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Media :: Artigos de Fundo

‘Temos que olhar para Kindle como um laboratório’

13 de Novembro de 2009 às 05:19:10, por Ana Marcela

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O The Boston Globe é um de três títulos disponíveis no Kindle DX, da Amazon. Em entrevista ao M&P, John Forcucci, IT director of business solutions/news do título norte-americano, fala das suas expectativas para esta nova plataforma de distribuição de conteúdos. Forcucci foi um dos oradores convidados no Congresso Internacional de Imprensa Não Diária, nos Açores.

Meios & Publicidade (M&P): O American Press Institute (API) incentivou a indústria a dar no online o salto de um modelo virado para a publicidade, para um virado para as audiências, o que acaba por ser o reconhecimento de que a publicidade não é suficiente para sustentar o negócio. Os conteúdos online pagos são a resposta?

John Forcucci (JF): Não penso que tenhamos ainda uma resposta. Pessoalmente, não penso que seja, penso que a ideia de uma subscrição universal – onde se tem a edição em papel ou acesso num destes terminais e-readers ou em todos os seus outros aparelhos -, funciona. A internet atrai muitos leitores, é uma ferramenta de marketing para nós, se fecharmos vamos perder um benefício. Além disso, as pessoas não levam muito tempo a ler conteúdos online, enquanto que na edição em papel ou no e-reader são capazes de despender 30 minutos. Não penso que estejamos a ameaçar o nosso negócio ao termos na web uma situação diferente, onde permitimos que as pessoas estejam de graça, mas não tenho todas as respostas. Provavelmente, vai levar seis meses a um ano a desenvolver um plano sobre se vamos ‘monetizar’ ou não as diversas formas de conteúdos.

M&P: O The Boston Globe é um de três jornais que acordou com a Amazon a sua disponibilização no Kindle DX. Qual é o modelo de negócio aqui?

JF: Se retirarmos a impressão, a distribuição e a tinta cortamos mais de metade dos nossos custos de produção. Se percebermos quais os custos remanescentes do funcionamento de uma redacção e do negócio, conseguimos chegar ao valor que realmente precisamos de cobrar mensalmente a um leitor para sobreviver. Se na edição em papel podemos cobrar 49 dólares por mês, por uma assinatura digital poderemos cobrar 20 dólares. Não temos esse valor fechado, mas, teoricamente, podemos oferecer-lhe algo por menos de metade do custo. [Com esta assinatura], num ano o consumidor pagaria o aparelho e no segundo ano obteria grandes vantagens, pois em vez de pagar 600 dólares por uma assinatura anual de um jornal, o que paga agora, pagaria 20 dólares por mês ou 240 dólares por ano. Provavelmente, faremos uma combinação de várias coisas, o que poderá implicar a compra imediata do aparelho fazendo-os pagar uma assinatura reduzida, ou subsidiarmos o próprio aparelho. Ainda estamos a discutir.

M&P: Perguntar quantas pessoas já aderiram é ainda prematuro, então.

JF: Sim. Temos que olhar para isto como um laboratório.

Temos pela frente um grande trabalho de renegociação dos modelos de negócio com a Amazon.

M&P: Segundo a API, o modelo de negócio do Kindle beneficia mais a Amazon do que os editores, com a Amazon a ficar com 70 por cento das receitas geradas.

JF: Sim, mas tem de pensar na época em que esses acordos foram assinados. Ninguém olhou para isto como uma plataforma ‘séria’, era uma pequena boutique, mais uma experiência do que qualquer outra coisa. A juntar ao facto da partilha de receita não ser favorável para os editores, o preço da assinatura também não o é. Recebemos apenas 10 dólares por mês por uma assinatura do The Globe, não foi um preço que tenhamos estabelecido, mas sim a Amazon. Nós, tal como uma série de outros jornais, estamos com a Amazon a retrabalhar o contrato e a torná-lo favorável. Estamos a beneficiar a comunidade de e-readers da Sony e da Amazon porque encaminhamos os nossos leitores para os seus aparelhos, e esses despendem mais tempo diariamente com os nossos conteúdos que outro tipo de utilizador destes aparelhos. Portanto, eles querem lá os nossos leitores, vamos ajudá-los a fazer dinheiro, mas eles têm de nos ajudar a criar um negócio sustentável.

M&P: Quantos leitores calculam que possam aderir ao e-reader e a uma assinatura nessa plataforma? Conhecendo os vossos leitores quem está no e-reader?

JF: A Forrester Research, com quem temos vindo a falar, calcula que até ao final deste ano haverá cerca de 3 milhões destes aparelhos nos Estados Unidos. Em números conservadores, esperam que no final do próximo ano entre 12 a 14 milhões de lares tenham estes aparelhos, o que significa que pode haver mais do que um aparelho por lar.

Mesmo que os números sejam metade disso, é muito. Os números são de tal ordem que a oportunidade para as pessoas nos subscreverem vai estar disseminada de forma muito rápida, por isso é que temos que nos organizar rapidamente. Como vamos gerir essa integração e quem são esses leitores? Vamos começar com o nosso assinante da edição em papel. Tivemos de estabilizar a situação financeira do The Boston Globe em primeiro lugar [a New York Times Co. já anunciou que não vai vender o título], por isso aumentámos o preço da nossa subscrição, para assegurar que o custo pagava a entrega, dada a perda de receitas da publicidade. Aumentámos a assinatura significativamente, em alguns casos mais de 50 por cento, e estamos muito satisfeitos por termos uma tão pequena taxa de abandono na circulação.

M&P: De quanto?

JF: Não sei se estou autorizado a dar-lhe esses números, mas é um valor muito baixo. O resultado foi bastante melhor do que as estimativas e posicionou-nos em terreno sólido, por enquanto. Estamos a estabilizar o The Boston Globe dessa forma e, ao mesmo tempo, dirigir os nossos esforços para alguns dos aparelhos para que respondam efectivamente às necessidades dos nossos leitores assinantes da edição em papel. O próximo passo é ir atrás de todos aqueles que não são assinantes. Como os atraímos? Temos equipas desportivas muito populares em Boston, pensamos que há pessoas no país que querem seguir essas notícias, informação que é específica de Boston para turismo que é útil para pessoas em todo país e o mundo. No Globe focamo-nos muito nas notícias regionais e locais, por isso acreditamos que temos um produto informativo que mais ninguém tem, mas temos de disponibiliza-lo nestas formas electrónicas e encontrar os leitores que valorizam essas notícias.

M&P: Segundo a API, a maioria dos compradores de e-readers tem mais de 50 anos. Os jovens não os compram. Como é que se cresce neste contexto?

JF: As pessoas que actualmente têm os Kindle são early adopters, pessoas que gostam de gadgets que pagam muito dinheiro por eles, tipicamente são homens, nos seus 40 a 50 anos. Mas isso é o habitual em qualquer nova tecnologia. Acreditamos que à medida que os preços descem, a cor e outras funcionalidades chegam a estes aparelhos, que estes se tornem populares junto das massas.

M&P: De acordo com a Forrester Research, as pessoas compram e-readers para ler livros e não necessariamente para ler jornais. Como é que se muda essa visão?

JF: Queremos que leiam tudo nos e-readers. Não temos qualquer problema em que queiram ler livros, revistas, outros jornais. Os e-readers não são ainda muito associados à leitura de jornais, simplesmente porque não os promovemos dessa forma. Penso que o começaremos a comunicar dessa forma para os nossos consumidores actuais e futuros e o faremos surgir como uma proposta de mercado para os jornais.

M&P: Está envolvido na Digital Publishing Alliance (DPA), tendo sugerido um consórcio de editores para propor um formato para os e-papers. Em que ponto está esta iniciativa?

JF: A DPA é coordenada a partir da Universidade de Missouri por Roger Fidler, que teve a ideia original para os e-books no início dos anos 80. No seio da DPA, durante uma apresentação, sugeri que os jornais deveriam trabalhar em conjunto em muitas frentes. O consórcio é apenas uma forma de solidificar essa cooperação entre os jornais. Sugeri que uma forma de começar seria nos standards técnicos destes aparelhos. Actualmente, existe um formato chamado e-pub, que é muito limitado, não faz as coisas que gostaríamos que fizesse. Se os jornais se juntassem poderiam colocar a sua pressão combinada sobre os fornecedores para melhorar essa tecnologia.

Eventualmente, podemos chegar a um ponto onde quereremos olhar sobre a forma como vamos combinar os nossos conteúdos nestes aparelhos, como jornais que pertencem à mesma rede ou até os nossos concorrentes podem querer ‘empacotar’ os seus conteúdos… A ideia de ter um grupo que olhe para isto e perceba como é que seriam os modelos de negócio virá com o tempo, não penso que os jornais estejam ainda preparados. Estamos a falar como muitos grupos de media para ver se querem uma organização autónoma para se focar totalmente nos standards.

Descobrimos que muitos dos jornais precisam de três a seis meses não para perceber a questão do consórcio, mas para perceber o que vão fazer com os e-readers. Estamos à espera que a indústria se ‘eduque’ e perceba como isto funciona.

M&P: Faria sentido uma espécie de consórcio também para dialogar com o Google? Este avançou com o Fast Flip onde, pelo que afirmam, estão dispostos a partilhar uma maior fatia de receita com os editores. Da lista de meios parceiros, não consta o The Boston Globe…

JF: Gostamos de olhar para tudo muito cuidadosamente antes de nos juntarmos. O Google é uma espada com dois gumes, há vantagens e desvantagens. Em termos de lidar com o Google… Sim, temos de fazê-lo como indústria e não de forma individual. Não penso que seja uma questão de que o Google tenho sido ‘um tipo mau’, mas sim que nós não temos gerido bem os nossos conteúdos e os direitos sobre os nossos conteúdos de forma escrupulosa.

Basicamente, permitimos que o conteúdo ficasse disponível de forma descontrolada, sem olhar para a forma como era distribuído, quem fazia dinheiro com ele, não só o Google, mas muitos outros. Penso que estamos a ficar mais educados sobre isso e que o licenciamento e a gestão de conteúdos é a forma como nos vamos defender, e aos nossos lucros, do Google e todos os agregadores e re-agregadores. Não ponho de parte uma parceria contínua, penso que é perfeitamente possível. Mas, tal como com a Amazon, tem ser uma parceria em que possamos ser sustentáveis como indústria.

A jornalista viajou a convite da organização do Congresso Internacional de Imprensa Não Diária