
Cinco anos depois de entrar em Portugal, o Metro mudou de accionistas. A decisão conhecida na passada semana representou não só o desinvestimento da Metro International no mercado português, mas também a passagem para a mão de empresários e grupos de media nacionais do diário gratuito. Alberto do Rosário, através da Holdimédia, passou a controlar 80 por cento do capital da Transjornal (editora do Metro), sendo os restantes 20 por cento, detidos pela Metro News, a editora dos também diários gratuitos Destak e Meia Hora. Indirectamente, a aquisição representa igualmente a entrada da Cofina (que tem uma participação de 59 por cento na Metro News) no capital do título, reforçando assim a posição do grupo liderado por Paulo Fernandes no segmento dos diários gratuitos. O valor do negócio, que implica um acordo de franchising com a marca, não foi divulgado, nem a duração do mesmo e, contactado pelo M&P, Alberto do Rosário também se escusou a adiantar mais detalhes, invocando o facto de o negócio envolver outros parceiros. O empresário, há mais de duas décadas ligado ao sector de media, nomeadamente com a Lusomundo Media (actual Controlinveste) e, actualmente como consultor da Cofina, é mais expansivo no que toca às razões que levaram a esta aposta no diário gratuito. “O Metro é uma boa marca. É um projecto com uma forte distribuição em vários países do mundo”, começa por referir. “Por outro lado, acredito que os jornais gratuitos têm futuro. Sabemos as dificuldades que a imprensa enfrenta em todo o mundo, acredito que os gratuitos vão ter mais capacidades de recuperar e de enfrentar as adversidades”, argumenta o responsável.
Contudo, e apesar do título liderar em termos de audiências desde o seu aparecimento no mercado português, foram exactamente os resultados financeiros menos positivos do jornal o argumento da Metro International para justificar a vontade de vender e procurar uma solução que lhe permitisse manter em Portugal a marca mas sem participação no capital da empresa, após comprar por 200 mil euros à Media Capital a participação de 35 por cento que tinham na Transjornal. Alberto do Rosário acredita que ter a Metro News como parceira representa uma mais-valia para o projecto. “A concorrência é forte em Portugal com muitos títulos [gratuitos], daí a associação com a Metro News que é uma empresa que nesta área tem sucesso”, afirma o responsável.
Ao certo que vantagens ou sinergias é que poderão ser retiradas ou estabelecidas entre o Metro e a Metro News é que Alberto do Rosário não adianta. “Vamos analisar com calma e in loco a situação do Metro, e ver de facto as causas desta situação de desequilíbrio nas contas que se está a verificar este ano e depois resolvê-lo”, assegura.
Mas é nas eventuais sinergias que se podem estabelecer entre o título e a Metro News que os operadores parecem ver uma solução de futuro para o projecto. Se a mudança de accionistas não surpreendeu, afinal como relembra André Freire de Andrade, CEO da Carat, “a Metro International já tinha anunciado que era vendedor”, a entrada da Metro News e, indirectamente da Cofina já foi mais surpreendente admite o responsável da agência de meios. Mas talvez não muito. “O facto é que neste momento não havia espaço para todos os diários”, diz e, conceptualmente juntar o Metro a outros meios leva a “maiores sinergias e faz com que o projecto seja rentável”. Mais, continua o responsável, “mais vale ter o ‘inimigo’ dentro do que fora”.
Manuel Falcão, por seu turno, não hesita em classificar esta movimentação como “um reforço da presença da Cofina na imprensa”, relembrando que Alberto do Rosário, mais recentemente, tem estado ligado ao grupo liderado por Paulo Fernandes como consultor. Esta entrada, acredita o director-geral da Nova Expressão, representa mais um passo da holding de media detentora do Correio da Manhã e do Record de se “afirmar como um grupo forte de imprensa”, na medida em que a Cofina, relembra, não tem posições em suportes como rádio ou televisão. Mais, continua o responsável da Nova Expressão, “reforçar a posição em imprensa, eventualmente, significa o início de concentração de títulos”. Ou seja, “não é impossível que passe a existir um só título, em vez de dois [Metro e Destak]“, conclui Manuel Falcão.
Uma hipótese que, no entender de André Freire de Andrade, dificilmente será implementada. Afinal, considera, comprar para “matar a marca” não faz sentido. Opinião igualmente sustentada por Alberto do Rosário quando questionado sobre um eventual cenário de fusão entre os dois diários gratuitos. “Uma fusão à partida do Destak e do Metro não me parece que faça sentido. Nunca esteve em cima da mesa”, assegura o responsável da Holdimédia.
Para André Freire de Andrade outro tipo de sinergias terão eventualmente, mais lógica. “Claramente o Metro permanecendo sozinho, com a situação que tinha, aparentemente não conseguia permanecer um projecto economicamente viável. A única perspectiva é com a obtenção de sinergias com o grupo que comprou”, preconiza. Quais? “Editoriais e de produção”, refere o CEO da Carat. E na área comercial não faria sentido? A opinião dos operadores contactados pelo M&P dividem-se neste ponto. Se para Manuel Falcão a “Cofina tem tido uma posição de maximizar o investimento no grupo”, sendo “possível que continue a ter esse comportamento em relação a uma série de outros meios e conseguir vantagens”, para André Freire de Andrade, a acontecer, poderá não ser uma boa opção. “A partir do momento em que se juntam as áreas comerciais a canibalização, mais cedo ou mais tarde, acontece”, considera o CEO da Carat, sublinhando que as sinergias deveriam ocorrer em áreas que “não sejam visíveis para os leitores e anunciantes”.
Alberto do Rosário é mais comedido no que toca à questão dos benefícios da associação entre o Metro e a Metro News, mas não deixa de referir que, em termos de mais valias, “há uma óbvia: têm know how na área o que à partida é uma enorme vantagem”, quanto ao resto, “ainda é cedo”.
O M&P tentou obter um comentário da administração da Controlinveste, grupo que detém o gratuito Global Notícias, mas até à hora de fecho desta edição tal não foi possível.