No dia 29 a Portugal Telecom (PT), vencedora do concurso para a plataforma de distribuição dos canais em sinal aberto e pagos, arranca com as primeiras emissões de Televisão Digital Terrestre para os canais gratuitos.”Não serão apenas oito a dez localidades, mas sim mais de dez”, afirmou recentemente Zeinal Bava, presidente da operadora, num encontro promovido pelo Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), citado pela agência Lusa. As emissões experimentais, garante o responsável, iniciam-se ainda em Abril em diversas localidades de Lisboa, Porto e Ilhas, prevendo que, até ao final do ano, 80 por cento do território esteja coberto. “Para além disso teremos cobertura global do território no final de 2010″, frisa fonte do gabinete de comunicação da PT, em declarações ao M&P. Recorde-se que o switch off ocorrerá em 2012. No que se refere aos canais pagos, estava prevista uma antecipação de 18 meses para este objectivo. Mas ocorreram alguns imprevistos. Os timings avançados pela operadora aquando da apresentação da sua candidatura sofreram um atraso de quase oito meses provocado pela contestação que resultou numa providência cautelar colocada pela AirPlus TV Portugal, liderada por Luís Nazaré, pondo em causa a decisão da ANACOM de atribuir a maior pontuação do concurso à PT. Apesar disso, assegura fonte do gabinete de comunicação da operadora, “o calendário de implementação continua o mesmo que já tínhamos anunciado”.
Se no concurso para os pagos o processo sofreu o impacto da disputa judicial com a AirPlus TV, nos canais em sinal aberto a Televisão Digital Terrestre perdeu, por agora, um poderoso aliado que poderia servir de incentivo a uma migração mais rápida dos consumidores para o novo sistema de distribuição: o quinto canal. (ver caixa). De canal mais desejado por grupos de media como a Cofina ou a Controlinveste e contestado por outros como a Impresa e a Media Capital, a abertura de um concurso para um novo canal acabou por saldar-se numa mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Após a expectativa gerada, a concurso apresentaram-se dois candidatos, a Zon Multimédia, e a inesperada, Telecinco, projecto encabeçado por profissionais como Carlos Pinto Coelho, David Borges, Ana Rangel, ao qual se juntou numa fase posterior Emídio Rangel, consultor da Zon Multimédia para este processo e cuja proposta tinha sido entretanto chumbada pela operadora. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) acabou por afastar logo na fase inicial os dois projectos, invocando falta de fundamentação das candidaturas tanto em termos de capacidade ao nível do número de recursos humanos alocados, caso da Zon Multimédia, como do projecto económico-financeiro apresentado pela Telecinco. E nem as justificações apresentadas fizeram a ERC inverter a decisão, concluindo-se pela exclusão das duas candidaturas. A decisão foi fortemente contestada pela Telecinco que, em finais de Março, anunciou ir avançar para a justiça.
“Vamos avançar com uma providência cautelar que anule esta decisão e reponha a Telecinco como concorrente, pois consideramos a posição da ERC ilegal”, disse na altura Carlos Pinto Coelho, porta-voz da Telecinco, acrescentando que “só nos resta os tribunais para ir buscar a justiça onde a ERC não nos quis dar”. A Telecinco tinha 30 dias para interpor a providência cautelar e para avançar com o processo contra Azeredo Lopes, Elísio Oliveira e Estrela Serrano, três dos cinco membros do conselho do órgão regulador que votaram a favor da decisão de não aprovação das propostas da Telecinco, considerando haver uma “posição de abuso de poder”. Até ao fecho desta edição a ERC não tinha recebido qualquer notificação, apurou o M&P junto a fonte do organismo regulador, mas contactado pelo M&P, Carlos Pinto Coelho reitera a intenção da Telecinco avançar para os tribunais.
Os desafios dos canais em sinal aberto
A concretizar-se, como afiançam os responsáveis da Telecinco, a providência cautelar irá impedir o lançamento de um novo concurso para o quinto canal, atrasando o surgimento de um novo player na televisão em sinal aberto a concorrer com a TVI, SIC e RTP. Operadores que, aliás, se debatem com um mercado publicitário que reflecte o actual momento de recessão, e que já se fez sentir nas contas dos operadores no ano passado. A única excepção foi a TVI que, em 2008, de acordo com o relatório e contas do grupo, obteve receitas de publicidade 153,1 milhões de euros, ou seja, mais 5 por cento do que em 2007, embora tenha reflectido no último trimestre de 2008 o clima recessivo que se vinha a instalar no mercado, descendo 1 por cento nas receitas.
Já na SIC a quebra foi mais acentuada, tanto a trimestral (-14,5 por cento), como a anual, em que a estação vê as suas receitas de publicidade descer 5,7 por cento, para os 109,2 milhões. Na RTP o decréscimo foi de 5 por cento, fixando as receitas da estação pública oriundas desta fonte (que representa 17 por cento do total de receitas da RTP) nos 51,5 milhões de euros.
Líder de audiências também em 2008, situação que se mantém no primeiro trimestre deste ano, a TVI obteve receitas operacionais na ordem dos 39,5 milhões de euros.
Mas, foi caso único nas estações comerciais. Na SIC, a performance não foi tão positiva, com todas as linhas de receita, com a excepção das dos canais de subscrição, a acompanharam a tendência negativa das de publicidade. No ano as receitas multimédia caíram 23,4 por cento, para os 16,3 milhões de euros, e as inscritas no item Outras desceram 47,6 por cento, para os 7,9 milhões de euros.
Descidas que a subida nas receitas obtidas pela subscrição de canais, que se fixam nos 38,1 milhões de euros, não foi suficiente para contrabalançar. A receitas em quebra junte-se o aumento de custos operacionais e os de reestruturação, decorrentes da reorganização devido ao encerramento de unidades de negócio como a AdTech, SIC Indoor e a alienação da Iplay (por um euro), que sobem de 674 mil euros para 4,2 milhões, e o resultado são prejuízos de 6,2 milhões de euros.
Na RTP, apesar das receitas operacionais de 8,8 milhões de euros, cerca de mais dois milhões do que em 2007, e da diminuição dos custos operacionais, o factor subida de impostos influenciou negativamente os resultados da empresa, fechando 2008 com prejuízos de 46,9 milhões, agravando em mais 10,8 milhões os resultados líquidos do grupo, que no ano passado fixou a sua dívida nos 778 milhões de euros.
E na televisão por subscrição
O ano de 2009, sinalizam os indicadores de mercado, não se apresenta fácil do ponto do investimento publicitário, colocando os operadores em sinal aberto ainda sob maior pressão. Na SIC o ciclo de reestruturação parece ter chegado ao fim em finais de Março, com a venda da Terra do Nunca (TDN) à SP Televisão por 1,7 milhões de euros, e dos 90 por cento detidos na empresa de legendagem e dobragem Dialectus vendidas a Isabel Monteiro, detentora do restante capital da empresa, por 540 mil euros. A estação quer, justificam os responsáveis, focar-se no core da sua operação, abandonando, ao que parece com a venda da TDN, a vontade de construir uma produtora de ficção que concorra com a NBP, agora Plural Entertainment, da TVI. Com a ‘casa arrumada’ o enfoque dos responsáveis da estação de Queluz estará certamente na recuperação das audiências. É que, ao contrário do que as audiências de Janeiro poderiam indiciar, a estação fechou Fevereiro e Março como o terceiro canal mais visto, depois da TVI e da RTP1, o que certamente se deverá reflectir nas receitas publicitárias da estação comercial com mais canais no cabo.
De resto, nesta plataforma a televisão de Carnaxide assumiu em Março o controlo total do capital da Lisboa TV, ao adquirir por 20 milhões de euros os 40 por cento detidos pela Zon na empresa da SIC Notícias. A decisão pôs fim ao direito de preferência que a SIC tinha em caso do lançamento de novos canais na Zon TV Cabo e surge pouco tempo depois do lançamento do TVI 24 (ver caixa). No âmbito deste acordo, a SIC também negociou com a Zon um novo contrato de distribuição dos canais temáticos, válido até 2013, mantendo-se até lá a exploração comercial do canal nas mãos da Zon.
O acordo, além do lançamento da TVI 24, foram algumas das mudanças que marcaram o sector da televisão por subscrição este ano, onde o cabo se debate com o surgimento de novas plataformas (como a IPTV) e operadores (Meo). A Zon lidera em número de subscritores fixando até Dezembro, de acordo com valores preliminares da operadora revelados em Fevereiro, nos 1.525 milhões.
Valor que representa uma descida de um por cento em relação a 2007. No último trimestre do ano passado a Zon perdeu 14 mil clientes, reflectindo “uma combinação de crescimento continuado na base de subscritores de cabo, e uma redução nos clientes de satélite”, valor que, todavia, representa uma melhoria face aos 18 mil clientes perdidos no trimestre anterior. Contudo, entre novos subscritores e clientes perdidos, no saldo de 2008 a operadora perdeu 22 mil clientes neste serviço. Já o serviço digital apresenta uma melhor performance com a Zon a aumentar no último trimestre do ano passado 50 mil clientes no serviço digital, fixando o número de clientes nos 496 mil subscritores.
O maior clima concorrencial – com o Meo, da PT a registar até Dezembro 300 mil subscritores – , admite a operadora em relatórios anteriores, também contribuiu para a performance da Zon, influenciando negativamente os resultados da Cabovisão. Este mês a Cogeco, proprietária da Cabovisão, admitiu no seu relatório referente ao primeiro semestre do ano fiscal de 2009 (que terminou em Fevereiro) perdas de imparidade de 243 milhões de euros (399,6 milhões de dólares canadianos) na operação cabo portuguesa. Efeitos, dizem, motivados por “uma recorrente pressão concorrencial resultando em perda de subscritores significativamente mais importantes do que inicialmente previstas”. A situação, admitia em comunicado Louis Audet, presidente e CEO da Cogeco, “resultou numa perda de valor do investimento da Cogecable na subsidiária portuguesa”, mas a operadora “está em processo de implementar novas iniciativas de marketing e operacionais para melhorar os resultados da operação europeia”.
O factor quinto canal?
Com o quinto canal numa fase de indefinição, até que ponto isso poderá afectar o ritmo de migração para a TDT antes do switch-off? Zeinal Bava acredita que a TDT continua atractiva mesmo sem este factor adicional. “As pessoas vão ter uma televisão com melhor imagem e som. Elimina definitivamente os problemas de recepção do sinal de TV, que há em certas zonas de Portugal, e, finalmente, parte da experiência que hoje damos no Meo vai passar a estar disponível grátis e isso é um salto qualitativo na oferta televisiva no nosso país”, argumentava o presidente da PT, citado pelo Correio da Manhã.
Um ponto de vista também sustentado por André Freire de Andrade. “Naturalmente, a oferta adicional levaria a uma migração mais rápida, fazendo com que as pessoas não deixassem a mudança de equipamento para o final”, comenta o CEO da Carat. Contudo, o responsável da agência de meios considera que “as funcionalidades que a TDT possibilita”, por um lado, e as próprias campanhas de comunicação poderão funcionar como fortes incentivos à migração.
Quanto aos descodificadores, estes explica fonte do gabinete de comunicação da PT, “estarão disponíveis no mercado e serão disponibilizadas por vários fornecedores de equipamentos. Terão um custo, que será o mercado a ditar qual será. A PT irá subsidiar a aquisição de caixas descodificadoras para famílias com rendimentos mais baixos e cidadãos com necessidades especiais”. Dos 120 milhões que a operadora reconheceu no momento da apresentação da sua candidatura ir investir na TDT, 40 milhões de euros serão canalizados para a subsidiação do equipamento para grupos sociais com situações financeiras mais fragilizadas (pensionistas com rendimentos até 500 euros mensais, famílias beneficiárias do rendimento social de inserção ou instituições de carácter social) e, destes, 15 milhões serão dirigidos para o apoio à compra de equipamento nos canais em sinal aberto e 25 milhões para os canais pagos.
Qual o impacto da TVI 24?
Criar no cabo um “espaço de referência” que transporte para esta plataforma de distribuição “a independência e verdade” que caracterizam o jornalismo produzido pela TVI era o objectivo de José Eduardo Moniz, director-geral da estação da Media Capital, relativamente ao TVI 24. O debate, as entrevistas, o comentário de figuras como Vasco Pulido Valente, Augusto Santos Silva, Fernanda Câncio (que entretanto saiu), Joaquim Pina Moura, Nuno Morais Sarmento ou Fernando Seara foram algumas das apostas do primeiro canal cabo da TVI, concretizando em Fevereiro uma ambição há muito manifestada pelo grupo Media Capital. O canal também apostou para a apresentação dos programas como Rédea Solta e Conversa Indiscreta, em figuras que, à partida, não associaríamos de forma imediata a um canal informativo, como os actores Pedro Granger e Alexandra Lencastre.
Com pouco menos de dois meses no ar é difícil avaliar até que ponto a fórmula desenhada pela estação de Queluz será ou não capaz de arredar a SIC Notícias, canal informativo líder no cabo, da sua posição cimeira, mas os indicadores de audiências dão alguns sinais de que esse pode ser o futuro. O canal fechou Março com uma audiência média de 0,1 por cento, sendo visto por uma média de 3.100 espectadores, e registando um share de 1,5 por cento.
Números que colocam a TVI 24 na 17º posição dos canais mais vistos por cabo (valores que, dada a data de lançamento são apenas referentes a Fevereiro e Março).
Ainda longe, por conseguinte, dos 0,6 por cento de audiência registados pela SIC Notícias que, no mesmo período conquistava uma média de 28.400 espectadores e obtinha um share de 13,7 por cento. E também da RTP N. O canal, reformulado em Outubro passado, de Janeiro a Março obtém uma audiência de 0,2 por cento, sendo visto por uma média de 11.400 espectadores, tendo nesse período obtido um share de 5,5 por cento, o que o levou a subir uma posição, para o quarto lugar no top dos canais mais vistos no cabo, ultrapassando o Hollywood. Talvez dados mais significativos possam ser retirados na comparação dos resultados dos dois canais no primeiro trimestre de 2009 com igual período do ano passado. Nesse período a SIC Notícias mantinha a liderança com 0,5 por cento de audiência, sendo vista por 24.100 espectadores e tinha um share de 11,9 por cento. Já a RTPN encontrava-se na oitava posição do ranking com 0,2 por cento de audiência, sendo visualizada em média por 8.700 espectadores, e um share de 4,3 por cento. Valores que, comparados com este ano, parecem indiciar que a entrada da TVI 24 na luta pelas audiências não afectou negativamente a performance dos dois canais já existentes.
Também no perfil de audiência o TVI24 apresenta algumas diferenças face aos seus concorrentes. Grande Lisboa e Sul, com 43,9 por cento e 5,2 por cento, respectivamente, são as regiões do país em que o canal cabo da estação de Queluz assinala percentagens superiores. O canal é visto, sobretudo, pela classe C1 (39,5 por cento), seguida da C2 (20,8 por cento), e apesar de, à semelhança dos seus concorrentes, ter uma audiência principalmente constituída por homens (52,4 por cento), tem mais mulheres a seguir a sua programação (47,6 por cento).
Analisando as audiências do ponto de vista etário também se denotam diferenças entre os canais, com o TVI 24 a obter valores mais elevados, face aos outros canais, junto aos indivíduos com mais de 65 anos (32 por cento), entre os 44/54 (18,4 por cento) e entre os 15/24 (6,3 por cento). Um relativo sucesso junto a esta última faixa etária que talvez ajude a explicar o facto do programa Rédea Solta, apresentado por Pedro Granger, ser um dos mais vistos do canal com uma audiência de 0,9 por cento, com os formatos dedicados ao desporto como Prolongamento (1,6 por cento), Tarde Desportiva (1,1 por cento) e Mais Futebol (1,0 por cento) a ocuparem os lugares cimeiros. O Jornal do Dia surge em quarto lugar (1 por cento). O sucesso dos programas desportivos é também visível na RTPN que coloca no primeiro trimestre três formatos dessa área nos mais vistos, e na SIC Notícias que posiciona O Dia Seguinte e uma Edição Especial que colocou frente-a-frente Soares Franco e Dias da Cunha.
O posicionamento dos canais em termos de audiências também se reflecte necessariamente no volume de investimento cativado, com mais uma vez o canal informativo de Carnaxide a assumir a liderança com 15,9 milhões de euros (preços de tabela) dos canais de informação e do cabo, seguido, no que respeita aos canais de informação pela RTPN com 5,9 milhões de euros. Durante o tempo de emissão a TVI1 24 obteve 1,6 milhões de euros.