
Ocenário não é novo, mas este ano deverá ser alargado a mais famílias. O número de portugueses que ficam nas cidades onde moram e se deslocam diariamente à praia ou a barragens deve ser este ano ser maior do que no ano anterior.
A campanha Descubra Um Portugal Maior, da autoria da MyBrand, apresentada em Fevereiro deste ano pretendia exactamente promover o turismo interno, convidar os portugueses a descobrir o país e compensar a previsível quebra do número de turistas estrangeiros. O objectivo traçado na altura por Manuel Pinho, ministro da Economia e Inovação, era aumentar em 700 milhões de euros as receitas da responsabilidade dos turistas nacionais. Com um investimento de quatro milhões de euros na campanha, o dobro do investimento que costuma ser gasto pelo governo para a promoção do turismo interno, o objectivo era que os turistas nacionais, até ali responsáveis por 35% das receitas desta indústria, passassem a ser responsáveis por uma quota de 45%. Até agora foram já investidos cerca de dois milhões de euros, estando um milhão de euros canalizado para esta fase de “last minute” antes da marcação de férias de Verão. O restante será para a época de Inverno (Setembro, Outubro).
Segundo Frederico Costa, vice-presidente do Turismo de Portugal, ainda é cedo para tirar conclusões sobre os resultados da campanha que começou há três meses, especialmente, diz, porque “ainda não dispomos dos números de Abril, que este ano incluiu a época de Páscoa e que é, normalmente, de grande procura por parte dos turistas nacionais”. Como a campanha se prolonga todo o ano, o mesmo responsável defende que só no final se poderão tirar conclusões em relação aos resultados.
“Tanto o Turismo de Portugal, como as Entidades Regionais de Turismo, como os empresários do sector estão empenhados em que cada vez mais turistas portugueses descubram o seu país”, garante Frederico Costa.
Segundo os últimos dados que o Turismo de Portugal tem (que reportam a 2006), a maior origem de turistas internos é Lisboa (34,4%l), seguida do Norte (29,8%) e do Centro (29,8%). O Algarve é preferido por 28,7%dos portugueses que gozaram férias fora da residência, seguido do Norte (17,2%) e do Centro (8,6%).
E aparentemente a crise ainda não está a atingir Portugal no sector do turismo. O número de passageiros desembarcados de voos internacionais aumentou seis por cento em 2008, face a 2007 e o número de hóspedes estrangeiros cresceu um por cento nesse mesmo período, diz o responsável do Turismo de Portugal. Só as dormidas registaram uma ligeira quebra (-2,1%), que não impediu, mesmo assim, um aumento de 0,6% nas receitas turísticas que se cifraram em 7,44 mil milhões de euros. Reino Unido, Espanha, Alemanha, França e Itália foram os países que por ordem decrescente geraram mais dormidas em Portugal em 2008.
Segundo Frederico Costa não é possível estimar para que números poderá cair o número de turistas estrangeiros a visitar Portugal este ano. “Aquilo que se verifica é que as quebras têm sido generalizadas nos países europeus”, comenta.
Nuestros hermanos
Também o mercado espanhol, apesar de estar aqui mesmo ao lado, parece estar a sofrer com a crise que vai nos bolsos dos portugueses. De acordo com dados do Frontur que controla os movimentos turísticos nas fronteiras em Espanha, nos primeiros quatro meses deste ano Espanha recebeu menos 12,2% de turistas portugueses face ao período homólogo do ano passado. Ou seja, passou de 702.095 turistas para os 616.403 este ano.
As maiores quebras em termos percentuais foram sentidas nas regiões da Galiza (-55,3%), Valência (-45%) e Múrcia (-40%). Já as maiores subidas em termos de procura foram nas Baleares (23%), Madrid (19%) e as Astúrias (7%).
Madrid (com 177.551 visitantes), Andaluzia (99.222) e Catalunha (73.911) são as regiões que conseguiram captar maior número de visitantes portugueses entre Janeiro e Abril de 2009. A nível global, Espanha recebeu no primeiro quadrimestre menos 11,9% de turistas.
Segundo dados do Instituto de Estudos Turísticos, citados por Paloma Notário Bodelón, directora da Delegação Oficial do Turismo Espanhol e conselheira de turismo da Embaixada de Espanha, foram 2.291.147 turistas portugueses os que visitaram Espanha durante o ano 2008.
A Comunidade de Madrid foi a mais visitada (22,83%), seguida da Galiza (17,77%) e da Andaluzia (14,70%).
Conhecendo a conjuntura económica do país, o natural é que haja um decréscimo em 2009, “mas penso que é cedo para falar em percentagens, pois ainda falta a temporada de Verão que representa sempre uma parte importante em relação a números finais”, comenta Paloma Notário Bodelón. E acrescenta que o único motivo é a crise mundial, que tem vindo a afectar todos os destinos e mercados emissores.
Paloma Notário Bodelón contou ao M&P que o orçamento publicitário para Portugal em 2008 esteve perto de alcançar um milhão de euros. Para este ano, diz, e até à chegada da campanha de Outono “não poderemos saber se haverá ou não alguma restrição no orçamento destinado a este mercado”. Para além do orçamento publicitário para Portugal, a delegação conta com um plano de marketing orçamentado, composto por vários tipos de acções. No sector turístico fazem apresentações e workshops de destinos e produtos espanhóis e fam trips. Para os meios de comunicação enviam informação sobre produtos e organizam press trips. Há ainda acções de marketing directo para a divulgação e promoção de novos produtos turísticos, campanhas locais para o público, com a distribuição de material de promoção directa ao consumidor final, e um investimento em bases de dados “com o objectivo de abordar nichos com informação sobre destinos e produtos da maneira mais certeira possível”, explica a directora da delegação.
Esta responsável considera que em termos de viagens com objectivos culturais e/ou gastronómicos, “devido à excelente oferta que temos e à proximidade geográfica, não existe nenhum destino que possamos considerar concorrente de peso”. Já no que diz respeito ao produto sol e praia, existem vários destinos concorrentes que podem alterar dependendo da época do ano, mas segundo Paloma Notário Bodelón são essencialmente o Brasil e os países das Caraíbas.
Do lado de lá do Atlântico
E o Brasil é precisamente outro dos países que tem tradição de investir em publicidade em Portugal. “O Brasil recebeu em média nos últimos cinco anos, 300 mil portugueses por ano”, refere Neila Araújo, chefe do escritório brasileiro de turismo, célula da Embratur (Instituto de Turismo ligado ao Ministério do Turismo).
Normalmente este país espalha o investimento ao longo do ano. “Para o início do ano já fizemos o que foi feito no início do ano passado. Não houve uma retracção em relação aos investimentos. Não sabemos como é que vai ser para o próximo semestre”, diz Neila Araújo. Com a crise, o governo federal retém um pouco dos orçamentos para ver o que vai acontecer. “Hoje não podemos afirmar que haverá mais campanhas”, acrescenta.
A responsável em Portugal do Embratur (responsável pela promoção, marketing, publicidade e cuidar da imagem do Brasil turisticamente por todo o mundo) explica que a promoção deste destino não se esgota nos anúncios de imprensa e exterior. “Houve um investimento grande em internet. Por inquéritos e estatísticas realizadas nós sabemos que o português é um dos europeus que mais consulta a internet antes de viajar. Chegámos ao consenso que deveríamos investir mais na publicidade, nos banners, nos sites em Portugal”, explica a mesma responsável. Além disso, investem também nos convites a jornalistas para conhecerem o Brasil. “Convidamos os jornalistas a ir ao Brasil, para determinados destinos, que trazem essas reportagens”, explica. Por exemplo, este mês saiu na Blue Travel uma reportagem de seis páginas sobre Jericoacoara.
“Isso não tem valor agregado. Ele fez editorial. Eu tive o prazer de convidar o jornalista, dando todas as condições para ele ir, tendo todos os encargos da viagem”, comenta. Também a Sábado fez “uma reportagem fantástica, que saiu no dia 14, sobre nove paraísos a descobrir no Brasil. Foi uma prenda para nós”. Neila Araújo resume que se tem falado muito do Brasil e de uma forma positiva. Ainda para promover o destino, foi lançado um guia no Expresso. “Foram 120 mil guias distribuídos com o jornal que passa pelas mãos de milhares de pessoas”, diz Neila Araújo.
Mas haverá algum país a concorrer com o Brasil como destino de férias dos portugueses? A resposta não é simples. É que na opinião da responsável da Embratur, para ser concorrente do Brasil há que ter aspectos parecidos como a distância, o sol e a praia. E neste aspecto os concorrentes são as Caraíbas (onde se inclui o México), a América do Sul (com a Argentina) e os EUA.
Neila Araújo explica que desde que foram lançados no ano passados charters para Miami e Orlando e que o dólar começou a cair, os EUA entraram no imaginário português.
Ainda assim, a responsável comenta que enquanto o Brasil recebe em média nos últimos cinco anos, 300 mil portugueses por ano, na República Dominicana entram 30 mil.
O Verão continua a ser a época mais forte para os portugueses irem para o Brasil. Apesar disso, existem momentos em que há grande fluxo de turistas como a Páscoa (viagens de finalistas) e a passagem de ano. Há também uma parte de portugueses que foge do período de maior concentração de viagens que são turistas com maior poder aquisitivo que viaja para o Verão do Brasil, fugindo do Inverno de Portugal. “Há também turismo de segunda residência. Muitos têm lá casa onde passam o Verão do Brasil e em Portugal passam o Verão de cá”, explica.
Quanto a destinos, o Nordeste (Natal, Fortaleza, Salvador) é a zona mais atractiva para os portugueses, apesar de também o Rio de Janeiro e São Paulo atraírem por causa dos negócios. “Temos muitos executivos que vão ao Brasil em negócios mais de seis vezes por ano”, comenta. Mas, ressalva, a grande motivação da viagem continua a ser sol e praia, apesar de estar a aumentar a motivação da cultura. E neste âmbito Minas Gerais e Brasília são destinos para onde a TAP também já voa.
Neila Araújo comenta que antigamente o turista ia para um local, onde ficava toda a estadia. “Hoje começa a pensar em entrar por um sítio, depois ir para outro e regressa por outro”, sublinha.
Apesar de não conseguir dizer se em 2008 houve quebra de turistas portugueses no Brasil por ainda não ter os números estratificado por país, “sinto um positivismo muito grande dos agentes de viagens e dos operadores de que o Brasil está a entrar novamente no imaginário dos portugueses”, diz a responsável. E acrescenta que por mais que não sejam muitos a viajar, estão a ir para o Brasil com uma melhor qualidade. Ou seja, estão a permanecer mais tempo e a escolher destinos de melhor qualidade. E estão a gastar mais. “Estão a ter um resultado mais positivo nos resultados de facturação. O objectivo é esse: gerar rending, dar sustentabilidade a uma região”, comenta.
A?estratégia de Cuba
Cuba recebeu em 2008 um pouco mais de 25 mil turistas portugueses. Quem o diz é Ana Maria Navarro, conselheira de cultura da Embaixada de Cuba que também acredita que em 2009 esse número vai descer um pouco devido à crise económica internacional. Mas, sublinha, a crise ainda não se começou a sentir já que nos três primeiros meses do ano os números mantiveram-se na mesma ordem de grandeza.
A responsabilidade das campanhas de publicidade de Cuba em Portugal e em Espanha está na Oficina de Turismo de Cuba, centrada em Madrid. Mas as campanhas de publicidade não são muitas, diz Ana Maria Navarro, justificando que o país não tem muito capital para investir. Daí que haja investimento nas feiras para se dar a conhecer. “A Oficina de Turismo de Cuba trabalha muito directamente com agências de viagens, dando a embaixada uma ajuda”, comenta.
A conselheira de cultura da Embaixada de Cuba refere o Brasil e a República Dominicana como os principais concorrentes na captação dos turistas portugueses. O Brasil é o maior concorrente, até pela ligação histórica que tem com Portugal, e a República Dominicana é muito semelhante a Cuba em termos daquilo que os turistas portugueses procuram, considera. Na terra de Fidel Castro, os destinos mais procurados pelos portugueses são Havana, Varadero e o centro do país (com Trinidad). À semelhança do Brasil, também em Cuba os portugueses já descobriram as vantagens de não assentar arraiais apenas nas praias. Há um aumento dos turistas que fazem circuitos e que querem conhecer os aspectos culturais e históricos do país, garante Ana Maria Navarro.