas (sim, só por satisfação pessoal) acrescento também que a actual campanha da Liga Sagres. “Entra em Campo”, concebida e implementada desde a sua raíz pela Fischer (Comunicação Total®), não poderia ser mais popular e já quebrou todos os recordes de eficácia da história da marca e ainda vai só na metade, o que é giro.
Soma-se à Sagres outros clientes líderes nos seus segmentos, de igual importância e dimensão e, como bem disse o Ricardo (ora lá está), “ícones nacionais”, como é o caso dos CTT, da TMN, da UZO, e de tantos outros que trabalham connosco e que certamente terão ficado bastante ofendidos (se algum deles por acaso teve acesso a este texto) pela opinião do Ricardo de que seriam incapazes de perceber, se fosse o caso, que estão a ser “iludidos com promessas vãs”.
Com esta questão esclarecida, é preciso reparar que a Fischer, que está presente em diversos países, e em Portugal há mais de três anos, é tão brasileira quanto a EuroRSCG, a TBWA ou a Publicis são francesas ou a BBDO, a Y&R, a DDB são americanas e por aí fora. Mas o que é espantoso é estar-se a falar da nacionalidade das empresas quando isto não poderia ser menos relevante e todas as “agências” que têm algum valor tanto fazem boa quanto má publicidade, sendo que isto nada tem a ver com o seu país de origem. Aliás, é curioso ver como as opiniões mudam rapidamente, já que o Pedro Graça, CEO da própria EuroRSCG, escreveu muito bem a respeito disto em resposta a outro artigo infeliz publicado aqui sobre “as agências portuguesas vs as não-portuguesas” quando a EuroRSCG estava entre as “atacadas”.
Mas, indo ao ponto que interessa… A minha pergunta é: com tantas, mas tantas outras questões realmente importantes e estas sim de facto “desesperadamente erradas” neste nosso mercado, como por exemplo a desunião do sector, as práticas abusivas a que são submetidas as agências, a forma como são conduzidos alguns concursos, a falta de perspectivas de melhoria no curto prazo ou o “dumping” de mercado praticado por “algumas agências” com reduções impraticáveis dos fees e tantas outras, porque é que não se aproveita o tempo disponível para opinar sobre estas questões? Sem dúvida seria mais benéfico para todos nós.
É deste tipo de artigos que este mercado tanto carece e que a opinião de alguém como o Ricardo Monteiro seria bem-vinda.
Parece-me que ao escrever um texto em que chama explicitamente de oportunistas as “agências brasileiras”, o Ricardo é que agiu como um oportunista, já que pegou boleia em escassos casos polémicos (e diga-se, únicos) envolvendo brasileiros para tentar derrubar concorrentes que se calhar têm vindo a tirar-lhe o sono (e já agora também um cliente ou outro).
Como o próprio Ricardo escreveu, eu também lhe digo: “Desculpe qualquer coisinha”. E cá entre nós, não faça isto assim… Como a Nike já uma vez aconselhou ao mundo em bom português (daqui ou do Brasil, não interessa): Joga Bonito.