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Com a circulação paga dos títulos controlados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens e Circulação (APCT) a descer, mas as edições online a registarem audiências elevadas, o segmento da imprensa desportiva pode estar a viver um momento de viragem.
Manuel Tavares, director de O Jogo, analisa a actual conjuntura em termos de vendas. “Pelos números que tenho, meus e da concorrência, a recessão junto aos compradores de jornais não passou, sendo que é natural que a imprensa especializada seja mais afectada do que a generalista, dado o baixo poder de compra [dos leitores]“, refere o responsável editorial.
“A imprensa desportiva atravessa uma fase difícil no suporte papel, mas apresenta já resultados impressionantes nas edições online”, refere, por seu turno, Alexandre Pais, director do Record. “Os três diários nacionais tiveram em Maio último quase 30 milhões de visitas e mais de 130 milhões de pageviews, números inatingíveis mesmo que reuníssemos num só todos os sites dos diários e semanários nacionais de informação não desportiva”, comenta o responsável do desportivo da Cofina.
Nuno Francisco, director da revista mensal Futebolista, salienta o interesse que o fenómeno desportivo desperta, visível também no suporte online. Na análise do responsável da publicação do Grupo V, “apesar da crise económica, que por Portugal já se instalou há muitos anos e que se agravou depois de Agosto de 2008, despoletada pela crise financeira mundial, o interesse pelo fenómeno desportivo não esmoreceu embora os números indiquem que houve algum abrandamento ao nível da circulação paga”.
Contudo, ressalva, “constatamos que os sites desportivos são líderes das visitas em Portugal, que os jogos de futebol transmitidos pela televisão continuam a ser os programas mais vistos quando tal ocorre nos canais de sinal aberto…”.
Pagar online conteúdos desportivos?
Projectar o online e manter o equilíbrio com a velhinha ‘plataforma’ do papel é a questão realçada por Vítor Serpa quando instado a fazer um balanço sobre o actual momento dos media desportivos. “A situação no fundo é o problema do equilíbrio cada vez mais necessário entre o crescimento do online e a dificuldade de vendas do papel”, comenta o director de A Bola, uma situação que, diz, não é exclusiva do jornal desportivo nem do mercado português.
Efectivamente, os números de circulação paga do segmento têm descido no seu conjunto, com algumas excepções, e, em contrapartida, no online, a avaliar pelos resultados do Netscope, o segmento está bem e recomenda-se tanto em termos de pageviews como em número de visitantes. Com a quebra de receitas no papel, não será chegada a altura de rentabilizar a curiosidade pelo fenómeno desportivo online através da cobrança de conteúdos pagos?
“Neste momento A Bola tem [no online] do ponto de vista económico uma posição significativamente positiva, consequentemente tem vantagens dado o crescimento importante da publicidade [para este suporte]“, assegura Vítor Serpa. Actualmente, adianta, o online “já representa um quarto do volume total da publicidade” do jornal, o que talvez explique alguma renitência do responsável em avançar para conteúdos pagos nesta plataforma, retirando benefícios acrescidos do facto de liderar os rankings em termos de pageviews e número de visitantes. Uma liderança que o leva, no entanto, a apostar neste suporte, como é exemplo a renovação da edição online de A Bola ocorrida esta semana.
A mesma renitência na implementação de conteúdos pagos é manifestada pelo director do Record. Conteúdos pagos na plataforma online só “quando os outros fizerem o mesmo”.
“Se um continuar gratuito, quem se fechar será fortemente penalizado”, acredita Alexandre Pais.
Manuel Tavares, por seu lado, remete o tema online para um momento futuro. “Estamos a prever uma discussão de fundo para o final do ano. Neste momento, colocamos online as notícias do jornal e a sua actualização [ao longo do dia] é feita pela equipa da Sport Invest Multimédia”, relata o director de O Jogo. “Por agora estamos bem, não temos pressa”, sintetiza. Quanto a conteúdos pagos, “é a mesma decisão do preço de capa dos jornais”. Avançar para a cobrança de conteúdos online, defende o responsável de O Jogo, só após uma “discussão entre proprietários de meios. Não vejo que possa ser feito de outra maneira”. Manuel Tavares recorda que a prática neste suporte tem sido ter conteúdos acessíveis a todos os utilizadores e outros de acesso reservado. “Fundamental é saber até que ponto as áreas comerciais conseguem rentabilizar os diferentes espaços”. “O que a crise trouxe de novo é que os grupos vão ter de reconverter as equipas comerciais. Estas estão habituadas a vender espaço. Agora a questão é ‘para que espaço?’”, questiona.
Na revista Futebolista o tema online começou a ganhar expressão com a criação do blogue do título que Nuno Francisco justificou com “uma maior necessidade de proximidade” com os leitores. “Tendo em conta que a Futebolista é uma publicação mensal, considerámos que esta poderia ser uma boa forma de nos aproximarmos mais daqueles que são seguidores da nossa revista, mas ao mesmo tempo, aproveitar também para marcar presença num meio (a internet) que toda a gente identifica como valioso no que diz respeito à divulgação de serviços ou produtos”, explica o responsável editorial. Desenvolver a presença na plataforma online do projecto através de um site é algo que Nuno Francisco não exclui, “mas, a confirmar-se, o mesmo, será sempre tendo por base o complemento à revista e não a sua substituição”, frisa, não adiantando nenhuma data precisa para a tomada dessa decisão.
Internacionalização à vista?
Manter o crescimento e segurar a quebra de circulação nas edições em papel é, no entender de Vítor Serpa, um dos desafios com que o sector se depara. E no mesmo parece acreditar Manuel Tavares. O título, diz, debate-se com os efeitos da recessão que têm levado a uma menor compra de desportivos, mas também se ressente das alterações ocorridas na concorrência que, acredita, aproximaram os outros produtos editoriais do segmento do O Jogo. “A Bola criou suplementos de informação regional (Norte e Sul), apostando numa informação de proximidade”, uma aposta de O Jogo, diz, e o Record, continua Manuel Tavares, “apostou na linha do social”, o que já tínhamos avançado com a revista J, exemplifica o director do desportivo da Controlinveste. Elementos que poderão ter contribuído para o desempenho do título, que no primeiro bimestre do ano caiu 16,31 por cento, para os 27.054 exemplares de média de circulação paga. “O que estamos a fazer é justamente proceder no plano interno a uma reformatação das relações entre a área editorial, marketing e comercial”, afirma Manuel Tavares. “A área editorial e a de publicidade trabalham muito pouco entre si, e o marketing andava muito à volta de produtos que ajudavam a vender jornais. Agora não há dinheiro para que o marketing continue nessa linha de produtos”, descreve o director do desportivo da Controlinveste. Um “entrelaçar melhor do editorial, da publicidade e do marketing” será implementado no título, tornando-se mais claro junto das diversas áreas a jusante da editorial os “conteúdos que diferenciam o O Jogo”, para que a área comercial os possa usar como argumento de venda ou angariação de anunciantes, explica Manuel Tavares. “O Jogo é o único desportivo a ter uma área de bolsa do desporto. É lógico que esse espaço possa atrair do ponto de vista da publicidade produtos financeiros”, exemplifica. Nessa nova lógica de funcionamento o marketing de O Jogo passou para o Norte, a cargo da mesma equipa de marketing do Jornal de Notícias, adianta Manuel Tavares. Quanto ao futuro o responsável não tem dúvidas: “O Jogo tem de funcionar como plataforma giratória de conteúdos entre os diversos meios do grupo.” O que implica a partilha de recursos humanos em grandes eventos desportivos, sintetiza.
E, dada a contenção imposta por momentos de crise, será esta a altura para apostar em novos projectos internacionais? Uma edição internacional de O Jogo é uma perspectiva que Manuel Tavares olha “com muito interesse”. No entanto, admite, “não está nada em cima da mesa”. “Fizemos uma sondagem [junto a parceiros externos]“, mas, continua, “tivemos dúvidas sobre o aparelho técnico no terreno”. As conversas “podem ser retomadas”, mas “não vejo como se possa encaixar no próximo ano”, considera o responsável.
A expansão para o mercado lusófono, diz por seu lado Alexandre Pais, “é possível e mesmo desejável. Mas para isso há que encontrar os parceiros certos”. “Não entraremos em aventuras, no Record cria-se valor para os accionistas, não se brinca aos jornais, com supostas edições ‘internacionais’ cujo retorno é zero”, comenta o director do Record.
“Já estamos no Brasil e esperamos que possamos crescer também na África de expressão lusófona”, comenta Nuno Francisco. Angola, diz o director da Futebolista, “partilha da nossa paixão pelo futebol e é uma das pontes culturais que nos unem apesar de estarmos fisicamente distantes uns dos outros. A resposta é pois positiva e estamos em crer que é algo que se irá incrementar nos próximos tempos”.
A edição de Angola de A Bola, lançada em Março, em parceria com o grupo angolano Medianova, diz Vítor Serpa “está em fase de consolidação”. “Consideramos o primeiro ano como o de enraizamento do jornal em Angola, criando condições de hábitos de compra do jornal. Para grande parte das pessoas que consomem A Bola em Luanda a única queixa é o jornal não ser diário”, diz o director do título que, neste mercado lusófono sai três vezes por semana. “Decidimos não dar um salto demasiado atrevido”, diz, mas confessa que outras internacionalizações não estão fora da perspectiva da editora. Para o Mundial de 2010 na África do Sul, Vítor Serpa “gostaria de ter uma experiência na África do Sul, com uma possível extensão em Moçambique”.
- Depois dos lançamentos, a consolidação
Depois de no ano passado a SportTV ter apostado na renovação da sua imagem e no lançamento de três novos canais, em 2009 a estratégia, adianta Pedro Mota Carmo, administrador da SportTV, é “reforçar a qualidade do serviço”, através “dos conteúdos e dos serviços que prestamos”. O responsável faz um balanço positivo das apostas realizadas em 2008 e que implicaram “um grande investimento por parte da empresa”. Pedro Mota Carmo não revela valores exactos em termos de investimento, mas considera que o resultado obtido com a SportTV3, canal criado para servir um segmento mais jovem e feminino, no HD (que emite conteúdos em alta-definição) e na SportTV África, “justifica” a aposta realizada.
Pedro Mota Carmo não revela o número de subscritores da SportTV 3, mas assegura que este canal gerou um número de subscritores “suficientemente bom para continuarmos a desenvolver este modelo e a SportTV3″, citando como exemplo o espaço dado a novas modalidades como o wrestling, o Nascar, a Moto GP ou o desporto escolar (envolvendo mais de 18 mil estudantes) como reflexos dessa aposta.
Já a internacionalização trouxe a entrada da empresa em 150 mil lares em Angola, através da distribuição da SportTV África por via do operador de satélite Multichoice. O canal, explica Pedro Mota Carmo, está disponível num pacote de desporto premium chegando a toda a África sub-sariana, incluindo Moçambique, África do Sul, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. O canal ainda não tem conteúdos “localizados especificamente”, mas “fazemos cobertura [em Portugal] e transmitimos na SportTV e SportTV África tudo o que tem a ver com estes mercados”.
Uma estratégia de expansão e de negócio que o administrador da SportTV diz não ter sido impactada com o surgimento em Dezembro do Benfica TV, canal propriedade do clube das águias. A SportTV, diz, desenvolve uma “estratégia premium”, transmitindo provas nacionais e internacionais, e no futebol, entre outras, provas dos três clubes principais, tendo inclusive no ano passado, adicionado a transmissão da Taça de Portugal. “Não se pode comparar. São projectos de media distintos”, conclui.
Os responsáveis do Benfica não revelam números, mas instado a fazer um balanço do projecto, Domingos Soares de Oliveira, administrador executivo do Sport Lisboa e Benfica, comenta: “As características do canal Benfica levam a que o sucesso do mesmo não possa ser medido por critérios convencionais. Quando desenhámos o projecto, tínhamos três objectivos. Em primeiro lugar, a comunicação directa com os adeptos, sem passar pelos órgãos de comunicação social, em segundo, as auto-promoções a todos os produtos Benfica, desde jogos, kits, cativos, merchandising, etc. e, finalmente, o entretenimento, com debates, jogos das várias modalidades e programas que fomentassem o amor pelo Benfica”, explica. “Hoje temos a noção de ter atingido esses objectivos e revolucionado o mercado. Por outro lado, os nossos parceiros estão satisfeitos com as audiências, o que nos leva a manter o rumo que definimos no ano passado”, assegura. Quanto à internacionalização do projecto, algo que os responsáveis do clube tinham admitido logo no seu lançamento, Domingos Soares de Oliveira acredita que não está longe a sua concretização.
“Prevemos que durante a próxima época se consiga alcançar o objectivo da internacionalização, em particular em três mercados onde se concentram muitos benfiquistas, a saber e por ordem de concretização, América do Norte, África e Europa”, afiança.