
Depois de três trimestres consecutivos a apresentar prejuízos, a Impresa regressou no segundo trimestre deste ano aos lucros, registando 3,9 milhões de euros positivos. No primeiro trimestre os prejuízos eram na ordem dos 6 milhões de euros. O desempenho trimestral do grupo de Francisco Pinto Balsemão não impediu prejuízos de 2,2 milhões de euros no acumulado do ano, mas poderá ser interpretado como um sinal de que o actual estado de crise que tem atingido os grupos de media estará a abrandar?
Até ao momento apenas a Media Capital e a Impresa publicaram as suas contas semestrais – com o grupo proprietário da TVI a gerar receitas operacionais de 134,8 milhões de euros e lucros de 8,6 milhões, um recuo de 38 por cento face aos primeiros seis meses do ano passado -, mas a análise dos relatórios e contas dos dois grupos dão alguns indicadores da evolução do mercado.
Publicidade em televisão sobe do primeiro para segundo trimestre
A área de negócio de televisão, a começar pelo volume de investimento que representa para as contas das holdings de media e para o mercado, é talvez o caso mais significativo.
A TVI vê subir do primeiro para o segundo trimestre deste ano as suas receitas publicitárias de 27,4 milhões de euros para os 38,4 milhões, ou seja, mais 40,1 por cento, e a SIC assinala um crescimento de 18,5 milhões, para os 26,6 milhões, uma variação positiva de 43,5 por cento. Um aumento que poderá indiciar “um abrandamento na descida das receitas publicitárias”, como destaca o grupo Imprensa no seu relatório e contas, embora face ao ano passado a quebra seja visível (na ordem dos 20,5 por cento). Um ‘entusiasmo’ que deve ser encarado num contexto de profunda retracção do investimento publicitário, já que a evolução positiva do primeiro para o segundo trimestre de 2009 não deixa de ser um comportamento habitual do mercado que historicamente regista segundos trimestres mais fortes. E, como mostram os números das televisões, mesmo essa tendência de crescimento habitual é mais mitigada face ao ano anterior, altura em que do primeiro para o segundo trimestre de 2008 a TVI vê crescer 49,4 por cento as suas receitas publicitárias, sendo na SIC o aumento de 31,4 por cento. Apesar do crescimento do primeiro para o segundo trimestre ter sido inferior ao do ano passado, os relatórios mostram que em termos absolutos o mercado não continuou a cair.
Sem mais dados reais conhecidos – são públicos apenas os dados MediaMonitor, referentes a preços de tabela – o mercado de televisão em sinal aberto, afirma a Media Capital, “terá recuado cerca de 22 por cento em termos homólogos durante o primeiro semestre”. A TVI recua 20 por cento de Janeiro a Junho face a igual período do ano passado, para receitas acumuladas de 65,8 milhões de euros, caindo em 22 por cento o seu desempenho no segundo trimestre, para os 38,4 milhões. Uma descida que o grupo liderado por Bernardo Bairrão aponta ao ‘efeito’ do Campeonato Europeu de Futebol. “Não fosse o efeito do Euro 2008, a performance relativa face ao mercado seria substancialmente superior, reflexo de uma adequada política de gestão de conteúdos e de uma actividade comercial agressiva”, defende o relatório e contas.
Além das receitas de publicidade, a TVI também contou com o contributo positivo do item Outros Proveitos. No trimestre este fixou as suas receitas nos 5 milhões, mais 27 por cento do que em igual período do ano passado, empurrando os resultados do semestre neste item para os 11,5 milhões (+ 42 por cento). O item representa 15 por cento das receitas da área de televisão, reflexo “sobretudo do novo canal TVI24″, bem como dos “proveitos resultantes da prestação de serviços de apoio técnico”.
Receitas que a juntar às oriundas da publicidade levaram a TVI no trimestre a um total de proveitos operacionais de 43,4 milhões (-18 por cento). No semestre os proveitos operacionais situaram-se nos 77,3 milhões de euros, menos 15 por cento que em igual período do ano passado.
A estação de Queluz realizou igualmente um corte de 18 por cento nos custos operacionais, que no trimestre se fixaram nos 29,5 milhões de euros, fazendo com que de Janeiro a Junho os custos da TVI tenham sido reduzidos em 8 por cento, fixando-se nos 58,7 milhões. Uma “poupança significativa ao nível de custos de programação, derivada não só do ‘efeito Euro 2008′, mas também de uma redução relevante ao nível de outros conteúdos de desporto, bem como internacionais” foram as razões apresentadas pelo grupo para este decréscimo, que compensou “o incremento verificado com conteúdos nacionais”, e com o novo canal informativo de cabo do grupo. A TVI fecha o segundo trimestre com resultados operacionais de 12,4 milhões (-21 por cento) e no semestre de 15,6 milhões de euros (-36 por cento).
Ainda no audiovisual, mais concretamente, na área de produção, o grupo Media Capital assinalou um desempenho positivo, com crescimentos significativos nas receitas operacionais. No segundo trimestre o braço de produção do grupo cresceu 43 por cento, para receitas de 31,4 milhões de euros, contribuindo para os resultados do semestre onde a produção sobe 71 por cento, para receitas acumuladas de 55,2 milhões de euros. O que, apesar do crescimento dos custos operacionais – 38 por cento no trimestre, para os 27,7 milhões de euros, e no semestre de 68 por cento, para os 49,4 milhões de euros – faz com que a área apresente resultados operacionais de 2,8 milhões no trimestre (+ 296 por cento) e 4,4 milhões de euros no semestre, ou seja, mais 217 por cento que nos primeiros seis meses do ano passado. O desempenho da Plural España “a nível da produção e venda de conteúdos a operadores generalistas (com destaque para a Antena 3 e a Cuatro” é um factor que a holding destaca como tendo contribuído “de forma decisiva para a evolução global”.
Redução de custos e subscrição de canais melhora resultados SIC
Na SIC a generalidade das linhas de receita da estação caíram face ao período homólogo do ano passado. Caso da publicidade, como já referido, mas também da multimédia e Outras Receitas. No trimestre as receitas de multimédia desceram 33,7 por cento, para 3,2 milhões de euros, “devido ao menor número de programas de call-TV e, simultaneamente, a uma redução do volume de chamadas nos programas”. No caso das Outras Receitas – menos 41,1 por cento, para 1,5 milhões de receitas no trimestre, e menos 38,7 por cento, para 3,6 milhões de euros de Janeiro a Junho – , o item encaixa o impacto da alienação da Iplay (empresa discográfica alienada por 1 euro), já que “ajustando a saída da Iplay do perímetro de consolidação, as outras receitas teriam descido apenas 3,4 por cento”, frisa o relatório e contas. Desta tendência negativa da estrutura de receitas, apenas as oriundas da subscrição de canais sobem os seus números face ao ano passado. No segundo trimestre as receitas da subscrição dos canais temáticos aumentaram em 13,9 por cento, para os 10,5 milhões de euros. No semestre estas sobem em 16,3 por cento, situando de Janeiro a Junho as receitas nos 21,1 milhões de euros.
A estação liderada por Luís Marques também operou uma forte redução na sua estrutura de custos. No trimestre os custos operacionais recuam face ao período homólogo 4,9 por cento, fixando-se nos 34,6 milhões, contribuindo para uma contenção dos custos no acumulado do ano: No semestre a quebra em relação a igual período do ano passado é de 6,6 por cento, para 70,6 milhões de euros de custos.
Resultados que o grupo aponta ao “esforço de reorganização efectuado no final de 2008″, sendo que “a principal responsável por esta descida foi a queda de 20 por cento nos custos com pessoal”. Os custos com programação ainda subiram 6,4 por cento no trimestre com a “exibição da ficção portuguesa”, admite a holding, embora até ao final do ano esteja prevista “uma maior amplitude na descida dos custos operacionais e, principalmente, dos custos de programação”.
A contenção dos custos na ordem dos 1,8 milhões e a subida das receitas de subscrição dos canais temáticos de 1,3 milhões face ao período homólogo, deram um forte contributo para que a estação regressasse aos resultados positivos no segundo trimestre. Do primeiro trimestre para o segundo a SIC passa de prejuízos de pouco mais de 4 milhões de euros, para resultados antes de impostos positivos de 4,8 milhões. Um desempenho trimestral que levou a resultados semestrais de 814 mil euros, valor que, contudo, face ao primeiro semestre do ano passado, representa uma descida de 93,4 por cento.
Terá a publicidade aumentado nos outros media?
Se com base nas receitas de publicidade dos dois grupos privados é quase pacífico concluir que a queda do investimento publicitário em televisão, em termos absolutos, não se agravou neste media, no que se refere aos outros meios tal não é tão evidente. A começar pelo facto dos grupos apresentarem linhas de receita distintas. A título de exemplo refira-se a rádio, media que faz parte do portfólio da Media Capital, mas não da Impresa, ou a imprensa, área alienada pela Media Capital à Progresa (e de resto nunca discriminada no relatório e contas) e que na holding de Pinto Balsemão é a segunda maior fonte de receita do grupo.
Feitas as ressalvas, e tendo em conta o peso que os dois grupos têm nas respectivas áreas, os dados das duas holdings dão algumas pistas sobre o estado do mercado nestes dois sectores. Em rádio, a Media Capital, segundo maior grupo em termos de audiências, obteve no segundo trimestre receitas operacionais de 3,9 milhões de euros.
Face a igual período do ano passado, o valor significa uma ligeira melhoria de 1 por cento, mas em relação aos resultados obtidos nos primeiros três meses do ano, altura em que o braço radiofónico do grupo (MCR) obtinha 2,4 milhões, não deixa de ser uma melhoria significativa nas receitas operacionais. Ou seja, num trimestre o grupo conquista mais 1,5 milhões de receitas. A subida das receitas publicitárias ajudou a este melhor desempenho da MCR. Também aqui a subida trimestral é relevante, com a publicidade a aumentar de 2,3 milhões, para 3,6 milhões de euros (+1,3 milhões de euros). Evoluções positivas que, todavia, não impediram que face ao segundo trimestre do ano passado a publicidade tenha caído 5 por cento “desempenho que se terá situado acima do registado neste segmento de mercado”, assegura a holding. No semestre as receitas da MCR assinalaram uma quebra de 14 por cento, para os 5,8 milhões de euros, “diminuição que acompanhou a tendência de um sector do mercado publicitário que enfrentou também ele nestes primeiros seis meses do ano um cenário de queda significativa de investimento publicitário”. O item Outros Proveitos deu um contributo positivo para a performance da MCR, subindo 122 por cento no trimestre, para os 386 mil euros, influenciando o acumulado do ano. No semestre estas receitas aumentam 60 por cento, para os 589 mil euros.
Também na MCR o grupo operou uma política de contenção de custos, resultando num “esforço de contenção transversal a toda a estrutura de custos operacionais, com particular incidência na redução dos custos de marketing e publicidade e da redução do quadro de colaboradores da MCR em curso desde a parte final do exercício de 2008″.
Apesar de os custos operacionais aumentarem de 3,2 milhões de euros no primeiro trimestre, para 3,4 milhões no segundo, face a igual período do ano passado os custos operacionais neste último período caiem 9 por cento. De Janeiro a Junho a MCR efectua poupanças homólogas de 17 por cento, situando os custos operacionais nos 6,5 milhões. A subida na estrutura de receitas e as poupanças geradas não impediram que a MCR registasse prejuízo tanto no trimestre (-36 mil euros), como no semestre (1,3 milhões de euros), embora, face ao período homólogo, tenha reduzido o mesmo em 91 e 32 por cento, respectivamente.
Em imprensa os resultados do grupo de Pinto Balsemão são, apesar das quebras face ao ano passado tanto no trimestre (-41,1 por cento) como no acumulado do ano (-70,7 por cento), positivos. A Impresa Publishing registou resultados antes de impostos de 2,4 milhões e de 1,5 milhões de euros de Janeiro a Junho. Em termos de receitas operacionais a Impresa Publishing obteve no segundo trimestre 23,5 milhões, fixando-se no semestre nos 42,9 milhões de euros. Contudo, com praticamente todas as linhas de receita a caírem na Impresa Publishing, com a excepção de Outras – mais 60 por cento no trimestre, para 1,4 milhões, e mais 113,1 por cento no semestre, para os 3,1 milhões -, a redução dos custos operacionais representou um papel importante para os resultados líquidos positivos da área de negócio. No trimestre estes decrescem 22,4 por cento, para os 20,2 milhões “resultado das várias medidas de reorganização e de contenção de custos”e no semestre a descida é de 20,7 por cento, para os 39,6 milhões de euros. Uma contenção de custos de 5,9 milhões no trimestre e de 10,3 milhões de euros no semestre que contribuíu para compensar as quebras na estrutura de receitas, a começar pelas receitas de publicidade que no trimestre caíram 35,3 por cento (para os 12,7 milhões de euros) – no semestre a descida é de 36 por cento, para os 21,6 milhões. Uma evolução trimestral que “não apresentou melhorias sensíveis” face ao primeiro trimestre do ano, sendo a quebra “particularmente sentida na área dos classificados”. “A única área que manteve um crescimento das receitas no segundo trimestre de 2009 foi a publicidade online, tanto no display como nos classificados”, destaca o grupo, embora em relação ao online não sejam conhecidos números absolutos. O que, aliás, ocorre no grupo Media Capital que no seu relatório e contas admite que “a publicidade na rede de sites de internet registou uma queda de 14 por cento, com uma melhoria da taxa de variação no segundo trimestre face ao primeiro”.
As receitas de circulação na Publishing registam igualmente quebras trimestrais (-10,9 por cento, para os 8,6 milhões de euros), bem como as resultantes da venda de produtos associados, que desceram 50,7 por cento, para os 849 mil euros). Desta tendência de quebra a excepção é das Outras Receitas que “subiram 60 por cento ajudadas pelo bom comportamento da área do costumer publishing”, fixando-se no trimestre nos 1,4 milhões de euros. Desempenho das linhas de receitas que se mantém no acumulado do ano, com o item Outros a ser o único a assinalar uma subida (+133,1 por cento, para os 3,1 milhões de euros). A Impresa Publishing apresenta resultados antes de impostos de 2,4 milhões de euros no trimestre (-41,1 por cento), regressando aos valores positivos, o que empurrou os resultados no semestre para os 1,5 milhões de euros (-70,7 por cento).
Impresa Digital reduz prejuízos
As receitas da Impresa Digital no segundo trimestre reflectem a “alteração do perímetro de consolidação” face ao período homólogo do ano passado, com a venda de activos (New Media), incorporação da empresa detentora do Chilltime, entre outros aspectos, frisa o relatório e contas do grupo de Pinto Balsemão.
As receitas desta área de negócio fixaram-se no segundo trimestre nos 1,9 milhões de euros (- 30,7 por cento) e no semestre nos 3,2 milhões de euros (-20,7 por cento).
Neste período todas as linhas de receita, com a excepção da InfoPortugal (+80,3 por cento, para os 526 mil euros), vêem descer as suas receitas, caso da DGS (- 46,2 por cento, para os 729 mil euros), Aeiou (- 4,6 por cento, para os 278 mil euros) e outras (menos 55,4%, para 345 mil euros). Também nesta unidade de negócio a política de contenção de custos da holding se fez sentir, resultando numa redução de 53,6 por cento dos custos operacionais, para os 1,5 milhões de euros no segundo trimestre.
Tendência que se repercute no desempenho semestral, caindo 47,7 por cento no acumulado do ano os custos operacionais, fixando-se nos 2,9 milhões de euros. Em termos de resultados antes de impostos a unidade mantém-se no negativo, embora melhorando o seu desempenho, reduzindo de 1,5 milhões negativos para 178 mil euros no trimestre (87,8%), e de 2,3 milhões no semestre para 655 mil euros (71,2%).
Quebra de vendas de CD e Vídeo empurram área de Entretenimento da MC para o vermelho
14,9 milhões de euros foram os resultados operacionais da área de Entretenimento da Media Capital. O valor semestral representa uma descida de 11 por cento face ao período homólogo, sendo que no segundo trimestre a quebra é mais acentuada (20 por cento), para os 7,5 milhões de euros. Na análise semestral as receitas operacionais reflectem a performance em quebra dos itens música & eventos (-12 por cento, para os 5,9 milhões de euros) e cinema&vídeo (-11 por cento, para os 9 milhões de euros), fruto da redução das vendas de CD (-15 por cento) e da distribuição de vídeo (menos 14 por cento). Os custos operacionais caiem 6 por cento, para os 15,5 milhões de euros. O resultado operacional da área apresenta prejuízos de 725 mil euros euros, face a 230 mil euros de lucro no período homólogo do ano passado.