
Em cinco anos pode mudar muita coisa no sector de media.
Em internet, meio particularmente activo e influenciável pelo evoluir da tecnologia, pode mudar tudo. Definir cinco tendências que venham a marcar este meio nos próximos cinco anos é um desafio quase digno de um oráculo, mas foi isso que o M&P pediu a alguns responsáveis de grupos de media nacionais. José Freire, director de relações com os investidores do grupo Impresa, não tem dúvidas que uma das tendências passará pelo mobile. “Nos próximos anos, o online vai transferir-se para os meios móveis, o online vai ser mobile”, diz. “Novos PDA, telemóveis com ecrãs maiores, netbooks, etc, vão permitir estarmos sempre online, como hoje já é possível”, sustenta. Um argumento que, ao que parece, colhe unanimidade junto dos responsáveis pelas áreas de internet de outros grupos de media nacionais.
José Manuel Gomes, director da Cofina Media Digital, acredita que o futuro da internet será mobile, pois “haverá uma maior adesão por parte de toda a população à internet no telemóvel”. E o mesmo defende Nuno Ribeiro.
“Os novos modelos de telemóveis estão optimizados para consumo, criação e publicação de conteúdos online. O tráfego web gerado e conteúdos criados a partir dos telemóveis vai crescer substancialmente nos próximos anos”, preconiza o director de multimédia & e-business da Controlinveste.
Uma realidade cuja concretização, realça José Freire, passa necessariamente por desenvolvimentos tecnológicos que permitam “existir maior largura de banda online” e, diz, “as novas redes vão proporcionar isso”. “Nos próximos anos, vão aparecer redes 4G, ou as novas redes Wimax”, acrescenta o director de relações com os investidores da Impresa. E pela mesma linha de pensamento segue Inês Valadas, directora de Media Capital Multimédia. “A explosão da utilização da internet móvel e do respectivo acesso a conteúdos torna-se possível com as redes de acesso a permitirem velocidades bastante aceitáveis e com a rápida proliferação de smartphones”, diz.
Cada vez mais mobile e também multiplataforma, acrescenta a responsável da Media Capital Multimédia, considerando a acessibilidade dos conteúdos em diversas plataformas determinante para o sucesso dos projectos. “A capacidade de estar disponível onde, como e quando os consumidores pretendem vai determinar o sucesso e sobrevivência dos produtores de conteúdos e dos modelos de negócio que lhes estão associados”, afirma.
Novos terminais, maior largura de banda…
Novos terminais, cada vez mais mobile e maior largura de banda, conjugam-se para que, no entender de Nuno Ribeiro, o número de utilizadores do meio online vá aumentar de forma significativa. “O número de utilizadores continuará a crescer e será impulsionada por três factores: a massificação do acesso em banda larga, o crescimento da geração de ‘nativos digitais’ e a cada vez melhor usabilidade das aplicações e sites.” Tudo isto vai “sustentar o crescimento da população com acesso à rede em múltiplas plataformas (web, mobile, consolas, netbooks, tabletPC´s, etc.) e o aumento do tempo médio despendido no consumo de conteúdos e serviços online”, enumera o responsável pela área de internet do grupo Controlinveste.
E a que conteúdos os utilizadores estarão mais expostos no futuro? José Manuel Gomes não hesita em colocar os conteúdos vídeo no topo da lista. “O enriquecimento dos conteúdos por parte dos produtores passará seguramente pela aposta na imagem em vídeo”, afirma o responsável da Cofina Media Digital. Um ponto de vista que colhe junto a Inês Valadas que acredita que o vídeo “será a principal alavanca de crescimento dos investimentos publicitários associados ao online”. “O primeiro passo, de tornar num hábito a visualização de vídeos através da internet está dado”, diz a responsável da Media Capital Multimédia. “No que respeita à respectiva rentabilização está ainda quase tudo por fazer. Quem tiver a capacidade de produzir e disponibilizar conteúdo relevante em formato de vídeo terá com certeza uma grande oportunidade pela frente”, defende.
José Manuel Gomes elege também os classificados como uma das áreas de potencial crescimento, considerando que “a colocação dos anúncios de classificados na web sofrerá um aumento muito grande nos próximos anos”. Nuno Ribeiro, por seu turno, não refere propriamente os conteúdos como uma tendência nos próximos anos, mas sim a forma como estes serão reorganizados, bem como a origem da sua produção, mais concretamente através das redes sociais.
Para o director de multimédia & e-business da Controlinveste nos próximos cinco anos iremos assistir ao “amadurecimento” da Web 2.0. “É visível o crescimento sustentado de audiência das redes sociais. E tal como aconteceu nos media tradicionais, as redes sociais vão especializar-se. Vão surgir novas redes sociais segmentadas por temas (e grupos dentro das redes sociais ‘generalistas’), recuperando o conceito inicial da web 1.0 de comunidades virtuais em torno de conteúdos, comportamentos, celebridades, etc”, acredita. Inês Valadas também não tem dúvidas de que as redes sociais continuarão a fazer parte do futuro da internet. Estas, relembra, “chegam a todos e cada vez mais passam a fazer parte integrante da vida das pessoas. As questões fundamentais serão quais as redes sociais que vingarão e de que forma fidelizarão os seus públicos”.
… e cobrança de conteúdos?
E será que os próximos tempos também irão trazer novidades no que se refere ao modelo de negócio dos meios online? Entre a publicidade e os conteúdos pagos qual o modelo que irá vingar? Os dois, parece ser a conclusão, a avaliar pelas respostas dos responsáveis ouvidos pelo M&P. José Freire não tem dúvidas de que “a presença de conteúdos pagos vai aumentar exponencialmente” – o grupo Impresa, de resto, já deu passos nesse sentido com a criação de assinaturas digitais para algumas das revistas da Impresa Publishing -, e José Manuel Gomes, por seu lado, fala em micro-pagamentos, considerando que “o sucesso da Apple irá generalizar-se para outras aplicações”. Contudo, o responsável da Cofina acredita igualmente que a publicidade no online irá crescer. Esta “aumentará no número de anunciantes e na qualidade da mesma”, defende o director da Cofina Media Digital, com a “aposta em formatos com uma experiência mais rica para os utilizadores”. Um ponto de vista igualmente defendido por Nuno Ribeiro. Para o director de multimédia & e-business do grupo Controlinveste, a quota de mercado alocada à publicidade online vai “crescer fortemente” nos anos que se avizinham. Dois factores irão contribuir para que isso se concretize. Primeiro, o chamado ‘factor humano’, ou seja, “o crescimento da audiência e tempo de permanência dos utilizadores vai aumentar e levará como temos vindo a assistir a um maior investimento das marcas nos meios online”. Segundo, refere, a própria evolução do meio levará a mudanças na oferta de serviços que pode ser feita aos anunciantes. Questões como “segmentação das campanhas, mais cuidado com os targets, reputação e confiança dos meios onde são colocadas as campanhas de publicidade”, estarão na ordem do dia. “A segmentação em função do tipo de conteúdo/afinidade e comportamento (behavioral targeting), serão as principais variáveis no planeamento de campanhas”, afirma Nuno Ribeiro. No seu entender, os chamados formatos rich media ou o ingame advertising (conteúdos patrocinados e publicidade em jogos) – uma área em que a Controlinveste tem vindo a apostar, aliás, através da parceria com a Double Fusion -, serão aqueles que “mais vão crescer”. “A preocupação com a notoriedade e confiança das marcas vai aumentar e estes são formatos onde está provado o reforço da notoriedade e confiança nas marcas que as utilizam”, justifica. Em contrapartida, “o search marketing continuará a ser uma ferramenta importante no marketing mix online, mas verá o seu peso diminuído face ao display”, acrescenta.
Para Inês Valadas a internet vai reforçar “o seu papel enquanto elemento central no relacionamento das marcas com os consumidores, com a intensificação do tempo despendido online e com o fortalecimento da relação entre os consumidores e a internet”, fazendo com que continue a “assistir-se a um incremento progressivo dos investimentos de marketing alocados ao online”. “Serão certamente anos de muita inovação, muitas experiências e muita procura de novas fórmulas”, acredita.
Nos próximos cinco anos, no entender de Nuno Ribeiro, irá também acentuar-se o chamado ‘cloud computing’. “Do ponto de vista das organizações, há tendência para ter os seus data centers fora de portas, para se focarem nos negócios e minimizarem custos em tecnologia. As resistências relativas à segurança, confidencialidade e fiabilidade desaparecerão ao longo do tempo e os ganhos de produtividade serão um argumento forte”, começa por explicar. Uma tendência que não se fica pelas organizações. Para os utilizadores, “o facto de poderem aceder a aplicações (ferramentas de trabalho, comunicação e entretenimento) e documentos de trabalho ou pessoais a partir de qualquer dispositivo (PC, telemóvel, etc.), passará a ser um serviço ‘vital’ e ‘natural’ para trabalhar, ouvir música, ver e partilhar fotos, vídeos”, entre outros. Mas os efeitos vão sentir-se também nos próprios dispositivos. Estes, argumenta, “passarão a necessitar de menos capacidade de processamento e armazenamento (que são realizados pela “nuvem”), passaremos a ter dispositivos mais “básicos” e muito mais baratos”.

O que vai mudar na internet?
1. Micro-pagamentos por conteúdos de qualidade: Os micro-pagamentos deverão tornar-se populares junto de publicações e serviços informativos online, bem como de artistas e produtores de conteúdos. Este sistema está actualmente mais disseminado nos jogos multiplayer – através de um sistema de créditos, normalmente uma fracção de uma unidade monetária que permite a compra e venda de objectos nos jogos – mas também existem sistemas como o Pay Pal ou o Flexible Payments Service (FPS) da Amazon. No futuro poderão estar associados a sistemas de pagamento mobile;
2. Monitores maiores: A dimensão dos monitores dos computadores tenderá a aumentar, fazendo com que, naturalmente, os criadores de websites adaptem o grafismo e a disposição dos conteúdos dos sites, introduzindo no futuro mais scroll horizontal do que vertical, “em particular em websites que têm múltiplas caixas de conteúdo, em vez de longas faixas de texto”. Este tipo de scroll fará sentido em sites que apresentem portfólios, galerias media e que assentem mais em conteúdos multimédia do que texto;
3. Revistas com formatos mais interactivos: As revistas serão cada vez mais interactivas incorporando wikis, vídeo e conteúdo áudio, tendo em alguns casos as suas próprias redes sociais. A tendência das revistas rumo ao digital tenderá a aumentar à medida que os custos, com excepção da internet, forem subindo;
4. Mais conteúdo em tempo-real e colaborativo: As redes sociais elevaram a um nível superior a produção de conteúdos em rede. Projectos editoriais como escrita de romances têm vindo a ser produzidos através do Twitter (Neil Gaiman, autor de BD e de obras como Deuses Americanos, esteve envolvido com a BBC Audio Books e centenas de utilizadores do Twitter, na criação de uma história por esta via), ou do Facebook (caso do The Man Who Painted Agnieszka’s Shoes, de Dan Holloway). À medida que aumenta a largura de banda, torna-se cada vez mais possível actualizações em tempo real e num ambiente de colaboração;
5. Realidade aumentada em aplicações de mobile web: À medida que os terminais móveis têm melhores câmaras digitais, é natural que os proprietários lhes dêem uma utilização que vá para além de tirar fotografias. Tecnologias como reconhecimento facial permitem o cruzamento da imagem captada de alguém com o seu perfil noutras plataformas ou redes sociais. A Layar, aplicação já disponível nos iPhones e nos telemóveis com sistema operativo Android, é disso exemplo;
6. Mais aplicações sociais: Mais redes sociais e maior agregação de conteúdos, não só da actividade que os utilizadores produzem, mas também dos seus followers. Redes sociais de nicho também irão aumentar;
7. Mais conteúdos de TV online de qualidade: Com a tecnologia vídeo cada vez mais barata e a cada vez maior largura de banda, programas televisivos de qualidade irão tornar-se mais visíveis no futuro;
8. A optimização/utilização dos motores de busca será menos importante: Esta verá diminuída a sua relevância a partir do momento em que os utilizadores passem a assentar mais as suas decisões em recomendações e nas redes sociais para encontrar informação;
9. Interfaces web costumizáveis: À medida que as aplicações web estão mais integradas no dia-a-dia, a costumização de interfaces web deverá seguir-se. Alguns websites já possibilitam a costumização da informação (o que se vê, como se vê e como se pode interagir com ela);
10. A rede como centro de informação e distribuição: A internet deverá aumentar o seu papel de plataforma de distribuição de informação, não só para a imprensa, mas também televisão e cinema (com compra e visualização de filmes online). A internet também ganhará espaço no mercado editorial de livros, com os e-books.
Fonte: The Future of the Web: where will we be in five years?, Cameron Chapman (www.noupe.com)