“Realmente não nos importamos se em 2015 o I vai ser distribuído ou não em papel”. A afirmação é de Martim Avillez Figueiredo, director do I, durante o Editors Forum, a decorrer no âmbito do encontro mundial da World Association of Newspapers (WAN), em Hyderab, Índia. Mais do que uma discussão sobre plataformas, em Future of Journalism vs Future of the Newspaper, os editores de títulos como o The Guardian, Times of India, The Daily Star ou o português I centraram o debate nos conteúdos e no poder da marca.
“O futuro do jornalismo está no seu passado: deixem que os conteúdos sejam o rei e que os jornais sejam o império onde possa florescer”, defendia MahfuzAnam. Para o director do The Daily Star, do Bangladesh, o futuro tornou-se incerto para os jornais porque estes “abandonaram os seus leitores” e, em vez de “servirmos os nossos leitores, rendemo-nos aos anunciantes”. Para o responsável do diário do Bangladesh – mercado onde existem 40 jornais diários e 11 canais de televisão privados, segundo os números que apresentou – há que “renegociar com os anunciantes”, pois, a continuar este cenário, o “veículo” jornal terá um fim.
Aos que na plateia duvidaram do realismo desta estratégia, MahfuzAnam respondeu: “Quando se chega a uma questão de sobrevivência as pessoas fazem compromissos”.
Mas será que os leitores não abandonaram os jornais, porque estes não lhes oferecem o que pretendem, ou seja, um fluxo contínuo de informação 24 horas por dia?, questionou o moderador Xavier Vidal-Folch, deputy editor in chief do El País, introduzindo a questão do digital.
Para Jaideep Bose, director do Times of India, edição de domingo recentemente lançada no mercado indiano e que aposta em conteúdos de análise e num formato broadsheet, a premência da migração para o digital não se coloca, com os crescentes números de circulação no mercado indiano.
Já Martim Avillez Figueiredo deu conta da opção do I de não usar o online como o veículo privilegiado de colocação de breaking news (contrariando nisso a estratégia da grande maioria dos títulos com edições online), tendo optado pelo Twitter como plataforma para esse tipo de histórias. Mais, frisa o responsável do diário português, destacando a importância da plataforma papel, no I a edição em papel foi o veículo escolhido para criar uma marca de informação que possa viver em qualquer plataforma no futuro. “Sem a marca não teríamos a possibilidade de ter uma operação online”, diz, dando ainda como exemplo desta situação o caso do The Guardian.
Paul Johnson, deputy editor in chief do The Guardian, mostrou-se particularmente entusiasta do jornalismo do cidadão e de ferramentas como o Twitter. Mais do que ameaças estas novas tendências representam verdadeiras oportunidades para o jornalismo tradicional, defende. O desmontar da versão policial sobre a morte de um manifestante durante os protestos do G8 de Londres é disso um exemplo paradigmático. O mesmo só foi possível pelo volume de informação recolhido pelo repórter do The Guardian no local, bem como pela entrega de um vídeo produzido por um banqueiro norte-americano que registava o momento da carga policial, descreve Johnson.
Já o Twitter e media sociais como blogues revelaram-se essenciais para que o The Guardian pudesse colocar cá fora a história de uma descarga de resíduos tóxicos na Costa do Marfim, quando a justiça inglesa o proibiu não só de divulgar documentos que confirmavam que a empresa Trafigura tinha conhecimento da perigosidade desses resíduos, como de divulgar que tinham sido proibidos de o fazer.
Quanto a cobrar online por conteúdos com estas características, questão colocada diversas vezes ao responsável do The Guardian pela plateia, Johnson não se mostrou muito convencido que seja por essa via que passa o futuro do jornalismo ou dos jornais. Para o responsável do título inglês, há que provar que colocar uma barreira no acesso aos conteúdos não vai “destruir a audiência que levamos tantos anos a construir”.
O M&P viajou a convite do I