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Media

Produtoras de boa saúde

2 de Outubro de 2009 às 05:41:18, por Maria João Lima

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Por detrás das imagens e histórias que nos entram pela casa dentro através dos blocos publicitários das televisões há um sem número de profissionais envolvidos.

Desde logo os responsáveis das marcas, os criativos da agência de publicidade, as centrais de produção, as produtoras, as pós-produtoras de som e de imagem, e por aí fora… Hoje são as produtoras de quem falaremos. São pessoas que estão habituadas a gerir orçamentos diminutos, prazos ultrapassados e que se alimentam desse stress diário.

Há 22 anos no mercado da produção publicitário, os últimos quatro na Garage por si fundada, Miguel Varela confessa que o que mais o atrai neste modo de vida é o desafio em manter a qualidade, o que cada vez é mais difícil. A Garage diz não estar a sentir este ano quebra na facturação face ao ano passado. No início deste ano, a Garage assinou um acordo com a Máquina Invisível, do fotógrafo Filipe Rebelo, passando assim a incorporar a fotografia e a pós-produção à unidade do grupo que até aí só prestava serviços de produção para fotógrafos e agências de publicidade. O objectivo, explicou na altura ao M&P era “ter uma componente de fotografia tão forte como a dos filmes publicitários”.

Entre os principais trabalhos com assinatura da Garage este ano, Miguel Varela destaca os feitos para a Vitalis, Clix, Millennium BCP, Vaqueiro, Sumol Blisss, PT Family Box, Vodafone Pop Corns, PT Negócios e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Mas reconhece que a sua concorrência tem em mãos também em bons projectos de que são exemplo os filmes feitos para a Optimus Kanguru, os dois últimos de Marco Martins.

Um filme com assinatura de Marco Martins, da Ministério dos Filmes, é também um dos eleitos por Esequiel Viegas, produtor da Sync, que o coloca entre os melhores do ano.

Trata-se do Profecias para a Caixa Geral de Depósitos.

Este profissional destaca entre os filmes da Sync os mais recentes para a Worten Regresso às Aulas, da Fuel, e o Banif Big Bang, da Brandia Central. “Como é óbvio, todos os nossos clientes são importantes. Mas para que não pareça um político a falar, destacaria, pela longevidade do bom relacionamento e volume de trabalho, as marcas da Sonae Distribuição, nomeadamente, Continente, Modelo e Worten”, diz Esequiel Viegas, para quem a área da produção publicitária tem como atractivos o facto de não ter rotinas e cada trabalho ser um desafio diferente.

Por outro lado, diz, “fico muito satisfeito por pensar que, de alguma forma, estamos a contribuir para a notoriedade de uma marca”. Também a Sync diz não estar a sentir quebras na facturação, podendo para isso contribuir o facto de trabalharem para outras áreas na publicidade para além dos filmes. “Como temos pós-produção interna – e digo eu, muito competente – fazemos adaptações”, diz, acrescentando que têm feito coisas “muito giras” em motion graphics, que é uma área em que querem continuar a apostar. A Sync está a estudar novas opções para dar a volta à crise, mas os seus responsáveis consideram ser ainda prematuro revelar seja o que for.

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Dar a volta à crise

Paola Maluf, produtora executiva da Albinaña, não acredita que haja segredo para conseguir dar a volta à famosa crise. “Com ou sem crise, o grande negócio é trabalhar bem, com uma estrutura pequena, sem viagens megalómanas”, comenta. E acrescenta que se uma produtora começa a “inventar muito”, “alguém tem que pagar esta conta, e se não for o próprio cliente, possivelmente vai ser o seu fornecedor”. A produtora Albiñana abriu portas em Lisboa em Setembro do ano passado, depois de ter já escritórios em Madrid e Barcelona. Paola Maluf, ex-Tangerina Azul, foi a produtora executiva escolhida para ficar à frente da produtora que trabalha para mercados como o dos Estados Unidos, França, Itália ou Rússia, tendo já produzido para a Audi, Telefónica, Vodafone, Orange, Toyota, Danone e Repsol. Neste primeiro ano de actividade, a Albiñana de Lisboa esteve envolvida nas produções para clientes como TMN, Meo, Danone, Caixa Geral de Depósitos, Nestlé, Compal, Lactogal e McDonald´s. Até ver estão a focar-se somente na publicidade, ao invés de “atirar para todos os lados”, refere a produtora-executiva. “Prefiro gastar o tempo e a energia a encontrar soluções para o nosso próprio negócio”, comenta Paola Maluf. Esta profissional, que trabalha há mais de 20 anos nesta área, apesar da sua formação ser a Psicologia, nunca se imaginou a fazer outra coisa além da produção publicitária. “Adoro os desafios que cada nova produção nos oferece”, justifica.

E diz o que a estimula: “Nos tempos actuais, a produção tem que ser tão ou mais criativa que a realização, para conseguir alcançar os objectivos e expectativas dos clientes, dentro dos budgets e timings que trabalhamos.”

Alberto Rodrigues, da Ministério dos Filmes, produtora criada em 1999, conta também ao M&P o que o move neste sector: “O desafio de surpreender quem nos confia histórias e chegar a casa das pessoas com filmes publicitários que sejam mais do que só isso e que surpreendam também pelos resultados obtidos.” Também esta produtora, que trabalha essencialmente com agências de publicidade, diz, pela boca do seu produtor executivo, que está muito concentrada “para já” na produção cuidada dos filmes. “É esse o negócio da Ministério”, assegura.

Mas ainda assim não conseguiu evitar o abrandamento no inicio do segundo semestre de 2009, à volta de 20 por cento, apesar de no primeiro semestre ter tido um volume de facturação na mesma ordem de grandeza dos dois últimos anos. Ainda assim, Alberto Rodrigues diz que continua “a acreditar nas nossas capacidades e esperar que os clientes vejam na Ministério uma mais valia significativa quando nos confiam os filmes”. Este profissional sustenta que a crise existe financeiramente para todos, mas a que mais o preocupa é a crise de valores que “anda para alguns muito em paralelo”. Segundo refere o produtor da Ministério dos Filmes, “temos que ser mais criativos na forma de produzir porque os budgets foram ajustados para baixo, mas em todo o caso nada justifica uma história mal contada ou uma ideia mal produzida”. Isso, diz, não é crise, é falta de profissionalismo e de talento.

Entre os trabalhos que têm assinatura da Ministério dos Filmes está a campanha para a RTP, o lançamento da PT Fibra, Super Bock Fim-de-semana, BES Amigas e Cristiano Ronaldo Daqui a Três Anos.

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Fazer o som, compensa

A criatividade, a sedução, a inovação e o “stress” positivo de fazer bem e rapidamente são os principais motivos que ainda hoje, ao fim de tantos anos no mercado da produção publicitária, cativam Manuel Faria neste negócio.

“A necessidade faz o engenho e verificámos há dois anos que não podíamos estar apenas dependentes de um mercado”, comenta Manuel Faria, responsável pela Índigo, que em entrevista dada este ano ao M&P referia que durante muitos anos a produtora de som especializou-se nos filmes e nos spots de rádio. “E tínhamos tanto trabalho que deixámos de ter tempo para reflectir. Desde há um ano para cá – e em 2008 tivemos que enfrentar um modelo que já não funcionava -, começámos a reflectir sobre a nossa actividade, porque é que fazemos som, por que é que gostamos tanto disto e como poderíamos inovar. Temos andado a investigar há mais de um ano e meio novas soluções”.

Abriram terreno na área do cinema, onde já fizeram em um ano e meio três longas-metragens e duas curtas.

“Investimos na música estando neste momento quase a lançar o nosso primeiro artista, Frankie Chavez”, diz o director-geral da produtora. Além disso, investiram muitas horas na experimentação sonora “que nos irá levar a outros territórios como web e eventos”. Mas segundo diz, ainda é cedo para falar disso.

Com esta abertura de horizontes, a facturação da Índigo não está a cair este ano quando comparada com a do ano passado. “Estamos a ter bastante melhores resultados este ano”, garante. E acrescenta: “Arregaçámos as mangas. Os novos rumos compensam os antigos, pelo menos, por enquanto.”

Manuel Faria defende que para conseguir passar a perna à crise há que manter o espírito aberto e, sobretudo, compreender que não estamos apenas numa crise financeira, mas também numa mudança de hábitos, plataformas e formas de comunicar. “Nada vai voltar a ser o que era. Por isso, o momento é o de criar, fazer acontecer coisas. Cada um de nós. Mais tarde poderão servir de inspiração para a publicidade, mas, por agora, envolvem muitas horas de trabalho de graça, muita experimentação por nossa conta e risco”, explica. E aproveita para parafrasear um amigo: “Fazer acontecer!” Na opinião do director-geral da Índigo há muita gente que vive obcecada apenas com a ideia de onde virá o próximo cheque. E, diz, essa obsessão pode toldar-nos outros horizontes mais promissores e impedir o investimento no futuro.

Entre os clientes da Índigo há marcas, agências e produtoras de imagem. Cada um com as suas necessidades específicas, diz Manuel Faria. “Damos atenção a todos, de igual maneira, privilegiando aquilo a que dão mais importância. Mas a haver um que se destaca, será a Sonae Distribuição”, acrescenta.

Manuel Faria admite que os trabalhos mais desafiantes que fizeram no último ano não vieram todos da área da publicidade. A produtora se som ganhou o prémio de melhor edição de som no Festival do Rio de Janeiro com o filme A Arte de Roubar de Leonel Vieira, produzido pela Stopline.

“É a primeira vez que recebemos um prémio internacional de edição de som para cinema”, comenta. Este profissional diz que deram o melhor “em muitos trabalhos publicitários dos quais não gostaria de destacar nenhum porque todos se completam, sendo, muitas vezes os menos visíveis, os mais difíceis”. E este profissional acrescenta que seguem com atenção a actividade dos seus concorrentes e sentem-se contentes com o seu sucesso. “Temos, felizmente, muito boa concorrência. Atrever-me-ia a dizer que, salvo uma excepção, toda a nossa melhor concorrência foi formada pela Índigo”, refere.

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Pontos negros de um mercado de glamour

Como em todas as rosas que à vista parecem ser só virtudes, quando se vê de um prisma mais aproximado, também o mercado publicitário tem os seus espinhos.

Manuel Faria refere que o principal problema que afecta actualmente a área da produção publicitária é a falta de risco e, consequentemente, de inovação dentro do quadro tradicional. “Cumpre-se calendário e aplica-se o briefing de forma que fique o mais barato possível ao cliente”, comenta. E garante que assim, não se inova nada.

Miguel Varela, à semelhança do que dissera em entrevista ao M&P publicada em Setembro do ano passado continua a apontar a prática de dumping e atrasos no pagamento a fornecedores como os principais problemas que o mercado enfrenta. O responsável pela Garage refere que estes factos “criam concorrência desleal, que para o cliente final se compra só por preço torna tudo muito complicado”.

A concorrência desleal de quem produz sem nenhum critério é um dos problemas apontados pelo responsável da Ministério dos Filmes. E Alberto Rodrigues soma-lhe “a falta de pagamentos destes para com os mesmos fornecedores”. Este profissional do sector diz que “é um problema antigo que infelizmente se continua a passar” e que “ninguém está de facto preocupado em erradicar”. As mesmas pessoas fecham e abrem na porta ao lado com outro nome empresas do sector com a maior das descontracções durante décadas, denuncia.

Já a produtora executiva da Albinaña, Paola Maluf, lembra também os preços praticados por algumas produtoras e os prazos de pagamentos, “principalmente para as equipas, que na maioria das vezes recebe os cachets entre 60 e 90 dias, isso se a produtora não atrasar”. E confessa: “Acho isso uma indecência por parte dos produtores…” Esequiel Viegas, da Sync, prefere encarar as questões identificadas como desafios ao invés de problemas. “Os orçamentos serem curtos, não é uma fase, é a realidade”, assume. E o desafio, segundo este profissional, “é fazer um bom trabalho com os meios que temos, porque há elementos essenciais para a execução de um filme que não baixam de preço”.

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