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Publicidade :: Artigos de Fundo

‘Há muita coisa que se pode fazer fora dos anúncios de televisão e de rádio’

19 de Junho de 2009 às 05:39:16, por Maria João Lima

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Com praticamente 13 anos completos de actividade, a Índigo tem-se destacado na produção de som para campanhas de televisão e de rádio. No entanto, como explica Manuel Faria, director-geral da produtora, “este mercado dos spots de rádio e de televisão é muito redutor. Por isso começámos a fazer cinema. Estamos a trabalhar música original, ou seja, a gravar aqui artistas em que reconhecemos talento e que vamos lançar brevemente em parceria com uma editora ou com uma distribuidora. Estamos a investir na área da música que está muito órfã com a queda de oferta das multinacionais”, considera Manuel Faria, que prefere não adiantar os valores de facturação da produtora.

Meios & Publicidade (M&P): 2008 foi um ano complicado para a Índigo. O que aconteceu?

Manuel Faria (MF): Foi o ano da redução de equipa. No final de 2007 tivemos três pessoas que saíram. Em 2008 o Vítor Vingades, que era um dos nossos técnicos principais, fundou uma produtora de som. Além disso, reduzimos a equipa em dois músicos e em duas pessoas administrativas. Reduzimos mais por estarmos convencidos que não fazia muito sentido ter músicos funcionários. É uma sensação que fui ganhando pouco a pouco. Quando alguém procura uma música original também quer ir variando e a nossa oferta era sempre aqueles dois. Isso cria um efeito negativo tanto de quem contrata como de quem produz. Foi um ano em que o mercado mais se encolheu e nós também tivemos que encolher.

M&P: Mas 2009 começou com a mudança de imagem.

MF: A mudança de imagem já estava prevista. Havia muita gente a dizer que o logo estava a ficar antiquado. O claim era um jogo de palavras que já tinha esgotado um bocadinho.

M&P: Como está a correr o ano até agora? Nota muito a crise?

MF: Quanto mais se fala da crise pior. As pessoas têm de encará-la como uma oportunidade e não como uma fatalidade. Nós andamos a seguir novos caminhos, a apostar na inovação, a aproveitar estas mudanças de atitude. Nunca mais vamos voltar a ter o que tínhamos. Se estão à espera que 2009 passe depressa para depois vir um 2010 igual a 2003, isso não vai acontecer. E ainda bem, porque o mundo não pode andar para trás.

M&P: Mas que novos caminhos estão a procurar?

MF: Durante muitos anos fomos os especialistas dos filmes e dos spots de rádio. E tínhamos tanto trabalho que deixámos de ter tempo para reflectir. Desde há um ano para cá,- e em 2008 tivemos que enfrentar um modelo que já não funcionava-, começámos a reflectir sobre a nossa actividade, porque é que fazemos som, por que é que gostamos tanto disto e como poderíamos inovar. Temos andado a investigar há mais de um ano e meio novas soluções. Ainda não lhe posso dizer o que andamos a fazer. Estamos a investir em novos domínios que têm mais a ver com a comunicação web e que estão fora dos grandes meios (televisão e rádio). Tem a ver com novas formas de fazer e manipular som, e de produzir ficheiros sonoros.

M&P: Em que novas áreas estão a entrar?

MF: Estamos a colaborar com empresas de webdesign e de produção de eventos. Está tudo integrado numa comunicação em que o som tem uma importância primordial.

M&P: Num evento, em que aspectos entra uma produtora de som?

MF: Vou dar-lhe exemplos mais simples. Um hall de um hotel pode ter uma composição sonora. Uma exposição pode ter um design sonoro. Há muita coisa que se pode fazer fora do anúncio de televisão e do spot de rádio. É uma questão de se investir e se tentar ir por esse caminho.

Não se pode é dizer “tenho uma ideia bestial e custa X”, porque estas ideias ainda andam à procura do seu espaço próprio. Quanto mais a experiência for assumida por todas as partes, melhor. Um dos problemas da nossa sociedade é este: é difícil inovar porque as pessoas andam obcecadas em encontrar sítios de onde venha o próximo cheque. A pressão financeira sobre as empresas é tão grande que as pessoas estão pouco motivadas para fazer seja o que for que não aumente a facturação. Isto é um erro que se vai pagar caro.

M&P: Quais são os mercados em que estão a trabalhar, depois de Angola, Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau?

MF: Hoje em dia já não há países, há comunidades. Se nós estamos a desenvolver uma ideia de webdesign, por exemplo, que inclua áudio, essa ideia é suportada por um site e as encomendadas podem vir de qualquer sítio do mundo. Ainda hoje tivemos uma proposta de trabalho de uma produtora de imagem de Singapura. O mundo é cada vez mais global, e se nós somos vítimas dessa globalização também podemos ser protagonistas. Estamos a criar produtos que ainda não posso revelar, em que o cliente potencial é o mundo inteiro.

M&P: Como funciona o trabalho para os PALOP?

MF: Depende. Em Angola, há empresas, como o Banco Espírito Santo de Angola ou a Unitel, que procuram um certo de tipo de música mais internacional e aí fazemos nós. Nas coisas mais locais temos uma parceria com uma produtora de som em Angola, que trabalha em exclusivo com a Índigo para o mercado português, a quem recorremos quando precisamos de vozes angolanas ou ritmos tradicionais.

M&P: Mas não tem pessoas em Angola ou não planeia abrir um escritório?

MF: Não. As coisas já não se fazem assim. É muito mais importante ter um bom parceiro num sítio e que o negócio que se gere seja para os dois, do que estarmos a ir de armas e bagagens. Até porque em Angola não é fácil, é preciso ter alguém angolano na sociedade. Em Angola temos um excelente parceiro, a ProAudio.

M&P: Quanto é que ainda representa a publicidade na facturação da Índigo?

MF: Muito. Oitenta e tal por cento. A publicidade vai continuar a representar muito, mas a publicidade vai mudar também. Tudo isto vai mudar. Tenho a visão de que vai ser muito mais baseado em gerar conteúdos do que em prestar serviços.

M&P: Porque é que a concorrência na área de som é tão reduzida?

MF: Nós temos dado origem a várias produtoras. As três últimas produtoras de som criadas no mercado foram criadas por gente saída da Índigo. É uma actividade que requer uma grande disponibilidade e uma grande dedicação e o mercado está numa fase muito baralhada. Há um abismo enorme entre o mundo web e o mundo tradicional. E as produtoras de som estão todas localizadas no mercado tradicional, o que é um erro. Sabe como é que as produtoras web gravam som? Dentro de um armário, dentro de um caixote… Gerou-se no dia-a-dia web o conceito de fazer sem custos. E, de facto, os custos de uma hora num estúdio de som de publicidade são caríssimos. É um abismo que não se consegue reduzir. Não podemos ir falar com um web designer e dizer-lhe que cobro 150 euros por hora pela utilização do estúdio de som.

M&P: O som fica mais tempo na memória?

MF: Fica mais tempo na memória e provoca uma vivência pessoal das coisas. Se nós ouvirmos um tiroteio, participamos no que estamos a ouvir. Os nossos ouvidos não estão habituados a resistir. O nosso cérebro liga-nos imediatamente. Se estivermos a ver um filme com tiros, não nos diz nada. O som põe a nossa imaginação a trabalhar. É como ler um livro. Quando lemos um livro e depois vemos o filme ficamos desiludidos porque não é o que nós imaginámos. O som ajuda-nos a imaginar muita coisa. Ao vermos uma imagem já não podemos imaginar muita coisa, a não ser que seja uma fotografia.

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M&P: Quais foram os momentos mais marcantes da Índigo nestes 13 anos?

MF: O primeiro momento marcante foi vir para aqui [Restelo]. Foi um investimento monumental para o futuro.

Em 1998 foi a Expo, em que fizemos o som e a música do filme do Pavilhão de Portugal. Em 2000 fizemos a Exposição de Hannover. Em 2004 foi o Menos Ais, um marco na nossa vida.

M&P: E os filmes mais importantes?

MF: As campanhas de Gallo, Imperial, BES, Menos Ais e Alzheimer, que foi leão de ouro em Cannes. Se olhar para trás tenho que destacar os trabalhos mais pequenos porque acho que a Índigo se caracteriza pelo detalhe do que fazermos. As campanhas de Modelo e Continente são uma comunicação muito difícil, porque é muito mais fácil comunicar coisas juvenis do que grandes superfícies com imaginação. É uma comunicação que não dá prémios e que não dá nas vistas, mas é uma comunicação que faz parte do nosso dia-a-dia, e gostamos muito de fazer.