
Per Mikael Jensen, chief executive officer da Metro Internacional, acredita que o gratuito Metro vai ser editado em Portugal “por muitos, muitos anos”. Em entrevista ao M&P, o responsável do Metro nega que a operação portuguesa do diário gratuito esteja em risco e que um cenário de encerramento, à semelhança de Espanha, seja possível, já que “em Portugal temos uma posição muito mais forte do que a que tínhamos em Espanha”.
Meios&Publicidade (M&P): De acordo com o vosso relatório e contas, em 2007 a operação portuguesa do Metro tinha atingido, pela primeira vez, lucros. Em 2008 as receitas líquidas caíram 20 por cento, 41 por cento apenas no último trimestre. No mesmo período em Espanha, operação entretanto encerrada, os números caíram 22 por cento e 33 por cento, respectivamente. Com estes números, a operação portuguesa está em risco?
Per Mikael Jensen (PMJ): Não, não está. A decisão que tomámos em Espanha foi muito ‘espanhola’. Vimos que nos próximos três anos a economia espanhola não iria recuperar e decidimos deixar de publicar o jornal. Em Portugal, temos uma posição muito mais forte do que a que tínhamos em Espanha, temos uma marca mais forte. Somos claramente o primeiro entre os três principais jornais, em Espanha éramos provavelmente o terceiro, entre quatro jornais.
M&P: Diz que na decisão pesou a posição relativa face aos outros operadores, mas também uma análise do mercado publicitário. Segundo os vossos números, previram para 2009, em Espanha, uma queda de 12 por cento. As previsões para o mercado português não são assim tão diferentes. Que garantias pode dar de que a operação portuguesa não tenha o mesmo desfecho da espanhola?
PMJ: Em Portugal, com a nossa fatia de mercado, pensamos que podemos ter um desempenho um pouco melhor do que outros media e a razão é porque o Metro é uma marca com muito mais propostas de media para os anunciantes. Portanto, embora o mercado esteja em queda, podemos conquistar fatias de mercado dos nossos concorrentes.
M&P: Em Portugal, à semelhança de Espanha, existem outros três diários gratuitos e, recentemente, o semanário Sexta fechou por estar a ter um desempenho abaixo das expectativas. Neste cenário, com vários concorrentes, com o investimento publicitário a cair, o Metro tem as condições para cumprir os objectivos, tornando-se novamente rentável?
PMJ: Certamente que sim. Estamos a planear o nosso encontro global de quadros para Lisboa, em Junho, tal como sucedeu o ano passado. Teremos 200 executivos vindos de todo o mundo Metro, do Chile, México, Hong Kong, de toda a Europa… Não o faríamos se pensássemos fechar a operação.
M&P: Há mercado suficiente para o Metro e os seus concorrentes? Não considera que o que sucedeu com o semanário gratuito possa ocorrer com um dos diários?
PMJ: Não posso falar pelos outros operadores no mercado, não conheço a sua situação financeira. Nós temos uma perspectiva de longo prazo nos mercados onde estamos, tal como em Portugal. Os nossos proprietários estão bastante satisfeitos com o nosso desempenho e sabem que em Portugal não será fácil, mas é a vida.
M&P: Em Portugal têm uma parceria com a Media Capital (MC). A possibilidade de encerramento ou de mudanças drásticas no Metro Portugal tem sido discutida com este parceiro?
PMJ: Estamos sempre a discutir a forma como deveremos gerir o negócio, mas não discutimos nenhum encerramento, ou algo assim, com a Media Capital.
M&P: Numa entrevista ao La Tribune admitiu estar aberto a que a TF1, que detém 34 por cento do Metro França, reforce a sua posição. Discutiu esta possibilidade com a MC? Ou a compra da participação detida por este grupo?
PMJ: O que disse é que estamos sempre abertos a discutir todo o tipo de parcerias, não disse nada de específico, mas o jornalista decidiu colocar isso de outra forma. Mas isso é o jornalismo.
M&P: Quer clarificar então o que disse, já que só tivemos acesso ao que foi publicado?
PMJ: O que disse é que em todos os nossos mercados estamos sempre a discutir qualquer tipo de estrutura.
M&P: Imagino, então, que a sua resposta se aplique à situação portuguesa.
PMJ: Esse é um dos nossos mercados, portanto, estamos obviamente dispostos a discutir qualquer estrutura. Não estou a dizer que estamos a discutir com o nosso parceiro, mas sim que estaria disposto, como sempre, a discutir.
M&P: Mas já foi contactado pelo vosso parceiro com alguma proposta?
PMJ: Nunca comentámos isso.
M&P: Olhando para os números de 2008 a operação do Sul da Europa foi aquela que apresentou piores resultados. Negativos, aliás. Estes mercados ainda são estratégicos para o Metro Internacional?
PMJ: Sim, bastante.
M&P: Portanto, em nenhum cenário antecipa o encerramento de nenhuma das operações? E não me refiro apenas a Portugal, porque, de acordo com os vossos números, França e Grécia também estão a obter resultados menos bons…
PMJ: Essa é uma pergunta que induz uma resposta. Se as vendas baixarem 95 por cento nos próximos cinco anos, penso que não irão existir quaisquer publicações em nenhum mercado, mas tal como as coisas estão… Sabemos que são tempos difíceis, que os mercados, em especial os do Sul da Europa, estão difíceis, mas sentimos que temos uma forte posição em Portugal e, por isso, consideramos que é um mercado bastante promissor. Temos uma forte equipa de gestão, uma forte equipa editorial que faz um bom jornal. Estamos confiantes, pode levar algum tempo, que irá recuperar.
M&P: Em França algumas notícias falam da possibilidade do Metro chegar a acordo com outros gratuitos, nomeadamente os que são propriedade do Schibsted, que detém 35 por cento do Metro Suécia. É conversa de jornalistas ou uma possibilidade real?
PMJ: Penso que é conversa de jornalistas (risos).
M&P: Portanto, são apenas rumores e não um possível desfecho?
PMJ: Não comento eventuais negociações. Uma das razões é porque é ilegal [por estarem em bolsa].
M&P: No relatório e contas da empresa diz olhar para 2009 como “um cenário particularmente negro” para o mercado publicitário mundial. Portugal não parece ser excepção. Qual é a vossa estratégia para ultrapassar esta fase?
PMJ: Num mercado que não cresce – e não penso que os mercados publicitários vão crescer em 2009 – torna-se tudo uma questão de fatia de mercado. O que queremos garantir é que, se o mercado está a decair globalmente em 2009, temos de estar numa posição em que podemos ganhar fatia de mercado aos outros players. Penso que estamos numa boa posição para isso, porque o Metro é um meio muito eficaz para a publicidade.
M&P: Neste momento os preços de publicidade estão bastante baixos. Nesse contexto há algum espaço de manobra para ganhar fatia de mercado aos outros operadores? Qual a estratégia?
PMJ: Por vezes assistimos a situações como esta, onde os preços estão a cair, porque alguns operadores decidem baixar os seus preços porque estão a entrar em pânico e fazem qualquer coisa para ter publicidade nas suas páginas. A boa notícia é que a determinado ponto isso irá parar, porque as receitas vão cair. Aí, ou param ou têm de fechar. Em 2008 vimos 27 jornais gratuitos a fechar no mundo, muitos deles na Europa. E recentemente vimos o mesmo em Portugal. Temo que muitos mais se seguirão, mas não será o Metro.
M&P: Em Hong-Kong lançaram produtos editoriais como o Metro Pop, uma revista de lifestyle, e Metro Box, sobre moda. Pensam lançar este tipo de produtos no mercado português?
PMJ: Estamos a olhar para extensões de marca, mas neste momento é muito uma questão de timing para expandir o negócio. Quando os mercados estão em queda, obviamente, tem de olhar para os seus custos e ver se se está a fazer as coisas da forma o mais eficiente possível. Mas em alguns mercados esta poderá ser uma oportunidade para expandir o negócio e Portugal é um dos mercados onde estamos a pensar fazer isso.
M&P: Algum timing para avançar com essa decisão?
PMJ: Nenhum que possa comunicar.
M&P: O tempo dos jornais gratuitos, em particular na Europa, pode estar a passar?
PMJ: Penso que não. No ano passado apesar de ter sido um ano muito difícil, tivemos lucro em metade dos países onde estamos presentes (nove em 20). Em 2007 tivemos lucros em 16 de 20 países.