
Meios & Publicidade (M&P): O pagamento dos conteúdos online e o mobile foi transversal no congresso WAN-IFRA. Os editores estão cientes da sua importância?
Timothy Balding (TB): Uma discussão séria deste tema começou há cerca de nove meses. Os jornais não podem continuar assim, não estão a fazer suficientes receitas com os seus conteúdos online e não obtém a publicidade online que necessitam para financiar o jornalismo. É a questão número um que a indústria enfrenta neste momento.
M&P: E irá passar-se para a fase de decisão? Não há um consenso…
TB: Não poderá haver um consenso. É uma decisão que depende de cada negócio. A News Corp., a empresa liderada por Rupert Murdoch, decidiu que vai começar a cobrar por conteúdos a partir de Junho, portanto vai haver decisões.
O problema é que ninguém sabe como cobrar, o que cobrar, e quais os efeitos que poderá ter.
M&P: A Innovation defendeu uma revolução baseada em conteúdos e não em plataformas. O sector está preparado para essa mudança?
TB: Os profissionais de media são muito conservadores na sua abordagem à mudança e à inovação. Sempre disse que a internet era a melhor coisa que podia acontecer aos jornais no sentido que os abanou de uma certa inércia.
Antes quase que davam as notícias aos leitores a partir de um templo e não tinham muita interacção, com o online os leitores esperam ter uma palavra, e os media foram forçados à mudança, talvez ainda não o tenham feito o suficiente. Em Portugal aconteceu o que penso ser um caso extraordinário, o I, um jornal pós-internet. Nunca ninguém inovou tão radicalmente como este jornal e estamos a observá-lo com muita atenção. Falei com uma série de pessoas que consideram que é uma experiência fascinante num novo tipo de jornalismo, de organização de conteúdos.
M&P: Que outras tendências considera que se vão impor em termos de diversificação de receitas?
TB: Se soubesse fazia uma fortuna. Tornou-se claro que não vamos obter receita suficiente da publicidade online para pagar o jornalismo online ou para compensar perdas de receita de publicidade das edições em papel. Não o era há um ano. Pensavam que isto era o Shangrilá, o que levou muitos jornais, se não a abandonar, pelo menos a desinvestir nas suas edições em papel, porque pensaram que era tão mais simples fazer jornais online – podemos cortar dramaticamente os custos de produção – pensando que com o tempo iriam ser pagos pela publicidade digital.
O número de websites à procura de publicidade triplica anualmente e, num bom ano, a publicidade digital só aumenta 10 a 15 por cento, até as taxas de crescimento estão a diminuir. A concorrência pela publicidade digital é infindável, portanto, como é que os jornais podem vir a ter uma fatia disso? Vão ter uma fatia, mas não penso que seja muito significativa. Outra questão é que o preço da publicidade online foi tão empurrado para baixo, porque há muita oferta de plataformas. Os jornais vão ter de funcionar com orçamentos mais pequenos e vão ter de ser mais diversificados em termos de fontes de receita,. Têm de diversificar porque as receitas da edição em papel vão diminuir, a não ser que estejam preparados para cobrar mais e alguns jornais têm feito isso. A questão que se coloca é: podemos cobrar por conteúdos online? Não sei.
Não sou um grande defensor dos micro-pagamentos, mas penso que, em certos mercados onde há uma fidelidade à edição em papel, poderemos cobrar por todos os conteúdos, colocando o site por trás de uma barreira de subscrição.
Em mercados onde há diversos concorrentes é muito mais difícil, porque quem é que se atreverá a cortar os conteúdos gratuitos quando tem outros concorrentes?