
O lançamento do Semanário Económico no primeiro semestre é o próximo projecto do grupo de media angolano Medianova. Liderado por Álvaro Torre, a holding detém activos como a TV Zimbo, a primeira estação privada do país, o semanário O País, a Rádio Mais e empresas na área da impressão, distribuição e publicidade. Em entrevista ao M&P, Álvaro Torre explica os seus planos e relações com empresas e grupos portugueses.
Meios & Publicidade (M&P): A Medianova detém a TV Zimbo, a Rádio Mais, o semanário O País, a gráfica Damer e uma empresa de distribuição. O que levou um grupo privado a entrar no mercado de media angolano e porquê esta estratégia de fechar o ciclo de produção?
Álvaro Torre (AT): Angola está numa nova era de abertura ao mundo depois de todo o período conturbado que teve. Dessa altura, um grupo privado com quem me relaciono decidiu ocupar um espaço que era importante e estava disponível. E ocupar um espaço para um grupo que fosse angolano, feito por angolanos. E nasce o grupo Medianova que é transversal às várias áreas de media.
M&P: Mas quais são exactamente os objectivos? O mercado publicitário em Angola ainda não vale assim tanto, segundo os números…
AT: Não sei que números tem.
M&P: Números da Marktest Angola relativos 2008 que dão a imprensa como valendo 30,7 milhões de dólares e a televisão, calcula-se, a valer entre 30 e 50 milhões.
AT: No ano passado o volume global foi 100 milhões e está a crescer a um grande ritmo. Esses números não andam muito longe, mas faltam aí uns milhões, porque há empresas e o Estado que também anuncia.
M&P: Têm a Damer…
AT: A Damer não tem nada a ver com a Medianova.
M&P: Não?
AT: Pode haver um chapéu comum, que são os accionistas, mas é outra holding na área industrial. Faz a sinergia, por acaso sou administrador das duas, mas são áreas de negócio diferentes. A Damer não é uma coisa fechada para o nosso grupo.
M&P: Um grupo concorrente pode então imprimir na gráfica.
AT: Sim, sem problema.
M&P: E a empresa de distribuição…
AT: Não existe nenhuma empresa de distribuição em Angola e nós queremos ter cobertura nacional, portanto decidimos montar uma empresa de distribuição que também distribui outros produtos que não os nossos. Criámos meios para nos afirmarmos. O País quer afirmar-se pela diferença na pontualidade e na regularidade do dia e hora de saída.
M&P: Alguns dos operadores com quem falámos apontam como uma das fragilidades do sector de imprensa em Angola exactamente a questão da distribuição. Dizem que não há muitos pontos de venda e que a distribuição é feita com base em ardinas.
AT: Têm razão. Os ardinas para nós são pontos de venda e temos a estratégia de desenvolver e criar pontos de venda. É preciso criar plataformas de distribuição. Estamos a fazer chegar a Angola caravanas e quiosques que vão estar com os nossos produtos e com aqueles que nos interessar, porque há produtos que não nos interessam e que não vão estar nos nossos quiosques.
M&P: Que produtos são esses ?
AT: São produtos que não têm qualidade e que não dignificam Angola. Contrariamente ao que dizem Angola dá muito espaço à liberdade de imprensa. As pessoas, por vezes, não sabem aproveitar e confundem e deturpam a realidade, portanto, há produtos em Angola que não têm qualidade.
M&P: Apesar da Damer não estar sob a umbrella do grupo Medianova, segundo a Angop, só na primeira fase do projecto, investiram 25 milhões de dólares, e o projecto total seriam 35 milhões. E isto é só a parte da gráfica. Montar jornais, rádio, televisão…
AT: Da gráfica não. Se fosse tanto dinheiro não teríamos essa capacidade.
M&P: Então globalmente qual é o investimento da Medianova e para quando a sua recuperação?
AT: À volta dos 50 milhões, a recuperar ao fim de três anos. O mais pesado é o projecto de televisão.
M&P: Vamos à televisão. A TV Zimbo começou em emissões experimentais no final do ano passado e tiveram a colaboração da Valentim de Carvalho Televisão (VCT) e da TVI/NBP, que prestaram consultadoria na área técnica. A relação com as produtoras mantém-se?
AT: Cessa. A VCT passa a ser uma produtora como outra qualquer que poderá fornecer conteúdos desde que tenha um bom preço e corresponda aos critérios da estação. Com a TVI não. Temos um protocolo que é renovável anualmente, válido pelo menos até ao final deste ano, e temos o apoio da TVI na gestão da estação, até termos os nossos quadros perfeitamente formados.
M&P: Esse protocolo passa também pelos conteúdos? Em antena já têm produto NBP nomeadamente novelas, Feitiço de Amor, e séries, Inspector Max.
AT: Sim, serão parceiros nessa área, no fornecimento de conteúdos.
M&P: Pensam criar, com esse parceiro ou com outra produtora, produtos especificamente para Angola?
AT: Estamos a fazê-lo. Já temos o embrião da nossa produtora, para já para entretenimento, e depois vai migrar para a ficção. Como o mercado de Angola é muito fechado, muito reduzido, com ausência de recursos humanos qualificados disponíveis, temos de formar as pessoas primeiro. Queremos afirmar-nos com produtos angolanos feitos com apoio de portugueses, brasileiros, mas produtos e produções feitas localmente.
M&P: Mas será sempre uma produtora detida pelo grupo, não terá uma participação externa?
AT: Há possibilidades.
M&P: Com um parceiro português?
AT: Se hoje nos damos com a Media Capital, com a Plural, com a Valentim de Carvalho, pode ser que o namoro dê em casamento.
M&P: E o ‘namoro’ como lhe chama está bem encaminhado?
AT: Nós damo-nos muito bem com a TVI.
M&P: Na imprensa detêm O País e anunciaram estar interessados em lançar um título na área da economia.
AT: Vai-se chamar Semanário Económico e será lançado no primeiro semestre [deste ano].
M&P: Esse espaço não estará ocupado pela Scoremedia que já edita a revista Estratégia e o semanário Expansão?
AT: O nosso produto não tem nada a ver com a Estratégia e com o Expansão. O nosso produto tem uma coluna vertebral perfeitamente angolana.
M&P: O que quer dizer com isso? Refere-se à parceria que esse grupo tem com a Económica?
AT: Não, não. Leia o Expansão e percebe.
M&P: Fala em coluna vertebral angolana. Como é que se concretiza?
AT: Nos conteúdos. Todas as matérias serão 80 por cento angolanas, claro que com a parte de economia internacional que nos interessa. A diferença está na forma como vamos trabalhar o conteúdo no terreno, não importando.
M&P: O Sol, depois da entrada da Newshold, uma empresa de capitais angolanos, na sua estrutura accionista, anunciou a distribuição em Angola e o lançamento de uma edição para este mercado. Encara o Sol como um eventual concorrente de O País?
AT: Normalmente os angolanos gostam de comer ou carne ou peixe. Ou é carne ou é peixe, produtos que não são nem carne nem peixe…
M&P: Não acha então que seja um concorrente.
AT: Não. Sabemos quão difícil é fazer um produto angolano de qualidade. Não estamos ainda com o nível de qualidade que queremos, estamos a trabalhar e iremos trabalhar sempre, e a aceitação do nosso produto foi muito boa. Ultrapassou aquilo que eram as minhas previsões e expectativas. O jornal já está a vender 7 mil por semana, o que é muito bom. Chegar ao final do ano a vender 12 mil – foi corrigido o objectivo de 10 mil – é perfeitamente atingível. É um produto genuinamente angolano e que veio marcar a diferença.
M&P: Acha então que edições locais de títulos ou marcas de outros países não têm propriamente grande sucesso no mercado angolano?
AT: Há marcas portuguesas de grande sucesso que são muito respeitadas em Angola, mas a marca que mais vende em Portugal está connosco, A Bola, e aí temos o exemplo prático. É um tema transversal, de futebol toda a gente gosta e une toda a gente. Mas mesmo aí, para conseguir ter o sucesso que quero ter com A Bola, tenho de angolanizar e ter pelo menos 50 por cento dos conteúdos.
M&P: Quando pensa atingir isso? Não é exactamente essa a realidade hoje.
AT: A Bola em questões editoriais é muito criteriosa e temos de assegurar que o nível de qualidade se mantém, mas estamos a trabalhar nesse sentido.
M&P: Há alguma outra área onde queiram entrar, eventualmente também com um parceiro português?
AT: Para já não.
M&P: E como é que o grupo olha para o mercado português? A Newshold já comprou uma posição num título. A entrada num grupo, num meio nacional, é algo que equacionam?
AT: Estamos atentos, mas não estamos a pensar neste momento em vir para cá. Estamos cá apenas como plataforma de recolha para os nossos conteúdos e injecção de alguns produtos angolanos.
M&P: Mas porquê essa opção de plataforma e não de investimento directo? O mercado não é atractivo?
AT: Neste momento o mercado publicitário está muito mau, para que é que estaríamos a arranjar dores de cabeça? Estrategicamente não faz sentido.
M&P: Diz que em Portugal é uma plataforma de recolha de conteúdos, têm um escritório cá. Há algum tempo falava-se na constituição de uma redacção. Abandonaram esse projecto?
AT: Neste momento temos três pessoas na área de informação. Para já não pensamos aumentar a nossa presença. Temos também a área comercial. Aí queremos ajudar as empresas que querem investir em Angola a saber anunciar e a vender em Angola. Temos aqui comerciais que são multimeios, ajudam a colocar publicidade nos nossos produtos ou com a agência de publicidade – onde está o Cristiano [Zancuoghi] – a angolanizar as campanhas para Angola.
M&P: Há algum tempo, em declarações ao M&P, tinha demonstrado a vontade de lançar em Portugal alguns dos títulos.
AT: Abandonámos isso. Temos a Chocolate, essa sim vai entrar na distribuição em banca. Com os outros produtos a distribuição será em alguns clientes que querem receber O País, por assinatura.
Devemos estar em Maio/Junho a fazer a festa de lançamento e a montar a distribuição em banca da Chocolate. Vamos arrancar com cinco mil exemplares.
M&P: Porquê a opção pela Chocolate e não O País, um dos títulos de referência do grupo?
AT: Pelo perfil do produto. A Chocolate é uma revista de lifestyle, as pessoas têm curiosidade pelo que se passa lá. Tem um nicho de mercado interessante e definido:
generalista, classe A/B. O jornal é um título de informação: 90 por cento do conteúdo do jornal é de Angola para Angola. Não temos cá mercado.
M&P: Há algum outro título do vosso portfólio que gostasse de distribuir cá?
AT: A única coisa que estamos a pensar fazer é uma brochura mensal que se chama Angola News, uma súmula dos artigos de O País que achamos que possa ter interesse cá, e será distribuída gratuitamente num dos jornais portugueses. Encartado num Expresso, num Diário de Notícias. Já devia ter arrancado, mas estamos na fase de formatação editorial. Será seguramente Julho.
M&P: Voltando a Angola. Têm a Rádio Mais que emite em Luanda e nos vossos planos está alargar as emissões da estação por outras cinco capitais. Quando é que vai acontecer?
AT: Huambo é agora em Maio. A estação está já montada. Em Junho será Lubito/Benguela e depois, no segundo semestre, as outras cidades. Não é uma emissão nacional. É Rádio Mais Luanda, Rádio Mais Benguela… A lei angolana para já não permite uma emissão nacional.
M&P: Actualmente já têm posições em diversos meios, inclusive publicidade. Daqui a dez anos onde vê a Medianova?
AT: Viemos mexer com o mercado angolano. Queremos liderar o mercado em Angola em termos publicitários e ser a referência em termos de media. Neste momento não é muito difícil atingir isso, mas Angola está a mexer, há outros grupos a chegar, temos de estar atentos.
M&P: Mas em Angola onde posiciona a vossa principal concorrência?
AT: Temos a televisão que nos dá muita força. Não há nenhum grupo de media que se atrevesse a estar nestas áreas todas, com a força que temos. O dia de amanhã não sei.
M&P: Sente que há sinais que poderá surgir esse grupo?
AT: Não tenho sinais, nem conheço. Pode haver pessoas interessadas em meter-se nesse tipo de negócio, é preciso coragem, não é fácil.
M&P: Disse que o vosso investimento total foi na ordem dos 50 milhões de dólares, com retorno a três anos. Dado o actual estado da economia mundial, Angola não está a sentir os efeitos da recessão? Em que medida afecta os vossos objectivos?
AT: Angola não está a sentir os efeitos da recessão, mas da redução do preço de petróleo que reduziu um bocadinho a nossa margem de manobra. Mas não só de petróleo vive Angola e tudo o que está a ser feito, a reconstrução da barra industrial, da agro-pecuária, vai continuar a fazer crescer Angola e não se prevê que nos próximos anos entremos em recessão.
M&P: Quem são os accionistas do grupo Medianova?
AT: Um grupo de empresários angolanos que se uniu para ajudar a fazer este projecto e para conquistar este espaço. É como em Portugal, as S.A. são para se respeitar e há razões pelas quais não interessa divulgar. São pessoas discretas, empresários que não querem estar rotulados a este tipo de projecto. Eu assumo o projecto, represento os accionistas.
M&P: Houve um nome que saiu cá para fora. O do general Manuel Hélder José Vieira Dias Júnior ‘Kopelipa’, chefe da casa militar do Presidente de Angola. Esta informação tem fundamento?
AT: Não tem fundamento.
LPM Publivision “nunca chegou a avançar”

M&P: Na área da publicidade o grupo tem uma agência. Trata-se da Publivision ou da LPM Publivision?
AT: Da Publivision. A LPM é um parceiro que em determinada altura trabalhou em Angola e precisou dos serviços da Publivision para a apoiar em alguns trabalhos.
M&P: Mas houve uma altura em que a própria LPM anunciou a criação da LPM Publivision. Essa estrutura terminou?
AT: Nunca chegou a avançar.
M&P: Pode adiantar os motivos? Foi um negócio dado como certo…
AT: Pois. Mas acabou por não se passar nada. Continuamos a ser parceiros estratégicos em projectos em que a comunicação da LPM é importante, e a Publivision leva aquilo que sabe fazer. Agora juridicamente são duas estruturas diferentes.
M&P: O objectivo é conquistar clientes portugueses?
AT: Temos contas interessantes em Angola que obrigam a muito trabalho e agora com o aparecimento de novas marcas queremos estar ao lado das novas marcas de refrigerantes, companhias de seguros, banca… O objectivo principal foi acrescentar valor à parte criativa da Publivision em Angola, para os clientes angolanos, mas também estar aqui e estrategicamente dizer que somos a primeira agência angolana que abre uma delegação em Portugal para ajudar os empresários que queiram anunciar em Angola. Em Portugal temos quatro criativos.
M&P: Falou em clientes de peso em várias áreas. Quais?
AT: Sonangol, somos a agência de referência dentro da Sonangol. Temos a BPC, Angola Telecom…
M&P: Muitas agências portuguesas já anunciaram o interesse e outras já abriram delegações em Angola. Vê-as como potenciais concorrentes?
AT: O mercado é grande e está a crescer. Têm de fazer um bom trabalho, mas há espaço para todos.
M&P: Onde é que vê então neste campo a sua principal concorrência?
AT: A agência que beneficiou de estar mais bem estruturada e esteve sozinha em Angola: a Executive Center.