Joana Queiroz Ribeiro – directora de pessoas e comunicação da Unicer
Andamos todos desejosos de poder “virar a página” e encontrar na página seguinte qualquer coisa de diferente. Queremos todos voltar a ter maior segurança, deixar de viver neste ambiente que torna o nosso futuro, mesmo o próximo, imprevisível, voltar a poder planear e fazer projectos.
A questão que se coloca é que todos sabemos também que não vai ser fácil voltar a página. Mas, não ser fácil não significa que não o façamos. No entanto, todos temos que o querer e às vezes parece que não! …Que não estamos no mesmo barco.
Lia hoje num jornal que a Autoeuropa pode ter que vir a sair de Portugal. Porquê? Porque a administração da empresa não conseguiu, apesar de todos os esforços, convencer os seus colaboradores a aceitar a solução proposta para enfrentarem “o contexto actual de quebra de volume de produção”. Da carta enviada pelo Director-Geral aos colaboradores nem sequer consigo perceber medidas muito drásticas. “…a proposta apresentada pela Empresa garante todos os postos de trabalho, garante o futuro e garante o pagamento do trabalho extraordinário aos sábados sempre que o colaborador, no final do ano, tenha saldo positivo na sua conta de tempo. Isto é, se no final do ano tiver trabalhado 208 dias e não tiver saldo negativo de downdays, os sábados que tiver trabalhado nesse ano serão pagos como trabalho suplementar. Os sábados não serão pagos como trabalho suplementar quando, num ano, o colaborador tiver trabalhado menos de 208 dias”.
Pergunto-me porque será que os colaboradores da Autoeuropa não querem aceitar esta proposta? Não é que pense que os trabalhadores não devem defender os seus direitos, mas, não devem ficar surdos ao ponto de não quererem ouvir o que de forma tão transparente lhes está a ser comunicado. Pensarão que num ano como este, no contexto em que vivemos, sairão a ganhar deste braço de ferro?
Não conheço bem, nem a Autoeuropa nem o que está por detrás destas negociações, mas a ser verdade o que li, os seus 3.028 trabalhadores preferem ficar sem trabalho e sujeitar as suas famílias a “tempos” mais difíceis do que aqueles em que vivemos hoje, e, não menos importante, provocar que a segunda maior exportadora nacional, que representou 10% das exportações nacionais e 1% do PIB em 2008, a principal cliente da indústria de componentes – cerca de 50 empresas – que empregam 39 mil pessoas, saia do País, do que aceitar um acordo que os “força” a trabalhar 208 dias no ano.