
Miguel Gaspar – director-adjunto do Público
Falar do que mudou no universo das redacções nos últimos dez anos é o mesmo que falar nas alterações introduzidas pela internet. Encontramo-nos perante um enorme desafio cuja solução ainda não descobrimos. E a velocidade a que as coisas acontecem no universo da web faz com que seja ainda mais difícil encontrar as respostas de que precisamos para garantir a sobrevivência do jornalismo.
Há cerca de dez anos, vivia-se a “bolha” da internet. Os grupos de comunicação portugueses seguiram a onda e investiram em redacções online. Depois, a “bolha” explodiu e o entusiasmo retraiu-se. O investimento das empresas no novo media estagnou quando as coisas ainda mal tinham começado. As coisas não mudaram muito desde então. No plano económico, o sector dos media nunca regressou à euforia dos anos 1990 e percorreu toda a década na defensiva, com os jornais a perder leitores e as televisões e rádios generalistas a perderem audiência.
A internet não esperou. A blogosfera, as redes sociais, os sites de partilha de imagens e os telemóveis ligados à web mudaram por completo o modelo de comunicação das nossas sociedades. Nos anos 1990, já era possível compreender como a internet, enquanto meio interactivo, aberto à participação de todos, ameaçava o papel dos meios de comunicação de massas, que deixavam de ser os detentores únicos da mensagem. A forma como as coisas aconteceram depois ultrapassou todas as expectativas.
Hoje, as notícias, as imagens e as opiniões andam mais depressa e chegam mais longe através de inúmeras plataformas. Os sites noticiosos através dos quais as organizações de media estão presentes na web são apenas uma parcela dessa rede em permanente mutação. Quando todos produzem e trocam informação à escala planetária, o jornalista deixa de ser considerado indispensável.
Para além da mudança de paradigma comunicacional, há o problema económico. A publicidade cresce exponencialmente na internet, mas não o suficiente para compensar as quebras das plataformas offline. Como tornar a internet rentável é hoje em dia a pergunta de um milhão de dólares. Sobretudo quando a notícia é cada vez mais um bem ao qual é possível ter acesso gratuitamente.
O que está em crise é também a ideia clássica do media generalista. Nestes dez anos, a fragmentação dos públicos sobrepôs-se à uniformização, como é bem sabido nas redacções das televisões e dos jornais. A resposta a uma parte dos nossos problemas parte desta constatação.
Nos media, tal como em outras indústrias, a tecnologia não é um valor em si. Depende do uso que os públicos lhe dão e da forma como esse uso pode ser rentabilizado, para garantir a sua sustentabilidade económica. No caso do jornalismo, esta sustentabilidade é condição sine qua non da independência.
Veja-se o que acontece, por exemplo, no mundo dos transportes. O avião, em tempos um meio de transporte caro, tornou-se acessível a todos através das companhias low cost. E o navio de passageiros, em tempos o meio de transporte “generalista” até ser destronado pelo avião, sobrevive hoje por causa dos cruzeiros. E nunca se construíram paquetes tão grandes como acontece agora que eles já não bem um meio de transporte.
A resposta, portanto, está na especialização. No caso da imprensa de referência, isso significa investir nas mais-valias informativas – aprofundamento, investigação, qualidade – de forma a ir ao encontro das expectativas dos públicos mais exigentes. Esse é o modelo que permitirá, ao mesmo tempo, valorizar o papel e o online.
E o caminho de saída para a crise permanente em que vivemos ao longo da última década.